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Há 67 anos, no dia 25 de junho, o mundo vivia o início de um dos primeiros confrontos armados da Guerra Fria: a Guerra da Coreia. Colonizada pelo Japão formalmente desde 1910 até agosto de 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, a Coreia passou por um breve período de libertação do domínio japonês e expectativa de independência até o início do conflito intercoreano e os seus desdobramentos até os dias atuais.

Durante a minha participação na 16ª Cúpula Mundial de Prêmios Nobel da Paz de 2017, sediada em Bogotá, na Colômbia, a primeira na América Latina e em momento de grande expectativa e esperança devido ao acordo de paz colombiana, tive a imensa honra de conhecer a Associação de Veteranos Colombianos da Guerra da Coreia e aprender e ouvir os testemunhos de veteranos colombianos enviados para o combate em solo coreano.

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Bogotá, capital da Colômbia.

Poucos sabem sobre a participação da Colômbia na Guerra da Coreia, tendo sido o único país da América Latina a enviar tropas à Coreia, o Batallón Colombia. Formado por 5100 combatentes, o batalhão de infantaria do Exército colombiano serviu ao lado do Comando das Nações Unidas e foi a primeira divisão militar colombiana em combate na Ásia. 

É preciso refletir e conscientizar sobre a importância desses bravos e heroicos homens e mulheres e de suas experiências e ensinamentos para as próximas gerações sobre as diversas dimensões de uma guerra.

Sala Guerra da Coreia, Museu Militar, Bogotá.
Sala Guerra da Coreia, Museu Militar, Bogotá.

Escrevo aqui alguns trechos dos inesquecíveis depoimentos e de histórias que levarei por toda a vida:

“(…) Eu já combatia contra as FARC antes de ir para a Coreia. Desembarcamos em Incheon sem armamento. Lá, nos deram roupas para o inverno, botas, meias de lã, armamentos e munições. O dia 23 de março de 1953 foi uma das batalhas mais duras do Batallón Colombia, faltou munição. No dia 23, a mesma granada que matou o meu amigo me atingiu na perna direita e no peito também. O que mais me impressionou na manhã de 24 de março foi que eu pisei no estômago de um chinês, já morto. Havia muitas baixas de ambos os lados. Eu sentia medo. Meus músculos da mandíbula paralisavam.

Tem-se que unificar as duas Coreias. A Coreia do Sul precisa do Norte e o Norte, do Sul. Neste momento, a Coreia do Norte sofre de fome e as pessoas precisam de comida. A guerra gera fome, órfãos, enfermidades espantosas. Não há paz. Tem-se que dialogar em todos os campos para selar a paz”. (Fantone, 83 anos)

“Julho de 1952. Eu e mais 4 amigos nos apresentamos voluntariamente para ir à Guerra da Coreia. Eu me apresentei porque ou ia para a Guerra da Coreia ou combatia com os guerrilheiros aqui. Saímos de Cartagena, passamos por Panamá, fomos para o Havaí. Do Havaí para Yokohama e Tóquio, depois para Incheon. Chegamos à Coreia e fazia muito frio nos acampamentos do Batalhão. Minha função era como apontador do morteiro 81. Os chineses nos bombardearam. Eu não tinha medo, talvez pela situação aqui na Colômbia. As crianças são as que mais sofrem, o mesmo que hoje na Colômbia, com a guerra”. (Toquica, 84 anos)

“Chegamos no inverno. Participei do ataque ao 0180, em 10 de março de 1953. Dois dias depois, entrei como soldado enfermeiro. Estávamos perto do exército chinês. Pelas minhas condições de soldado enfermeiro, tinha que evacuar os feridos e mortos em combate, o que, para mim, era motivo de medo, desespero, e assim tivemos que ficar até 23 de março quando houve o ataque dos chineses ao Batalhão. Ataque ao qual o Batalhão teve 71 desaparecidos em ação, cerca de 100 mortos e 600 feridos. Fomos levados ao hospital, depois voltei às duas linhas de fogo até o momento da assinatura do armistício em julho de 1953. Como surpresa desagradável e muito triste, quando voltei do hospital me deram a notícia de que os dois companheiros que eu havia atendido em combate estavam desaparecidos, e até hoje continuam desaparecidos. Depois de sofrer os rigores da guerra, (digo a vocês que) vivam em paz, em compreensão, porque a violência destrói não só a nós, mas os nossos países e Generais”. (Vergara, 85 anos)

“(…) Por nenhum motivo seria conveniente que continue o conflito entre Coreia do Norte e Coreia do Sul. O ideal seria que os países fossem um só, para que vivam em paz. A paz é a chave para o desenvolvimento e crescimento econômico e social”. (Nunes, 88 anos)

“Sou de Barranquilla. Em abril de 1951, viajei à Bogotá para o treinamento de cerca de dois meses oferecido pelo exército dos EUA. (…) Quando desembarcamos na Coreia do Sul, eu vi a pobreza do país porque já estava com um ano de guerra em curso. Fiquei dois meses na companhia C em treinamento. Eu trabalhava em mecânica e sabia manejar os carros. Então, perguntaram aos soldados quem sabia. Éramos três, demos um passo a frente e nos levaram para o treinamento de mecânica.

Certa noite me chamaram às 1h da manhã para levar café quente a um pelotão. Meu amigo disse: “Guilhem, eu vou porque tenho que entregar algumas correspondências a alguns companheiros que estão lá no pelotão”. Eu, então, fiquei e ele foi levar café com mais dois soldados, a uma distância de cerca de 3 km. Eles tinham que ir sem luzes plenas à noite para que o inimigo não notasse e não os seguisse ou atirasse. Era necessário andar um pouco com a luz acesa e apagar, um pouco com a luz acesa e apagar. Após entregar o café, na volta para a nossa base, infelizmente ele entrou numa área inimiga, onde havia minas e o jipe explodiu. Só o meu amigo morreu porque os outros dois soldados ficaram no pelotão distribuindo café. Avisaram à nossa base que o jipe havia explodido e Guilhem estava morto, mas não era eu, era o meu companheiro, aquele que na última hora me pediu para ir e entregar as correspondências. Fiquei na mecânica na Frente de guerra até regressar à Colômbia, em 1953.

Eu escrevia à minha noiva todos os meses, e ela, da Colômbia, me escrevia, levava ao posto da Colômbia para os que estavam na Guerra da Coreia e a carta chegava onde eu estivesse. Até hoje estamos casados. Quando voltei à Colômbia, seis meses depois nos casamos. Foram quase 14 meses que fiquei em confronto e depois nos casamos. Ela me esperou. Hoje, ela tem 87 anos. Temos 4 filhos, 9 netos e 1 bisneta. Os coreanos nos agradecem e nos reconhecem até hoje. Entre nós, há o forte desejo para que as Coreias firmem a paz entre si, que se desenvolvam e progridam juntas.” (Dias, 91 anos)

Guilhem Dias, 91 anos, colombiano veterano da Guerra da Coreia.
Guilhem Dias, 91 anos, colombiano veterano da Guerra da Coreia.

Em diversos momentos de seus depoimentos foi difícil conter a emoção e a imensa honra de estar ali com eles. Aqueles olhares compenetrados, memórias tão vivas, histórias que marcam as nossas vidas para sempre e nos fazem refletir sobre o nosso papel no mundo. Era como se eu pudesse estar lá, na Guerra da Coreia, com cada um deles, vivenciando todas aquelas situações.

É preciso honrar a memória dos que lutaram pela independência, ter em mente as experiências dos que testemunharam o horror da guerra de perto e ouvi-los: “Por nenhum motivo é conveniente que continue o conflito entre Coreia do Norte e Coreia do Sul. A Coreia do Sul precisa do Norte e o Norte, do Sul. A paz é a chave para o desenvolvimento e crescimento econômico e social”. É tempo de viver a paz coreana.

ASCOVE, Bogotá, Colômbia.
ASCOVE, Bogotá, Colômbia.

À Associação de Veteranos Colombianos da Guerra da Coreia, em Bogotá, e a todos os colombianos veteranos, a minha eterna gratidão e admiração. Agradeço imensamente a recepção, os ensinamentos e a oportunidade e o privilégio de tê-los conhecido.

Em minhas mãos, o livro El Batallón Colombia com a dedicatória: “En nome de los veteranos colombianos de la Guerra de Corea, para la señora Marcelle Torres, por la extraordinaria labor quel está realizando para sacar del olvido la noble causa de la Guerra de Corea”.

Sim, é tempo de viver a paz coreana.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




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