Compartilhe

Atualmente é difícil encontrar produções cinematográficas coreanas que tenham uma conexão com a literatura, no que diz respeito a sua trama e os demais elementos de um filme como a fotografia, figurino e locações. “Eungyo – A Musa”, do diretor Jung Ji Woo, com roteiro de Park Bum-shin, lançado em 2012, é um exemplo de um filme que discorre sua narrativa, e até sua mensagem, de forma poética; quem sabe até visando tornar-se uma poesia.

Junto a esta beleza cinematográfica/literária, temos uma crítica à atual sociedade movida pela tecnologia e todas as facilidades que ela proporciona. Esta mesma que faz questão de criar uma juventude sequiosa por fama e sucesso, fazendo o que tiver de ser feito para alcança-los. Afinal, ser famoso e bem-sucedido é sinônimo de status e respeito, que devem ser obtidos sem grande esforço e à “toque de caixa”. Desta forma, pode-se resumir as ambições que traçam as características negativas do jovem do início do século XXI.

A criação e a inspiração genuínas já fazem parte de um passado não muito longínquo, onde estas podiam existir, pois tinham artistas, escritores e etc. que basearam suas vidas perseguindo-as, no intuito de criar uma nova obra prima. Hoje tudo se copia, como também se rouba, no objetivo de se chegar a condição de grande escritor de forma rápida, como muito bem é apresentado em mais esta produção coreana.

A MUSA 1

“Eungyo – A Musa”, como todo bom filme sul-coreano, não foge de uma temática polêmica e apresenta um triangulo amoroso entre um escritor idoso e famoso, de 70 anos, Lee Juk Yo (Park Hae-Il), uma jovem (sua musa e inspiração) de 17 anos Han Eungyo (Kim Go Eun) e seu jovem discípulo/assistente Seo Ji Woo. No entanto, este amor proibido serve apenas de fachada para as verdadeiras intenções do diretor. Em uma época repleta de guardiões da boa moral e dos bons costumes, é importante frisar que apenas focar sua atenção na pretensa imoralidade desta “relação” pode-se perder a essência de um filme que tem muito a dizer e promove diversos momentos cinematográficos inesquecíveis.

Nosso trio romântico é formado por indivíduos extremamente solitários e, provavelmente, carentes. O escritor Lee Juk Yo, imerso em uma vida enfadonha, morando em uma casa distante dos grandes centros urbanos, tem a companhia do seu aprendiz Seo Ji Woo. Este é um aspirante a escritor, formado em engenharia, sem talento algum para a escrita. Ele se dedica inteiramente ao seu mestre, a quem diz considerar como pai, mas, logo se percebe, que o tutor não passa de uma fonte de criação, em que o jovem busca absorver todo o talento que lhe falta e finalmente lançar-se à fama.

O aspirante e seu tutor e escritor de sucesso.
O aspirante e seu tutor e escritor de sucesso.

Ele assim consegue, já que seu mestre concorda em ser um escritor fantasma para a obra que terá grande reconhecimento e torna conhecido o nome de Seo Ji Woo. O verdadeiro autor não se importa e espera que seu discípulo possa, depois desta primeira “conquista”, seguir sozinho e criar suas próprias histórias. É interessante perceber que o aprendiz nunca retribui todo o esforço do mestre, inclusive contribui para a condição de peça antiga, pertencente ao passado que a sociedade quer impor-lhe, e que o tutor tanto odeia.

É ele que auxilia um grupo a conseguir uma reunião com seu mentor para construírem um museu sobre sua vida. Obviamente que a oferta é recusada e com uma fala, o personagem deixa explicito que nunca tinha visto um museu ser construído para pessoas ainda vivas.

Um dia a jovem Han Eungyo aparece do nada na casa de Lee Juk Yo, e é contratada pelo assistente para limpar a casa do escritor. Ela visivelmente é uma típica musa Lolita, que, de primeira, conquista os sentimentos do mestre, tornando-se a sua inspiração para elaborar uma obra prima. Um conto poético, em que o escritor idoso busca retornar à juventude perdida e viver um amor não proibido com Eungyo.

O escritor e sua musa.
O escritor e sua musa.

Na figura dela, o grande escritor deposita toda uma fantasia de pureza e inocência. Tais características estão representadas através das vestimentas que a personagem feminina usa ao longo do filme, que vão de tons claros a brancos; além de uma fotografia onde a luz sempre incide sobre ela, dando-lhe um aspecto, em alguns momentos, de figura sagrada, de uma jovem intocada. A forte relação estabelecida entre ela e o escritor, cujo grau de intimidade vai aumentando aos poucos, leva o discípulo a criar um sentimento de apreensão e raiva por Eungyo.

As passagens íntimas entre o escritor idoso e a menina dão-se através de enquadramentos de câmera que revelam detalhes, como o momento em que Lee Juk Yo olha dentro de suas cobertas e a encontra dormindo, encostada em suas coxas. São duas figuras extremamente solitárias e que desejam intensamente convivência e carinho. As ótimas interpretações dos três atores transmitem muito bem estes sentimentos de sentir-se só e de tristeza. Kim Go-eun foi bastante premiada por este trabalho, fazendo de “Eungyo- A Musa”, o filme que impulsionou a sua carreira e a tornou uma atriz digna de produções intelectualmente mais sofisticadas.

Seo Ji Woo encontra o conto no baú de madeira do escritor e publica-o em seu nome. Com isso, ele acaba conquistando o grande prêmio literário da Coreia e provoca a ira de Lee Juk Yo. Finalmente o mestre consegue enxergar o discípulo como ele realmente é: um parasita. Assim, Seo Ji Woo é proibido de conviver com o escritor, mas em seguida é perdoado.

Contudo, o aprendiz não vai deixar de cometer novos atos de traição. Ele seduz a jovem solitária no escritório de seu mentor, que assiste ao ato sexual pela janela, do lado de fora da casa, suspenso em uma escada. A raiva do escritor é tal que ele fura o pneu do carro de Seo Ji Woo e estraga as engrenagens do seu próprio veículo, almejando com isso que o assistente sofra um acidente mortal.

A traição do aprendiz.
A traição do aprendiz.

Tal reação deve-se ao rancor que Lee Juk Yo sente pela perda da inocência de sua musa, que teve sua pureza roubada por alguém tão vil. Eungyo por fim percebe que foi enganada e, em uma cena emocionante, agradece o amor recebido em um conto que a descreve de uma forma que ela nunca tinha considerado poder ser anteriormente.

Por um momento, a solidão de ambos é aplacada e o carinho afaga temporariamente a tristeza e a carência de duas figuras puras e genuínas. “Eungyo – A Musa” é uma crítica poética à juventude que perdeu a habilidade de criar e sentir e vale o seu tempo para assisti-lo.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




DEIXE UM COMENTÁRIO