Compartilhe

O cinema coreano já provou em vários filmes ser capaz de misturar diferentes gêneros e temas, tendo um resultado final interessante. “House of the Disappeared” (2017), de Dae Wung-lim, mesmo realizador de outras produções bem-sucedidas do “Terror” coreano, segue esta mesma linha.

A trama é uma miscelânea de suspense, horror, melodrama, além de possuir um grande toque psicológico, familiar, histórico e “pinceladas” acentuadas de noções originadas dos estudos da física quântica. Somada a esta característica, há uma novidade: desta vez, não temos uma história original, e sim, um remake do filme venezuelano “A casa do fim dos tempos” (2013), de Alejandro Hidalgo.

Trata-se do filme de maior sucesso deste país sul-americano, tendo sido distribuído para diversos países e conquistado diversos prêmios. Em si, esta iniciativa promove uma boa oportunidade aos espectadores de encontrar semelhanças e também observar as diferentes peculiaridades da adaptação para o contexto coreano de uma obra cuja cultura proveniente é tão diversa. Tanto a versão venezuelana, quanto a coreana funcionam para ambos os públicos, já que apresentam esta característica de drama e redenção familiar tão presentes no contexto nacional destes dois países.

HOUSE 1

Kang Mi-hee, (Kim Yun-jin), é uma dona de casa, católica devota, que vive em uma antiga casa com os dois filhos e seu segundo marido, o policial Chul-Joong (Jo Jae-yun). Seu primogênito Hyo-Je (Park Sang-hoon), filho com seu primeiro e falecido esposo, não é muito querido pelo padrasto, mas tem uma ótima relação com o meio-irmão mais novo Ji-won (Ko Woon-rin), aprontando diversas travessuras e matando aula.

Sua condição de saúde frágil, uma doença hereditária do coração, faz com que a mãe tenha atenção redobrada para com ele. A vida segue normal, não fosse uma estranha energia que paira sobre a casa, provocando uma desarmonia familiar e levando a um terrível desfecho com a morte de seu marido, seu filho mais novo e o desaparecimento de Hyo-Je. Acusada de assassinato, ela é condenada a 25 anos de prisão.

Anos depois, já envelhecida e com um câncer na garganta, Mi-hee ganha o direito de voltar a morar em sua antiga casa, com a vigia de policiais. Certamente, ela não é bem-querida pelos locais que repudiam não apenas a sua pessoa, mas a casa considerada mal-assombrada e que traz má sorte a todos que se aproximam dela. Nesta oportunidade, nossa heroína, com a ajuda do padre Choi (Ok Taec-yon) – antigo amigo de infância de Hyo-Je, único que se dispõem a visita-la e acreditar na sua versão da história – fará tudo para descobrir o que realmente aconteceu e reencontrar o filho capturado por forças ocultas.

Apesar de conter vários elementos típicos do filme de terror como momentos de susto, fantasmas, xamãs (médiuns), um cenário de uma casa antiga e mal-assombrada, uma fotografia que usa muito do escuro, ou da falta de luz, som e música que amplificam os períodos de tensão do encontro de Mi-hee com as “aparições”, “House of Disappeared” é mais um suspense psicológico que usa de alguns “traços” da física quântica para incrementar seu enredo.

Assim, é possível observar na pesquisa do padre Choi que descobre que a casa fora construída em 1942, utilizando-se dos melhores métodos japoneses da ciência natural e do ocultismo, para um general Watabe Kuino e sua esposa que vieram morar em Joseon, durante a ocupação japonesa da Coreia. Em razão da brutalidade dos japoneses, os fazendeiros locais voltaram-se contra o general e invadiram sua casa, objetivando matar a ele e sua esposa. Contudo, o casal não é morto, mas desaparece sem deixar traços. O mesmo ocorreu 25 anos depois em 1967, com uma mãe e suas duas filhas, e novamente em 1992, com o desaparecimento do filho de Mi-hee.

Ocorre que a casa é uma espécie de ponto espacial onde o tempo em seus diferentes períodos sobrepõe-se, fazendo com que as pessoas que habitaram aquela residência ainda lá permaneçam e estabeleçam um vínculo forte entre elas. Desta forma, quando a real causa do desaparecimento de Hyo-Je é revelada, assim como a explicação para morte de seu padrasto Chul-Joong, nossa protagonista tem a possibilidade de “voltar no tempo” e confrontar-se consigo mesma em sua fase jovem para encontrar e salvar seu filho e conseguir a sua redenção como mãe.

A casa, por sinal tem esta simbologia positiva também, a possibilidade do retornar, corrigir, ou amenizar alguns erros do passado. Tanto do ponto de vista histórico – uma Coreia que ainda tenta superar o trauma de décadas de colonização japonesa e, quem sabe, reaver a sua relação futura com este país – quanto de uma perspectiva mais pessoal da personagem principal, que em seu possível estado psicológico perturbado, gostaria de que tal oportunidade existisse.

Kim Yun-jin, conhecida internacionalmente pela série americana “Lost”, mostra nesta produção todo seu talento ao interpretar diferentes faces de uma mesma personagem, que parece ter enlouquecido após tamanha tragédia em sua vida. Ela ainda consegue ter um ótimo desempenho no desafio que a história promove à atriz ao colocar um enfrentamento entre a idosa e a jovem Mi-hee. Um embate que vem adicionar a dramaticidade psicológica de uma mulher que deseja reaver suas falhas como mãe.

O idol Ok Taec-yeon também não deixa nada a desejar na pele de um padre e amigo fiel que busca salvar o quase irmão, dando-lhe a chance de viver. Como o filme original sul-americano, a versão coreana, “House of Disappeared”, não é um filme fácil de compreender. Ela requer máxima atenção do espectador, em especial para acompanhar as mudanças de rumo que a história vai tendo até o desfecho. Porém, os inúmeros elementos de terror e de suspense percorrem todo o filme e proporcionam o entretenimento necessário para prender a audiência que sairá, provavelmente, com questionamentos e discussões sobre as diferentes formas de entendimento e significados que um bom filme incita em seu público.

Assista ao trailler:


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




DEIXE UM COMENTÁRIO