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O drama “Canola” (2016), do diretor Chang (The Target, 2010), em um primeiro momento, parece uma produção pouco profunda, em que os personagens vivem em uma espécie de paraíso, onde as pessoas são boas umas com as outras. Não há grande complexidade na psicologia de cada um deles, mas talvez isso venha justamente a contribuir para a clara mensagem que o diretor deseja transmitir ao público: é preciso ser grato e retribuir a atenção e ajuda que se recebe de quem nos amou nesta vida.

Junto a esta questão, está também a menção de que os verdadeiros laços familiares não são estabelecidos pelo vínculo sanguíneo, mas pela convivência e o amor que resulta da experiência adquirida do estar junto com alguém que, por qualquer razão, torna-se importante para você.

Esta produção conta a história de Gye-Choon, interpretada por uma lenda do cinema coreano, a atriz Youn Yuh-Jung, uma mergulhadora, habitante de uma vila em uma pequena ilha na Coreia do Sul e que adota a sua neta Hye-Ji (interpretada por Lee Seul-bi, quando criança; e por Kim Go-eun, quando adulta), órfã de pai, filha de Gye-Choon. A mãe da menina já abandonara a família anos antes. O laço entre avó e neta é muito forte. Elas têm uma vida simples, morando em uma casa sem banheiro, mas são felizes e possuem verdadeiros amigos, em grande parte seus vizinhos, que parecem ser parte desta pequena família.

Trata-se de um ambiente idílico, lembrando um pouco a ideia de que as pessoas que vivem no campo são melhores que os habitantes das cidades, sendo menos corrompidas pelas mazelas sociais. Ainda no começo do filme, a avó compra um presente para a neta que ama pintar, e que será uma peça simbólica importante na trama: um estojo de giz de cera coloridos. Ela troca o produto por uma enguia que acha por acaso, clara menção à vida financeiramente humilde desta dupla. No entanto, esta vida tranquila sofrerá um duro golpe, quando avó e neta vão ao mercado e Hye-Ji é raptada.

CANOLA 1

De repente, somos, bruscamente, levados ao segundo ato deste filme, para a realidade da adolescente, Eun-joo, que o pai abandonou e a mãe morreu. (Eun-joo é a verdadeira identidade da personagem interpretada pela atriz Kim Go-eun, mas, por um tempo, na trama, ela responderá pelo nome de “Hye-Ji”. O porquê desta situação será relatado mais tarde). Ela vive com uma amiga Min-Hee (Park Min-Ji) em Seul e participa de uma espécie de gangue, dando golpes aqui e ali, roubando coisas em lojas, em especial, maquiagem que ela usa para desenhar também. Em um dos golpes, Min-Hee é obrigada pelos membros homens do grupo a passar pela figura de uma prostituta, no intuito de roubar um cliente.

Eun-joo protege a amiga, assumindo o seu lugar. Quando ela está no hotel com o cliente, algo dá errado e o homem, vítima do golpe, é morto por seus “companheiros” de gangue. Eun-joo foge com a amiga e passa a morar na rua. Um dia, ela vê o anuncio de uma criança desaparecida, chamada Hye-Ji. Sua expressão ao ver a foto é como se recordasse de alguém, ou alguma coisa. Logo somos levados para o reencontro entre “Hye-Ji” e Gye-Choon na delegacia. Elas voltam a morar juntas na ilha.

A adaptação inicial na ilha dos mergulhadores parece complicada para a adolescente acostumada a viver nas “sombras” de uma vida difícil e dura da cidade, onde os indivíduos, na sua maioria, vivem de forma isolada e solitária, conspirando e tirando vantagens uns dos outros. Porém, “Hye-Ji” começa, aos poucos, abrir-se para este novo mundo, sendo o amor recebido e a bondade as forças motrizes por traz desta transformação interior.

A origem destas forças está na avó e nos habitantes da ilha, em especial de um garoto Han-Yi (primeiro filme de Choi Min-ho, da banda K-pop, Shinee) que se apaixona por ela, do vizinho Suk Ho (Kim Hee-Won) e do professor de artes Choong-Seob (Yang Ik-June) a quem sua avó pede para ensiná-la a pintar e a ver a “luz”.

CANOLA 2

As interpretações da veterana Youn Yuh-Jung e da muito talentosa Kim Go-eun são um dos altos pontos do filme. A primeira encarna a avó do campo, simplória e com grande coração, como se já tivesse experimentado aquele tipo de vida no passado; e a segunda está perfeita na jovem sem rumo e abandonada, cuja transformação para um indivíduo que finalmente encontra um lar, pode-se perceber na sutileza da sua atuação.

O caráter emocional do filme é salientado com posicionamentos de câmera e close-ups que focam nas expressões dos atores; e, também, nas duas indicações simbólicas inseridas pelo diretor. Uma delas fala sobre a dicotomia entre a sombra e a luz. Ou seja, a adolescente com talento para pintura que tenta sobreviver às sombras do mundo urbano; e a jovem que aprende a ver a luz, fazendo florescer sua habilidade para pintar, especificamente quando passa a viver com a avó e a comunidade.

A outra traz a segunda essência do filme e está presente na pergunta referente ao céu e ao mar, colocada desde início da trama. Primeiro, a neta pergunta à avó sobre o tamanho do céu e do mar; qual deles seria maior: “o mar, certamente”, responde a avó. A indagação será feita novamente no meio do filme, quando a avó pergunta a suposta neta, já crescida, sobre qual dos dois ela acha maior, e a reposta é o céu. Vamos entender o significado desta simbologia ao final. Contudo, antes disso, o passado ainda trará problemas a esta família. O pai de Eun-joo retorna para pedir-lhe dinheiro. A jovem passa a ter de roubar a avó e os vizinhos suspeitam de tal atitude. Ao mesmo tempo, um teste de DNA mostra que ambas não têm laços consanguíneos.

Ocorre que a verdadeira Hye-Ji foi raptada pela mãe que já vivia com outro homem. Eles já tinham uma filha, Nam Eun-joo. Em um acidente de carro, Hye-Ji e a mãe morrem. E o pai, ao saber no hospital da existência de um seguro de vida, troca a identidade das meninas para receber o dinheiro e depois abandona Eun-joo em um orfanato. Esta história vem à tona, ao mesmo tempo que Eun-joo vem em auxilio de Min-Hee, ameaçada pelos parceiros da gangue. As duas são atacadas, mas Han-Yi chama a polícia há tempo de prender todos. Após um tempo na prisão, Eun-joo é solta e parece conseguir levar uma vida normal. O vizinho Suk-ho procura por ela para avisar que Gye-choon desaparecera. Trata-se de uma reviravolta que mostra ser a vez da neta de retribuir o carinho antes recebido, procurando e ajudando a avó.

Elas se reencontram no mesmo mercado que a pequena e verdadeira Hye-Ji fora raptada. Eun-joo leva a avó para casa. A comunidade mais uma vez mostra o espírito coletivo e auxilia as duas a retomarem suas vidas. Eun-joo passa a pintar e cuidar de Gye-choon. Em um momento, ela explica o significado a Suk-ho da simbologia que é colocada ao espectador deste o início: “o mar reflete o céu, por isso é maior”. Em outras palavras, ele absorve e abraça o céu, em um símbolo do amor entre coisas, ou poderíamos dizer pessoas, diferentes, que se complementam e passam a formar uma unidade. Ou a exemplo de uma avó e uma neta de alma, sem vínculos consanguíneos.

Pode-se concluir desta produção a máxima que viver em comunidade é o que torna o indivíduo em um humano, em um ser social que necessita deste convívio com outras pessoas, possibilitando aprimorar as suas falhas e evoluir, saindo do seu individualismo primitivo de sobrevivência para ver e cuidar do outro. Esta e outras questões aqui apontadas fazem de “Canola” um filme sobre família diferente, emocionante e necessário.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




ImagensHan Cinema
FonteTexto Autoral Baseado em Pesquisa
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Alessandra Scangarelli
Alessandra Scangarelli Brites, 31 anos, gaúcha, roteirista, produtora, jornalista e pesquisadora. Hoje objetiva realizar projetos e estudos que estabelecem a conexão entre as Relações Internacionais e o Cinema. Adora a produção cinematográfica e a literatura coreana. Formada em jornalismo pela PUCRS; concluiu especialização em Política Internacional também na mesma universidade. É mestre em Estudos Estratégicos Internacionais pela UFRGS. Especializou-se na área da política externa da Rússia e da China, além das relações estabelecidas entre o grupo BRICS.

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