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Durante a visita ao Chile, o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, pediu que México, Peru, Chile e Brasil rompessem os seus laços diplomáticos e econômicos com a Coreia do Norte, buscando o apoio de países latino americanos.

Recentemente, o governo mexicano declarou o embaixador da Coreia do Norte, Sr. Kim Hong-gil, como persona non grata e ordenou a sua retirada do país no prazo de três dias, medida que refletiu a completa rejeição mexicana às atividades nucleares da Coreia do Norte.

Ontem, dia 11 de setembro, o governo do Peru declarou o embaixador da Coreia do Norte, Sr. Kim Hak-chol, como persona non grata e ordenou a sua retirada do país no prazo de cinco dias. Tal ação demonstrou a posição do governo peruano de condenação aos testes nucleares e lançamentos de mísseis da Coreia do Norte, tendo o presidente peruano, Pedro Kuczynski, ratificado a posição de que a comunidade internacional deve se esforçar para reverter o programa nuclear de Pyongyang.

México e Peru só possuem representações diplomáticas da Coreia do Norte em seus respectivos territórios. Michelle Bachelet, presidente do Chile, declarou que o país não apoiaria golpes ou intervenção militar, e sim medidas e sanções adotadas pelo Conselho de Segurança da ONU.

Em resposta ao sexto e mais potente teste nuclear da Coreia do Norte, o Conselho de Segurança da ONU aprovou por unanimidade a resolução 2375 (2017), um novo pacote de sanções proibindo a exportação de têxteis e o fornecimento, venda ou transferência de todos os condensados e líquidos de gás natural para a Coreia do Norte e limitou a exportação da Coreia do Norte e proibiu os países-membros de fornecerem, venderem ou transferirem petróleo bruto para a Coreia do Norte excedendo o permitido. Apesar da progressiva série de sanções, a Coreia do Norte continua executando a sua política byungjin, de desenvolvimento nuclear e econômico.

Desde 2006, em sequência ao primeiro teste nuclear norte-coreano, o Conselho de Segurança da ONU vem adotando sanções contra a Coreia do Norte na tentativa de frear o avanço do seu programa nuclear e de mísseis, além de haver as sanções unilaterais da União Europeia, EUA, Coreia do Sul e Japão. Em outubro de 2006, o Conselho decretou o embargo de armas, a proibição de importações e exportações de equipamentos e de tecnologia e o início da formulação de uma lista com nomes de pessoas e instituições suspeitas de vínculo ao programa nuclear norte-coreano; em junho de 2009, o embargo foi estendido aos equipamentos militares e transações financeiras ligadas ao uso de armas e tecnologia nuclear e balística; em março de 2013, sanções em relação à transferência financeira para a Coreia do Norte; em março de 2016, embargo às exportações de ouro, vanádio, titânio e terras raras; em novembro de 2016, limitação às exportações de carvão da Coreia do Norte; e, em agosto de 2017, proibição às exportações de carvão, ferro, chumbo e frutos do mar, novas restrições financeiras com a Coreia do Norte e a proibição do aumento do número de trabalhadores norte-coreanos em países estrangeiros – uma das maneiras que Pyongyang tem de ganhar moeda estrangeira, sendo a China o país que mais recebe trabalhadores norte-coreanos e, em segundo lugar, a Rússia.

As sanções e embargos à Coreia do Norte não são a solução e já provaram o seu limitado efeito para o objetivo de intimidar o regime e fazê-lo cumprir as normas de direito internacional. Além da capacidade norte-coreana de contorná-las, tornam-se, na visão norte-coreana, as medidas que ratificam o necessário desenvolvimento do seu programa nuclear e a justificativa à população norte-coreana de suas atuais condições de vida, principalmente aos não residentes na capital.

Os EUA têm que retomar o diálogo bilateral. Todavia, uma das grandes dificuldades é a falta de confiança da Coreia do Norte nas outras partes, também em relação à China. Outro desafio é quanto à assimetria de responsabilidades entre EUA e Coreia do Norte, na medida em que Washington poderia mais facilmente desfazer a sua promessa de não ameaça ao regime, enquanto Pyongyang teria que desmantelar o seu programa nuclear e de mísseis. Dessa forma, a Coreia do Norte persiste no pedido ao fim dos exercícios militares entre EUA e Coreia do Sul e na retirada dos 28.500 militares estadunidenses da parte sul da península, o que acarreta a descrença sul-coreana, estadunidense e japonesa e o receio do blefe norte-coreano.

Em resposta às atividades nucleares da Coreia do Norte, México e Peru ordenaram o retorno dos embaixadores da Coreia do Norte para seus respectivos países a Pyongyang. E o Brasil, deveria fazer o mesmo?

Durante a recente cúpula do BRICS, o Ministério das Relações Exteriores da China declarou que os ministros apoiam o uso de meios políticos e diplomáticos para resolver disputas na Líbia e na península coreana. Além disso, o nosso ministro das Relações Exteriores, Sr. Aloysio Nunes, enfatizou a necessidade de diálogo direto entre as partes, na medida em que atitudes agressivas só poderiam prejudicar ainda mais a atual situação na região, e afirmou que o Brasil apoia somente as sanções decididas pelo Conselho de Segurança da ONU e que o fluxo comercial do Brasil com a Coreia do Norte é mínimo.

Ainda, na esteira do Fórum Econômico Oriental, Moon Jae-in e Vladimir Putin compartilharam o entendimento de que a resolução da questão nuclear da Coreia do Norte é prioridade para o desenvolvimento no leste asiático. Putin ainda ressaltou o fato de que a situação na península coreana não pode ser resolvida somente com sanções e pressão. Além disso, a busca por uma cooperação trilateral Seul-Moscou-Pyongyang, pode ser favorável à Coreia do Sul, indo além dos fatores geográficos. Nesse sentido, Rússia e Coreia do Sul são potências na região e dois grandes parceiros do Brasil, sem contar a importância econômica, política e cultural da China e do Japão para o Brasil. Ainda, como integrante do BRICS, o Brasil deve ter o seu “olhar” para a Ásia e lidar com a Coreia do Norte é um fator de grande potencial para nós. Resta saber se o governo brasileiro estaria disposto a manter as suas próprias estratégias ou se submeteria às exigências norte-americanas, principalmente em termos de pressão econômica.

É compreensível que setores da opinião pública brasileira apoiem o fim das relações diplomáticas do Brasil com a Coreia do Norte, mas a questão não é simples e requer prudência. Ao analisarmos a justificativa para tal medida, a maioria dos argumentos se pauta na balança comercial, mas não considera as oportunidades políticas e econômicas. Afastar-se das diversas questões que ocorrem na península coreana não é a solução. O Brasil deve, sim, manter a sua embaixada na Coreia do Norte, bem como os representantes diplomáticos em Brasília e Pyongyang. Todavia, apenas manter um canal de comunicação e ter uma embaixada em Pyongyang não é suficiente. Mais do que isso, o Brasil precisa (re)pensar o seu uso e se envolver ativa e criativamente no processo de paz, reconciliação e desenvolvimento entre as Coreias. A questão coreana é a principal questão em que o Brasil poderia ter uma diplomacia protagonista, sendo partícipe direto, ativo e criativo.  É preciso pensar estrategicamente.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




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