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Em várias ocasiões, o diretor de um filme pode ter uma intenção ao realizar uma obra, mas sua abordagem acaba abrindo espaço para interpretações diversas, que talvez nem ele tivesse pensado inicialmente.

“Spa Nights” (“Noites no Spa”, tradução livre) do cineasta americano de origem coreana, Andrew Ahn, lançado no Festival de Sundance em 2016, é um caso interessante em que tal situação ocorre. Ao primeiro olhar, parece tratar-se de mais um filme sobre homossexualismo, porém nele também há a exposição dos conflitos internos gerados pelas exigências que a cultura coreana impõe aos seus, inclusive aos que se encontram distantes da Coreia do Sul, em comunidades coreanas espalhadas pelo mundo.

De forma especifica, fala sobre as dificuldades de um jovem que deve lidar com o crescente desejo que sente por homens, ao trabalhar em uma casa de banho coreana à noite, e, ao mesmo tempo, corresponder a todas aspirações da sua família. Esta que, aos poucos, desmantela-se, enfrentando grandes dificuldades financeiras. A temática do homossexualismo é ainda tabu nos países asiáticos de forma geral e entre as comunidades coreanas, ou asiáticas no Ocidente, o que faria deste filme, já necessário em si. Contudo, existem nuances em “Spa Nigths” que ampliam a discussão para uma questão maior: a liberdade em todos os seus níveis.

Joe Seo, o ator principal e Andrew Ahn, diretor de Spa Nights. Foto: The Times)
Joe Seo, o ator principal e Andrew Ahn, diretor de Spa Nights. Foto: The Times

David Cho, interpretado por Joe Seo, ator iniciante que ganhou o prêmio em Sundance por esta performance de estreia, tem suas opções delimitadas desde o início pelas carências e anseios dos pais, pelos amigos e conhecidos, pelo código moral da cultura coreana, um tanto rígida, ao menos na perspectiva ocidental, pela religião cristã e seus dogmas e pelas limitações que uma vida com problemas de ordem econômica trazem, como ter de trabalhar para sobreviver. É possível dizer que, indiretamente, é uma crítica também ao tão aclamado sonho americano, que, na realidade, não chega sempre a todos, ainda que se lute tanto por ele, como aparentemente assim se deseja que as pessoas acreditem.

Em uma cena em particular, em que a família está reunida, a mãe SoYoung Cho (Haerry Kim) comenta não gostar de sempre ter de ir sozinha às casas de banho (há spas somente para mulheres, ou somente para homens). Ela diz ao marido (Jin Cho) que deveriam ter tido uma segunda criança, uma menina de preferência, para lhe fazer companhia. Assim, ela reclama com David por ainda não ter uma nora, que a acompanharia nestas ocasiões. David, então, pergunta: “e se eu quiser casar com uma branca?” A mãe comenta, após um silêncio reprovador dos pais, que não há problema, mas indaga como ela iria se comunicar com uma pessoa de outra cultura. Está implícito, portanto, que David deve casar com uma coreana, pois seria melhor para todos.

O caráter coletivista familiar que, ao longo da vida, vai suprimindo o indivíduo e seus desejos particulares é, aos poucos, bem desenvolvido, em uma narrativa cinematográfica sutil,  introspectiva e bem elaborada. Em um momento da história, o restaurante coreano da família começa a encontrar dificuldades, o que gera mais pressão para David, já que os pais esperam dele ter ótimas notas para entrar em uma das melhores universidades, tornando-se profissionalmente bem-sucedido e honrando o nome da família. Honra que seu pai e mãe não tiveram condição de obter.

Youn Ho Cho (Jin), Haerry Kim (Soyoung) e Joe Seo (David) a família protegonista do filme SPA NIGHT. Foto: Collider
Youn Ho Cho (Jin), Haerry Kim (Soyoung) e Joe Seo (David) a família protagonista do filme Spa Nights. Foto: Collider

No entanto, David não consegue ter boas notas, pois além de trabalhar em segredo para auxiliar os pais, tal imposição o perturba. Ele parece não desejar as escolhas de vida que lhe foram determinadas. Estas estão colocadas nas entrelinhas aqui: pode ser que não almeje estudar, que não queira ir a tal universidade, ou que não deseje ter tal profissão que, se acredita, o tornará poderoso e rico. Acima de tudo, sua homossexualidade, que ele começa a descobrir, também torna a possibilidade de concentração para os estudos cada vez mais escassa.

Há pressão também por parte dos demais integrantes da comunidade como um todo. Estes gostam de mostrar o quão seus filhos estão bem nos estudos e que seus próprios negócios dão lucro, coisa que faz a família de David esconder ainda mais seus problemas financeiros. A estrutura familiar vai desmoronando lentamente, com o pai que começa a beber, a mãe que entra em depressão e só consegue relembrar os momentos felizes da sua chegada aos Estado Unidos, quando imaginava que iria conseguir uma vida diferente e próspera naquele país. Porém, David passa a ser o elo e a base psicológica que permite a família permanecer unida, ainda que de forma muito caótica e frágil.

O momento mais expressivo desta pressão que a cultura coreana incide sobre o personagem é a cena em que a família vai celebrar o Doljanchi do filho de um parente, (uma tradição coreana que celebra o primeiro aniversário de um bebê, em que há um ritual, onde a criança é colocada em frente a uma mesa com alimentos e objetos mais variados, entre eles dinheiro. O bebê é incentivado a escolher um item. O objeto escolhido preverá o futuro da criança). O bebê escolhe o dinheiro, o que significa que terá riqueza no futuro.

Os pais, então, por um tempo, abandonam David e vão brincar com o pequeno. O jovem observa de longe o triste quadro que a vida lhe impõe. Poderia ele ter forças para modificar esta situação, seguindo as determinações culturais de seus pais. Neste contexto, é ainda possível fazer um paralelo com a própria cultura americana, cujo sucesso é algo imperativo para o quadro familiar e social, caso se queira ser realmente reconhecido, admirado e bem visto.

Outra nuance interessante é que os pais mandam David passar um tempo com um primo. O convívio com outros garotos e garotas, todos coreanos, ou descendentes de coreanos, vai bem, mas David transparece a atração física que sente por homens, deixando os amigos desconfortáveis que logo o reprovam.

Contudo, é interessante salientar o detalhe sutil que o diretor nos apresenta no isolamento que a cultura coreana impõe aos próprio coreanos. David jamais permanece em contato mais próximo, ou até íntimo, com pessoas de outras culturas, de outras raças, coisa que lhe é facilmente possível, ao viver em um país em que vivem imigrantes provenientes de outras partes do mundo.

Trata-se de uma crítica indireta às comunidades coreanas existentes pelo mundo que acabam fechando-se em si próprias, não permitindo um contato com o mundo exterior. Pode-se interpretar como uma espécie até de racismo que o próprio personagem expressa quando um homem branco gay, que está interessado nele, se aproxima na sauna, e tenta um contato físico. David rapidamente o rejeita, dizendo não querer que o toque.

Dias depois, David está na mesma sauna com um asiático gay, que subentende-se ser de origem coreana, com quem ele busca contato físico e acaba tendo relações sexuais. Outros homens, latinos, por exemplo, flertam com David, mas ele, apesar de claramente demonstrar atração física, os ignora, ou assim tenta. Em outras palavra, deve-se resistir a tentações, como ensina a Igreja, que possui um poder de influência muito forte na Coreia do Sul, e como assim quer a cultura coreana que deve permanecer pura. Um bom coreano não se deixa desvirtuar pelo mundo multicultural que o ronda.

Na vida real, o próprio ator Seo buscou aprovação de seus pais e de seu pastor para filmar “Spa Nights”. Seo também relatou que observou a necessidade de buscar uma aproximação com pessoas não coreanas para as filmagens, sentimento que ele também experienciava na sua vida diária. Este contexto trazido pelo filme, promove uma reflexão interessante sobre como deve ser complicado estar em uma situação em que por um lado, no país que se imigrou, no caso os Estado Unidos, a integração multicultural não acontece plenamente e, do outro, o país de origem, a Coreia do Sul, ainda tem a pureza da raça e da cultura como um problema a ser superado.

Por fim, a homossexualidade, tema central do filme, jamais é mencionada aos pais. Mesmo as pessoas que acabam percebendo o desejo de David, não comentam sobre isso. Não há conversa alguma no filme que aborde a questão, uma escolha interessante do diretor que utiliza as cenas, as expressões corporais e outras formas de poder transmitir emoções, que apenas a narrativa cinematográfica permite, para nos contar e tentar fazer compreender, quem sabe até sentir, o conflito interno do personagem.

Assim, também temos a noção de isolamento praticamente forçado que o contexto sociocultural faz incidir sobre ele. A vida real do diretor Ahn certamente influiu no processo de criação desta obra, já que ele, em uma entrevista, relata que ao contar ao pai que era gay, recebeu a resposta peculiar que não existem coreanos gays.

Outra reflexão interessante é que, ao pensar na paternidade, o cineasta questiona como seria para seus pais ter um neto que não fosse coreano. Ahn indaga se eles poderiam considerar uma criança que não fosse biologicamente dele, como parte da família e, se eles poderiam amá-la, mesmo que ela não fosse de origem coreana. E ele, como se sentiria e reagiria com tal questão? Ele, o diretor, faria o seu bebê passar por um ritual como o de Dolchanji?

Tantas reflexões parecem ser um relato honesto dos conflitos por que passam os coreanos atualmente, tanto os que vivem em comunidades no estrangeiro, quanto os que estão na própria Coreia. Por esta e outras razões aqui mencionadas, “Spa Nights” é uma boa dica para quem busca no cinema algo mais que apenas entretenimento.

Trailer


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




ImagensVillage Voice
FonteTexto Autoral Baseado em Pesquisa
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Alessandra Scangarelli
Alessandra Scangarelli Brites, 31 anos, gaúcha, roteirista, produtora, jornalista, tradutora e pesquisadora. Hoje objetiva realizar projetos e estudos que estabelecem a conexão entre as Relações Internacionais e o Cinema. Adora a produção cinematográfica e a literatura coreana. Formada em jornalismo pela PUCRS; concluiu especialização em Política Internacional também na mesma universidade. É mestre em Estudos Estratégicos Internacionais pela UFRGS. Especializou-se na área da política externa da Rússia e da China, além das relações estabelecidas entre o grupo BRICS.

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