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A ida do grupo BTS ao Billboard Music Awards, assim como o prêmio que eles receberam, tem atraído a atenção da mídia ocidental. Eles foram eleitos os artistas mais bem vestidos do tapete vermelho, em especial o integrante V, pela Vogue, e Jin ficou conhecido como “third one from the left” (terceiro da esquerda) ao deixar várias pessoas se perguntando quem é esse moço bonito. Devido a todo esse sucesso, várias mídias ocidentais têm feito vídeos e artigos com informações sobre o grupo com o intuito de apresentar o BTS ao público ocidental. Uma dessas mídias foi a revista Rolling Stones, que em maio escreveu um artigo intitulado BBMA Winners BTS: 5 Things You Should Know About the K-Pop Sensations, com cinco fatos sobre o grupo.

Entretanto, logo o primeiro ponto destacado pelo artigo diz o seguinte:

1. BTS escreve e produz k-pop socialmente consciente.
Uma olhada em Psy é prova suficiente de que o K-pop tende a focar em criar faixas “chiclete” com um olho voltado ao convencional ocidental, mas BTS (…) se destaca como uma anomalia entre seus colegas. Enquanto a cena formal do K-pop tende a focar em singles sobre assuntos comuns como desilusão amorosa e adeus, BTS se conectou com audiências tocando em tópicos como saúde mental (faixa do álbum de 2015 “Whalien 52” aborda solidão), política (veja a colaboração do integrante Rap Monster com Wale intitulada “Change”) e até empoderamento feminino (“21st Century Girl” foi apresentada na televisão coreana). Ao mesmo tempo, os integrantes têm créditos de participação na composição de quase todas as suas músicas e estão tomando parte em mais papeis de produção em lançamentos posteriores – também uma raridade no K-pop.(…)

(Tradução minha)

Muitos fãs ao redor do mundo não gostaram da posição tomada pelo artigo, que insinua que o k-pop é um gênero musical fútil, assim como um vídeo feito pela HollywoodLife. Eu mesma achei que essas afirmações só reforçam o estereótipo ocidental que se tem do pop asiático num geral, como algo que é visualmente bom, mas sem nenhum conteúdo. Isso me rendeu muita reflexão, então decidi falar um pouco sobre isso no Laureando desse mês.

Para começo de conversa: devemos lembrar que BTS não é o único grupo que compõe e produz as próprias músicas. Sim, esses grupos ainda são poucos e em sua grande maioria masculinos, mas não acredito serem tão raros assim. A forma com que foi dito no texto faz com que o leitor que nunca teve contato com o k-pop pense que só existam uns dois compositores em toda a indústria. Fiz uma pesquisa e me admirei com alguns nomes que achei. Confira alguns links: 1, 2, 3 e 4.

A segunda coisa que me incomodou no trecho do artigo acima foi o autor ter considerado 21st Century Girl como uma música de empoderamento feminino. Eu sei que muita gente concorda, mas eu sinceramente não consigo enxergar isso na letra. Tudo bem, é uma música com uma mensagem positiva e encorajadora para mulheres – mas falta um pouco mais para poder ser chamada de empoderadora, na minha opinião. Além disso, não dá para esquecer que a letra de War of Hormones causa discussão até hoje.

Por último, a insinuação do artigo de que BTS é o único grupo de k-pop da atualidade a lançar músicas conscientes. Ok, acho que vou me demorar um pouco mais aqui.

Olha, eu adoro k-pop. É um dos gêneros musicais que eu mais escuto há anos. Eu adoro passar um tempão na frente do notebook vendo MVs, lives e dance practices. Mas eu sou a primeira a admitir que o melhor do k-pop são as batidas e as coreografias, não as letras das músicas em si. Quem me conhece sabe que eu tenho minhas críticas à indústria do k-pop, e as letras das músicas é uma delas.

Às vezes parece que é tudo uma variação da mesma coisa, principalmente em músicas de girlgroup: o oppa não me nota, o oppa me deixou, blábláblá. Entretanto, a) isso não se resume apenas ao k-pop e b) existem sim grupos, além do BTS, com letras mais conscientes.

Temos, por exemplo, o último comeback do B.A.P, Wake Me Up. O líder do grupo, Bang Yongguk, recentemente chegou a entrar em um curto hiatus por conta de crises de pânico. Na letra de Wake Me Up, que ele ajudou a escrever, dá para perceber alusões ao caso.

CL e Lee Hyori, com as músicas The Baddest Female e Bad Girls, respectivamente, deram um tapa na cara da sociedade ao rejeitar a “regra” de que mulheres têm que ser boazinhas e delicadas.

O próprio Psy, que o artigo critica, tem uma música chamada Father em que ele reflete sobre o papel de ser o provedor de uma família. (Tá, eu tenho um pezinho atrás com o Psy, mas sempre achei a letra dessa música tocante).

A música Warm Hole, das Brown Eyed Girls, é sobre uma mulher que gosta de sexo sim, e o que é que tem? Aliás, elas são ótimas, e as integrantes do grupo participaram na composição de várias músicas. Os solos da Gain também são bem ousados (para quem quiser ler mais sobre elas, tem um artigo em português que eu adoro.) Também existem músicas com letras mais motivacionais. Confira essa lista.

(Ok, acho que divaguei um pouco. Se você ainda está lendo, peço um pouquinho mais de paciência).

Acho importante ressaltar que, atualmente, não é apenas a letra de uma música que causa impacto. Existem outros elementos, mais visuais, que o k-pop explora de maneira única. Por exemplo, há uns 3 anos atrás eu não esperava ver MVs ou lives tão ousados como os últimos comebacks da Hyuna – ok, ela sempre foi uma idol com uma pegada mais sensual e tudo mais, mas eu particularmente achei Roll Deep um marco. Não foi nem um conceito fofo (que, vamos combinar, ninguém espera da Hyuna) nem o conceito sensual que estávamos acostumados com outras idols – foi sexy mas bem sexy mesmo, com direito a coleiras e chicote. E o MV de Touch, da Anda? A direção é maravilhosa, e conseguiram retratar interações lésbicas sem um olhar masculino de objetificação que ainda não vi em nenhum clipe ocidental.

Voltando ao artigo e à implicação de que o k-pop seria um gênero musical “baixo”, eu faço a seguinte indagação: qual é o critério para classificar um gênero musical (ou literário ou de filme) como superior ou não? Muitos dizem que um artista tem a obrigação social de passar uma mensagem através da sua obra. E apesar de eu considerar esse um aspecto importante da arte, não acredito ser uma obrigação do artista. Acredito que a arte seja, acima de tudo, uma forma de expressão, e são várias as facetas humanas a serem expressadas. Alguns preferem abordar temas políticos, outros saúde mental, sexualidade feminina, mas também tem aquela pessoa que acordou chateada com o boy/a girl e quer falar sobre seu coração partido.

Para concluir, eu acho que parte do estereótipo que se tem da música asiática é preconceito. É tipo com funk, sabe? Tanta gente enche a boca pra falar que funk não presta e etc. e tal, mas adora uma música dos States às vezes com a letra bem pior do que um Bumbum Tamtam da vida. Na real, grande parte do incômodo que o funk causa é por ser um ritmo que nasceu na periferia. O mesmo com o k-pop: ocidental tem essa mania chata de se achar o dono do mundo, então é claro que música oriental não tem valor, como poderia?

Como alguém que acompanha o BTS desde o debut, concordo que as letras das músicas são um dos diferenciais do grupo, até um dos motivos para que eles tenham conquistado tantos fãs. Eles têm um estilo mais direto, vão direto ao ponto sem enrolação e merecem todos os elogios que ganham. Mas isso não é justificativa para desconsiderar todos os outros grupos, alguns que vieram antes deles e ainda estão na ativa, cujo trabalho tornou possível que os meninos fizessem o que fazem hoje. O colaborador de uma mídia tão influente quanto a Rolling Stones deveria saber disso e ter tido a humildade de fazer nem que fosse uma pesquisa rápida no Google para não cometer uma gafe.

Fica de lição.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




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