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Em 2015, o Centro Cultural São Paulo organizou uma mostra de filmes coreanos com a temática: mulher. Todos os filmes exibidos tinham a protagonista feminina. Eu assisti alguns dos filmes – todos muito bons, mas um deles me marcou muito até hoje. Por isso, resolvi falar a respeito dele no Laureando de hoje.

O filme em questão é Aeja (애자; título internacional: Goodbye Mom; título divulgado na mostra do CCSP [11/2015]: Adeus, mamãe), centrado numa relação um tanto quanto conturbada entre uma mãe solteira e sua filha caçula. Lançado em 2009, foi dirigido e escrito por Jeong Gi-hoon e conta com Choi Kang-hee interpretando a rebelde Aeja e Kim Yeong-ae como sua mãe, Yeong-hee.

A história começa com Aeja ainda em seus dias de ensino médio, em Busan. Inteligente e com talento para escrita reconhecido pelos professores, Aeja é conhecida na escola por ser uma aluna problemática, e por faltar em muitas aulas, tem o futuro universitário comprometido. A mãe constantemente a pune com castigos corporais e abertamente dá preferência ao filho mais velho, Minseok. Apesar de Aeja desejar estudar fora do país, apenas o irmão vai. Amargurada, mais tarde ela se muda para Seul e raramente visita a casa da família no litoral.

O enredo principal se passa dez anos depois, com Aeja morando na capital e tentando a sorte como escritora, ainda sem muito sucesso. Apesar de ter quase 30 anos, ela ainda age de maneira rebelde e descuidada, e é evidente a preocupação e exasperação de Yeong-hee com a filha: uma de suas metas principais é vê-la casada, desejo que reitera diversas vezes durante o filme. A relação entre as duas passa por uma mudança drástica quando elas descobrem que o câncer de Yeong-hee voltou. Aeja, primeiramente a contragosto, volta para Busan para tomar conta da mãe, enquanto o irmão, recém-casado e esperando o primeiro filho, se enrola nos negócios.

Existem dois aspectos marcantes na trama do filme. O primeiro, e talvez o mais perceptível, é a diferença de personalidade entre mãe e filha, retratada através de brigas e discussões que arrancam risos de quem assiste. O segundo é a expectativa que a mãe tem da filha, que na verdade é mais uma expectativa social, de que ela se encaixe nos moldes para conseguir um bom marido e “se acertar” na vida. Yeong-hee não deixa Aeja estudar no exterior porque uma mulher não deve ficar longe da família, assim como ajuda Minseok a começar um negócio próprio, mas resiste em ajudar a filha, além de nunca perguntar à Aeja como anda o trabalho, e sim tentar comprá-la com um carro novo para que ela vá a encontros arranjados.

Entretanto, tudo isso não a torna uma mãe má; Yeong-hee ficou viúva cedo e guarda cicatrizes em relação a isso. Ela teve que se revestir de aço para conseguir criar dois filhos e ainda gerir uma clínica veterinária – é, inclusive, considerada referência em sua área. O tratamento diferenciado que ela dirige à Aeja por ela ser mulher pode ser lido como uma reprodução da pressão que Yeong-hee sofreu de sua mãe adotiva (que, apesar de ser um fato provável dado o frio tratamento que esta dirige à filha de criação, não tem como ser tomado como certeza), ou como uma preocupação de que a filha se encaixe nos padrões sociais para não sofrer no futuro.

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Qualquer que seja o motivo desse tratamento, o fato é que Aeja guarda rancor da mãe por conta dele. A mãe, por outro lado, guarda rancor da filha por ela não ter correspondido às suas expectativas. O caminho que as duas vão seguir durante a doença de Yeong-hee só pode ser trilhado de mãos dadas, e mãe e filha só conseguem dar as mãos depois de se conhecerem melhor, respeitar suas decisões, perdoar o passado e deixar de lado as personalidades diferentes. É um amor imenso, tocante, retratado de forma simples e requintada.

Acredito que Goddbye Mom passe no teste de Bechdel, pois, além das protagonistas, a maioria das personagens são mulheres e aparecem mais do que os homens e, apesar de Aeja ter um namorado e Yeong-hee sempre tocar no tópico casamento, suas conversas levam à reflexão das relações familiares – o que faz com que o romance pareça ser um aspecto secundário do filme.

Sentiu curiosidade? Então confira o trailer abaixo! (Com legendas em inglês)


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




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