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CENA 1: Parado num cruzamento, espero o sinal para atravessar a rua pela faixa de pedestres. Já estava com os dois pés na via quando um motociclista furou o vermelho e foi desviando das pessoas. Quando passou por mim, disse que por mais que estivesse com pressa, deveria respeitar o nosso direito de andar com segurança. Parou do meu lado e depois de alguma conversa e vendo que não tinha a razão, acelerou menosprezando-me e dizendo “abre o olho, volta pra tua terra que aqui é Brasil”.

CENA 2: Era em um jantar com amigos brasileiros do curso de MBA, numa conceituada universidade norte-americana. Todos ali tinham excelente formação acadêmica e uma sólida carreira. O restaurante era indiano, assim como todos os funcionários. Um dos meus colegas fez o seu pedido e assim que o garçom saiu, começou a humilhá-lo perante todos: dava gargalhadas ao dizer que “todos os indianos são uns fedidos”. Infelizmente nunca mais consegui olhar pra ele com a mesma amizade de antes.

CENA 3: No elevador, parei num andar onde entraram uma jovem mãe e o seu filho de aproximadamente sete anos, acredito. Em dado momento, olho para o menino e ele automaticamente puxa seus olhos (slant-eyes) e dá um sorriso daqueles bem sacanas… A mãe o vê e penso aliviado que ela lhe dará um belo “puxão de orelha” pela brincadeira de mau gosto. Para a minha surpresa, não diz uma palavra e simplesmente ignora o fato de que seu filho é um racista em formação!

Cresci ouvindo que o Brasil era um país onde não existia racismo. Mas quem sofre o racismo na pela sabe que não é verdade. Tenho um amigo que (incrivelmente) nunca foi assaltado. Segundo ele, o Brasil não é um país violento. Eu já acho o contrário e tenho 11 assaltos nas costas como prova, além de amigos que foram baleados ou mortos por bandidos. Tenho um amigo que nunca sofreu homofobia e por isso afirma que ela não existe. O detalhe é que ele é heterossexual. Toda opinião depende da vivência de cada um e eu digo que apesar de sermos um país multicultural, somos racistas. Claro, existem os que relativizam ou até negam o fato. Existem também os que acham que aqueles que reclamam das “brincadeiras” não passam de “mimizentos”. Mas quem define o que é ofensa é aquele que foi ofendido e não terceiros que nunca tiveram a vivência de dor. E para mim, é terrível essa sensação de viver num lugar e sentir-se desprezado pela minha origem ou pelas minhas características físicas.

Cheguei ao país com oito anos vindo do Chile e assim, falava com forte sotaque espanhol. Lembro que a minha professora de português pediu que eu lesse um texto qualquer, onde havia a palavra “casa”. Todos sabemos que ela significa “residência” ou “lar”, mas lida em espanhol fica com som parecido com a palavra “caça”. Acho incrível que uma professora de segunda série não tenha tido sensibilidade suficiente para não fazer gozação com o sotaque de um aluno na frente dos seus colegas. Trinta anos depois, meu filho de oito anos voltou chorando para casa porque um grupo de alunos de uma série acima o cercou puxando os olhos (slant-eye) e chamando-o de “chinesinho, chinesinho”. Foi quando percebi que não queria que meu filho passasse pelas mesmas experiências negativas que eu passei.

Semana passada, a BBC Brasil publicou uma reportagem bastante honesta (clique aqui para ver) sobre o racismo e preconceito contra asiáticos. Ela foi compartilhada no Facebook na página da própria “BBC Brasil” e de páginas como do “Quebrando o Tabu”, cujo objetivo é quebrar barreiras e preconceitos. Sabemos que a internet é um terreno selvagem onde pessoas costumam descarregar sentimentos negativos sem receio algum, mas a maioria dos comentários às postagens era absurdamente intolerável. Inclusive alguns asiáticos estavam criticando-o, como o líder do MLB Kim Kataguiri, que num vídeo postado no Youtube e dentro do seu “papel” político jogando para a sua platéia, faz chacota desnecessária contra aqueles (grande maioria) asiáticos que sofrem deste problema real. A maioria dos que criticavam eram brancos mas negros também se juntavam a eles, desqualificando o preconceito contra asiáticos porque “não dava para comparar com o preconceito que os negros sofrem”. Mas a pior crítica vem daqueles que insistem em ligar os que lutam contra o fim do racismo contra asiáticos a algum determinado partido ou a ideologias. Realmente não entendo o que tem a ver uma coisa com a outra, como se defender uma minoria étnica devesse ser exclusividade de uma vertente política.

Sim, existem coreanos racistas assim como brasileiros racistas e uma coisa não justifica a outra, estão todos errados. Da minha parte, luto para que TODOS sejam respeitados por TODOS! Faço isso onde posso, seja através das minhas redes sociais, aqui na minha coluna do Koreapost ou no meu canal Kores do Brasil, tentando influenciar positivamente todos a quem eu consiga alcançar. Paz!


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




4 Comentários

    • Essa é uma verdade incontestável. É engraçado como os próprios brasileiros acham que somos um povo cordial e hospitaleiro, mas isso vale somente para uma parcela da população. Na maioria, somos avessos à ordem e no respeito ao próximo, infelizmente. Temos muito a fazer e na minha opinião isso envolve um forte trabalho na área educacional.

  1. O preconceito é o reflexo da ignorância humana, e como colocou muito bem em seu texto, em todos os lugares existe preconceito, o que podemos fazer é mostrar essa realidade de um ponto de vista real e não encobrir ou dizer que uma sociedade é melhor que a outra.

  2. Primeiramente, quero dizer gostei de ler esse artigo, e infelizmente o racismo está em todo lugar. O Brasil além de ser um país multicultural, tem se discriminação regionais entre o sul e sudeste com o nordeste. Acho um absurdo, ainda mais São Paulo e Santa Catarina é uns dos estados que vejo que tem o maior racismo entre negros, pardos, nordestinos e indígenas. Quanto mais um estrangeiro que não faz um esterótipo deles! Fico chocada por isso, pois acredito que temos o mesmo DNA evolutivo, claro diferenciados fisicamente.

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