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Estamos acompanhando o desenrolar de mais um escândalo político envolvendo a administração presidencial da República da Coreia. As notícias de conselheiros secretos, nepotismo, ganhos ilícitos e tráfico de influência parecem conduzir a presidência da Coreia do Sul à beira do colapso.

Park Geun-hye é a primeira presidente mulher da Coreia do Sul, fato que já lhe traz maiores desafios, responsabilidades e visibilidade no cargo. Além disso, o fato de ser filha do ditador militar Park Chung-hee também repercute em sua imagem. Seu pai, Park Chung-hee, é visto como um dos responsáveis pela transformação do país em uma potência industrial (e aqui ressalto a ênfase dada por Paulo Skaf, presidente da Fiesp, quando presenciei o seu discurso durante a visita da presidente Park ao Brasil e a participação no Fórum Bilateral Brasil-Coreia do Sul, em abril de 2015). Mas também, à época de sua gestão, as eleições eram manipuladas, os inimigos políticos assassinados, manifestantes pró democracia presos e torturados, etc.

O escândalo político envolvendo a presidente Park Geun-hye gira em torno do grau de influência que Choi Soon-il veio tendo sobre a presidente e sua gestão. Enquanto amiga e confidente da presidente Park Geun-hye, não há problemas. A questão é a extensão de sua influência na gestão presidencial não tendo uma posição oficial que lhe permita legalmente tal alcance.

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Choi Soon-il é filha de Choi Tae-min, uma espécie de “pastor carismático” muito próximo de Park Chung-hee. Choi Soon-il é acusada de controlar duas fundações (Mir e K-Sports) que receberam doações de dezenas de milhões de dólares de empresas sul-coreanas e de tentar desviar tais fundos para suas empresas-fantasma na Alemanha. Além disso, Choi é acusada de ter desviado fundos para o seu uso privado e ter conseguido vaga para sua filha na Ewha Womans University sob critérios preferenciais.

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No dia 28 de outubro, foi proposta a demissão dos principais conselheiros da presidente a fim de garantir uma remodelagem no seu gabinete. E no dia 29 de outubro, milhares de sul-coreanos tomaram as ruas da capital pedindo a renúncia da presidente sob a alegação de que ela permite que amigos interfiram em assuntos do Estado. Com velas e cartazes dizendo “Quem é o verdadeiro presidente?” e “Park Geun-hye renuncie”, os manifestantes marcharam pelo centro de Seul após a realização de uma vigília com velas perto da prefeitura. Não está claro se o ato será suficiente, porém, de forma mais que depressa, a sua oposição já se pronunciou: “Park perdeu sua autoridade como presidente e mostrou que ela não tem as qualidades básicas para governar um país”, afirmou Lee Jae-myung, do partido Minjoo e prefeito da cidade de Seongnam.

Park Geun-hye está entrando em seu quinto e último ano de gestão presidencial e chega com aprovação inferior a 20%. Mas, desde o início de seu mandato, a presidente vem sendo alvo de fortes críticas, como:

– O escândalo envolvendo compra de votos, manipulação e o Serviço de Inteligência Nacional;

– O naufrágio da balsa Sewol, em 2014, e a crítica ao governo pelo fracasso de suas respostas ao acidente;

– Os protestos contra a construção da base naval sul-coreana em Jeju;

– Em novembro do ano passado, eu estava em Seul e presenciei uma das maiores manifestações já realizadas no país, cerca de 60 mil nas ruas. A manifestação culminou na atuação da polícia e o uso de spray de pimenta e jatos d’água para conter os protestos. “Filha do ditador” era o termo mais pronunciado durante os protestos. Alguns protestavam contra o plano do governo de substituir a matriz da história em livros didáticos para estudantes do ensino médio, outros protestavam contra a reforma trabalhista e por mais vagas de emprego e melhores condições de aposentadoria e tratamento para os idosos. À época, a presidente Park comparou os protestos com máscaras ao Estado Islâmico, o que enfureceu os manifestantes. Em todos os casos a preocupação continua centralizada no grau de liberdade de expressão e democracia do país.

Agora, dia 25 de outubro, a presidente Park se desculpou novamente. Desta vez, devido ao compartilhamento de rascunhos de discursos presidenciais com Choi. Inclusive, Choi é acusada de ter editado um dos principais discursos presidenciais, o que a Park proferiu em Dresden, na Alemanha, em 2014, sobre a sua visão para a unificação da península coreana. Realmente, um dos seus principais discursos e o meu favorito ( 🙂 ). Mas, até aí, se consultar com líderes religiosos ou qualquer outro tipo de mentor/coaching e pedir ajuda na formulação de discursos não é crime. A questão começa nas alegações de manipulações de admissões e tratamento especial em universidades, os quais despertaram o descontentamento principalmente dos jovens sul-coreanos.

Park Geun-hye não é a primeira figura presidencial a se envolver em escândalos de corrupção e tráfico de influência durante o período do mandato a frente do governo. Nas palavras do amigo e professor David Kang, da Universidade do Sul da Califórnia, em entrevista à Economist, “tráfico de influência é sistêmico e endêmico na Coreia do Sul e os últimos presidentes sul-coreanos foram perseguidos por escândalos de corrupção e irregularidades em suas administrações”.

Não é incomum que os presidentes sul-coreanos tenham índices de aprovação em declínio ao longo de seus mandatos. Ainda mais devido às expectativas e ao idealismo dos primeiros anos de gestão.

No entanto, estamos vivenciando o pior período das relações intercoreanas. A tensão na península é uma das mais altas desde o armistício de 1953. Mais ativos militares norte-americanos cercam o país. Enquanto o partido governante sugere uma Coreia do Sul nuclear para combater a Coreia do Norte e ganha apoio popular para tal medida, a oposição busca a proposta de uma neo-Sunshine Policy. O THAAD será implantado até o final de 2017, uma decisão que se arrastou por anos e a Coreia do Sul ainda precisa lidar com a China e a Rússia em tal questão, grandes e importantes parceiros para a sua economia. Pela primeira vez, a presidente Park mencionou “apoio a refugiados norte-coreanos em sua trajetória de deserção”. Também pela primeira vez, o representante da Coreia do Sul na ONU questionou o credenciamento da Coreia do Norte tendo em vista suas reiteradas transgressões às normas do direito internacional. São momentos históricos e importantes para o futuro do país. Caso a presidente Park seja destituída, quem assumirá a gestão presidencial? Qual o seu partido e diretrizes? Mais do que saber quem é Choi, o país vive momento decisivo também para a sua defesa nacional e política externa.

Em respeito aos seus cidadãos, é inadmissível que outros, senão o corpo de conselheiros e funcionários oficiais, tenham influência sobre a gestão presidencial, mas também o é deixar que tal assunto se torne central e comprometa as demais atividades nocivas ao funcionamento do país no âmbito doméstico e sua imagem e credibilidade no cenário internacional.

“A líder da 11ª potência mundial, livremente eleita pelo povo da Coreia, se deixou ser influenciada por um terceiro desconhecido, a ponto de ser instruída sobre a política, discursos e até mesmo estilo de roupa. Incrível!” Precisamos desvendar o real motivo e propósito que há por trás de tudo isso.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




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