Compartilhe

Os coreanos pediram, e receberam , o impeachment de sua presidente. Ensinaram ao mundo uma grande lição: os governantes e governados não só acreditam que o povo existe, mas de fato aceitam que o povo é diretamente responsável pela escolha de quem lhes dirige e como administra o país.

Certa vez eu estava saindo de uma estação de metrô em Seul e, conversando com um amigo sul-coreano pelo telefone, ele me disse: “Para entender a Coreia é preciso entender o sentimento coreano“. Mais uma vez, a sua máxima se faz presente. A jovem democracia sul-coreana é também constituída por um sentimento de “alma coletiva”, muitas vezes considerado como supremo. E, como disse Kim Dae-jung, Nobel da Paz e ex-presidente: “O povo é Deus“, e deve ser honrado pelo Presidente da República.

Desde outubro do ano passado, os sul-coreanos estão passando por um importante e decisivo momento na vida política do seu país, fato que lhes demanda cautela, atenção e repercute diretamente nas políticas domésticas, nas diretrizes de política externa, segurança e defesa nacional e influencia as relações com os seus pares no cenário internacional. Trata-se do segundo julgamento de impeachment presidencial do país.

Por unanimidade, 8 votos a 0, a Corte Constitucional julgou que as ações da presidente Park Geun-hye foram suficientemente graves para justificar sua retirada permanente do poder e decidiu suspender a sua imunidade presidencial, fazendo com que Park esteja sujeita às acusações de foro criminal.

A Corte concluiu que Park era cúmplice de sua amiga Choi na tentativa de extrair cerca de 38 milhões de dólares da Samsung e outros conglomerados e chamou de “crime sistemático” a lista de envolvidos no escândalo de corrupção e abuso de poder durante a sua administração. Park se torna, então, o primeiro líder democraticamente eleito a perder o cargo por meio de impeachment.

Em dezembro do ano passado, Park teve a sua presidência suspensa pela Assembleia Nacional após a votação favorável ao processo de impeachment e veio sofrendo queda brusca nas pesquisas de satisfação popular, chegando ao nível de 4% de apoio nacional. Agora, Park foi permanentemente destituída do cargo devido ao escândalo generalizado de corrupção e tráfico de influência. Apesar dos seus três pedidos públicos de desculpas, o apelo popular para o enfrentamento das acusações de tráfico de influência, abuso de poder e corrupção prevaleceram e as suas explicações não foram convincentes.

Entretanto, Park Geun-hye não é a primeira figura presidencial a se envolver em escândalos de corrupção e tráfico de influência durante o período do mandato a frente do governo. Nas palavras do amigo e professor David Kang, da Universidade do Sul da Califórnia, em entrevista à Economist, “tráfico de influência é sistêmico e endêmico na Coreia do Sul e os últimos presidentes sul-coreanos foram perseguidos por escândalos de corrupção e irregularidades em suas administrações”. Também, não é incomum que os presidentes sul-coreanos tenham índices de aprovação em declínio ao longo de seus mandatos, ainda mais devido às expectativas e ao idealismo dos primeiros anos de gestão.

Todavia, desde o início de seu mandato, a presidente foi criticada pelo escândalo envolvendo compra de votos e manipulação por parte do Serviço de Inteligência Nacional durante as suas eleições. Posteriormente, houve o naufrágio da balsa Sewol e o fracasso de suas respostas ao acidente, os protestos contra a construção da base naval sul-coreana em Jeju, etc. Park, na posição de primeira presidente mulher da Coreia do Sul – fato que já lhe trouxe maiores desafios, responsabilidades e visibilidade no cargo – era ansiada com uma postura de excelência, mas se deixou se corromper, momento em que decepcionou profundamente o seu povo. E, assim, testemunhamos os maiores protestos populares pelas ruas da Coreia do Sul.

A partir de agora, o, até então, interino Hwang Kyo-ahn assume a presidência e novas eleições ocorrerão no prazo de 60 dias, até o dia 09 de maio. Até sabermos quem será o 9o presidente da Coreia do Sul, Hwang pede que a decisão da Corte Constitucional seja respeitada. “Há algumas pessoas que não aceitam ou não entendem o resultado, mas é hora de abraçar a decisão e olhar para a união nacional do país“, diz ele.

O escândalo de corrupção paralisou a administração presidencial da Coreia do Sul em meio a um crucial período para a segurança e defesa do país. A China acaba de aumentar as retaliações contra a Coreia do Sul e pressiona o país pela retirada do sistema de defesa norte-americano THAAD. Pequim ordenou às agências de viagens chinesas que suspendam a venda de pacotes turísticos à Coreia do Sul a partir de 15 de março, está cancelando eventos de celebridades sul-coreanas previamente agendados e banindo a importação de alguns produtos sul-coreanos. Ao que tudo indica, novas retaliações estão por vir, o que afeta diretamente a economia sul-coreana, 11ª no mundo. Seul delibera buscar contramedidas no âmbito da OMC e ampliar o seu leque de parceiros comerciais.

A intensificação das retaliações à Coreia do Sul sobre a polêmica do THAAD e a manutenção de uma dupla política para com a Coreia do Norte podem ser analisadas como uma demonstração de poder da China na região, principalmente no âmbito das relações Pequim-Washington. Enquanto isso, a China, 3º maior poderio militar do mundo, continua avançando o seu programa de modernização militar.

Wang Yi, Ministro das Relações Exteriores da China, pediu o fim dos testes nucleares da Coreia do Norte e o fim dos exercícios militares ROK-US de treinamento contra ameaças norte-coreanas. Enquanto isso, o Japão inicia exercícios de evacuação da população residente próximo às áreas ameaçadas pelo alcance de mísseis norte-coreanos e a Rússia observa atentamente o desenrolar do atual cenário na região.

Então, na próxima semana continuaremos com a outra face deste histórico momento para o povo coreano. Até lá! 🙂


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




1 Comentário

  1. A pesquisadora Marcelle Torres Okuno tem a habilidade, o conhecimento e a construção lógica sobre os acontecimentos na Coréia do Sul. Habilitada ela analisa a situação política da Coréia do Sul com muito conhecimento e traduz o sentimento do povo coreano contrário aos abusos e corrupção da ex-presidente Park Geun-hye. Parabéns Marcelle por seu lúcido artigo e esperemos outros mais… abraços do
    prof. Clóvis Brigagão

DEIXE UM COMENTÁRIO