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Infelizmente o Colégio Polilogos está em fase de encerramento das suas atividades. Há algum tempo atrás já havia abandonado o ensino médio e o ensino fundamental do sexto ao nono ano e este ano vai ser o último do ensino fundamental do primeiro ao quinto ano. Já houve um pronunciamento oficial da ABEC (Associação Brasileira de Educação Coreana, entidade que mantinha a escola) e de representantes do Ministério da Educação da Coreia. Foi decidido que por enquanto apenas o ensino infantil continuará funcionando e há planos para mudança de local, deixando o prédio da Rua Solon.

Apesar de na condição de membro da comunidade coreana e pai de aluno ter opinião formada sobre os acontecimentos que levaram a escola a tal ponto, concentrarei o meu post em memórias pessoais, pois tive o grande privilégio de acompanhar este projeto desde o seu início. Houve erros? Certamente. De qualquer maneira, independente das razões do fechamento, o ponto mais importante é que a escola perdeu muitos alunos ao longo do tempo, o que a deixou com a saúde financeira insustentável para o seu prosseguimento. Havia menos alunos do que o mínimo necessário para um ponto de equilíbrio entre receita e custo.

1996
A ABUC participou ativamente na arrecadação de fundos para a construção do Colégio Polilogos (1996)

O meu envolvimento com o Colégio Polilogos se deu na década de 90, quando eu era presidente da Associação Brasileira dos Universitários Coreanos e quando um grupo de coreanos (na sua maioria formados aqui) decidiu iniciar o projeto. Coincidentemente, muitos incluindo o primeiro presidente desse grupo que posteriormente foi chamado de ABEC, eram meus veteranos de faculdade da Fundação Getúlio Vargas, então a minha participação acabou se dando naturalmente. Achei a ideia incrível e acabei me envolvendo a ponto de ser voluntário na contabilidade por dois anos. Fora isso, ajudei na arrecadação de fundos dentro da comunidade coreana e eu mesmo fiz doações naquela em que um dia sonhei que meus filhos estudariam. Acompanhei desde a aquisição do terreno até a construção do prédio e da decisão do nome: “polilogos”, ou muitas línguas, representando a missão e o espírito que moveria as pessoas envolvidas no projeto.

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O auditório do Colégio Polilogos já foi palco do KDT, o maior concurso de covers de K-Pop do Brasil

No início, foi um sucesso e centenas de estudantes estariam matriculados na primeira escola bilíngue português-coreano da America Latina. Muitos desses estudantes hoje são formados em excelentes universidades como a USP, Unicamp e Unesp. Mas aos poucos, o contexto em que a comunidade coreana estava inserida mudou e muitos pais decidiram colocar seus filhos em escolas mais “tradicionais”. Somada a isso, uma crescente “desvalorização” da cultura coreana dentro da própria comunidade ajudou a mudar os rumos do empreendimento educacional, tocado em conjunto com o Ministério da Educação da Coreia tanto financeiramente como academicamente.

Nos últimos anos, o colégio ficou conhecido entre os amantes da cultura coreana pelo fato de ser utilizado para diversos eventos. Inclusive o Koreapost realizou junto com a ONG Inovar Educação e o Kowin (Korean Woman International Network) um evento de doação de livros coreanos do acervo do colégio e em conjunto com a K.O. Entertainment realizou uma semifinal do Kpop Dance Tournament no seu auditório. E apenas para esclarecer, nós pagamos o valor correto pelo uso do auditório.

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Evento de doação de livros organizado pelo Koreapost junto com a ONG Inovar Educação e o Kowin
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O Colégio Polilogos foi um marco da comunidade coreana no Brasil

Na memória, ficarão muitas lembranças, como o campeonato de futebol da Associação Brasileira dos Universitários Coreanos que era realizado anualmente na quadra poliesportiva e a primeira escola de língua coreana para brasileiros, que criei junto com a amiga Hanna Kim quando o povo ainda nem sabia o que era K-Pop e nem existiam tantas pessoas que empunhavam a bandeira da cultura coreana como hoje. Muitos professores fantásticos passaram pelo Polilogos e eu ainda tive sorte de ver a minha filha estudar nele por dois anos. E a minha esposa ainda foi a professora de dança tradicional coreana do colégio entre 2002 e 2004 quando era recém-chegada no Brasil, portanto, serão muitas lembranças.

Não sou de guardar rancores, mas digo aos que não só torceram contra (e esses existiram) mas efetivamente jogaram contra este projeto, que não sabem o mal que causaram, era o futuro da nossa comunidade que estava em jogo. Se não queria ajudar, ao menos que não atrapalhasse, mas enfim… De qualquer maneira, representantes do Ministério da Educação da Coreia estiveram no Brasil recentemente e deixaram em aberto que algo poderá ser feito a respeito, num futuro próximo. Mas o Colégio Polilogos como um dia eu o conheci, talvez não volte nunca mais. Fica a esperança que o governo coreano decida de alguma forma voltar com algum projeto para manter a língua e a identidade dos jovens descendentes de coreanos.

Para as pessoas que se dedicaram para levantar este projeto, a minha admiração. Para os brilhantes professores que passaram por esta casa, a minha (nossa) gratidão. Para o Colégio Polilogos, que me marcou muito e esteve presente durante metade da minha vida, o meu obrigado e quem sabe, até breve!

 

 


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




8 Comentários

  1. Conheci o colégio através de seus textos e já era fã. fazia até planos em participar do evento de doação de livros da próxima vez. Fico na torcida pela esperança lançada, pelo Ministério de educação da Coreia. Sinto muito!

  2. Nossa muito triste eu fiquei. Conheci o colégio de passagem por São Paulo pois sou do Rio e Sempre falei do quanto fiquei impressionada com o colégio. Sou brasileira mas sou uma amante dá Coréia é realmente acho uma perda irreparável não só para comunidade coreana como a brasileira também.
    Faço votos que de alguma forma não seja irreversível essa situação.
    Um abraço.
    Gamsahamnida.

  3. Realmente é uma perda lastimável para todos os que tem um real sentimento pela educação, cultura e artes. Tenhamos Fé que o Pai Celestial prepará um caminho para que as coisa Valoras e de Boa fama possam ser preservadas para instrução e conhecimento de todos. Força Bruno! #TemjeitoSim <3

  4. Realmente é muito triste! Lendo esse post me reportei a 1997, quando fui contratada para fazer o processo de autorização de funcionamento da escola, que naquela oportunidade ainda nem tinha nome. Depois de alguns meses dedicados a esse processo, tive o privilégio e a honra de ser convidada para dirigir o Polilogos, então autorizado a funcionar como escola do sistema brasileiro de ensino. Ainda em meio às latas de tinta e aos montes de blocos de concreto e cimento, fomos dando forma à escola, selecionando e contratando os primeiros professores, comprando mobiliário e equipamentos, criando os ambientes especiais e as salas de aula. Bons tempos!!!! Foram 16 anos de dedicação, desenvolvendo um projeto pedagógico de muita qualidade, que nada ficava a dever às escolas mais bem conceituadas no trabalho educacional, respaldada por uma equipe de professores de primeira linha, selecionados dentro de rigoroso critério de competência, formação nas melhores universidades e com experiência comprovada no magistério, com a coordenação pedagógica de Margareth Buranello na Educação Infantil (mesmo que por curto espaço de tempo!) e Cleide Falanque de Almeida no Ensino Fundamental e Médio, durante 10 anos. Não sem tempo, e mesmo com o sentimento de tristeza que me toca o coração, quero agradecer a essa equipe que fez de tudo para que o sonho se tornasse realidade. Gostaria de aqui poder nomear cada professor, mas temo que na minha emoção deixe escapar algum nome, e isso não seria justo. Então, agradeço a todos e cada um sabe o quanto contribuiu para esse importante projeto.
    Que o slogan do último ano (2013) de minha participação no Polilogos, “Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade” , seja um mantra para a comunidade coreana, que pode impedir que esse sonho se acabe…

    • Profa Maria Thereza, grande prazer em revê-la por aqui! Obrigado pelo seu testemunho pessoal, você fez parte da história do Colegio Polilogos e certamente tem o mesmo sentimento de tristeza pelo encerramento das suas atividades. Esperemos para ver os desdobramentos da história, realmente seria triste ver o sonho acabar. Um forte abraço!

  5. Bruno, obrigada por publicar meu testemunho. Tenho maravilhosas lembranças do Polilogos e da comunidade coreana que me recebeu com tanto carinho e respeito. E, muita saudade. Um forte abraço e conte comigo…

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