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Na semana passada, realizei uma palestra no Rio de Janeiro sobre a tensão na Península Coreana e os últimos acontecimentos na região, tendo comentado sobre os exercícios militares Ulchi Freedom Guardian entre Coreia do Sul e EUA e que poderíamos esperar por novas respostas norte-coreanas nos dias seguintes e novos desdobramentos na região. O que aconteceu nesta semana? Novos lançamentos de mísseis norte-coreanos. O que quero dizer aqui é que a Coreia do Norte pode ser um Estado idiossincrático, mas não é impossível entender a sua lógica. Embora com ações condenáveis pela comunidade internacional, estão dentro de seu próprio interesse racional. Reduzir a complexidade da questão coreana ao “Kim Jong-un é um gordinho louco” é uma visão superficial e vazia.

Encontro do Conselho de Segurança Nacional Ulchi de 2017.
Encontro do Conselho de Segurança Nacional Ulchi de 2017.

Recentemente, a Coreia do Norte já havia realizado dois testes de mísseis balísticos intercontinentais passíveis de atingir o continente americano, aumentando a pressão de Washington D.C. pela atuação de Pequim. Tais lançamentos implicaram na resolução 2371 (2017) do Conselho de Segurança da ONU, aprovada por unanimidade – ou seja, com o apoio da China e Rússia – constando que a Coreia do Norte não deve fornecer, vender ou transferir carvão, ferro, minério de ferro, frutos do mar, chumbo e demais tipos de minério para outros países, o que reduziria a receita norte-coreana em, aproximadamente, 1 bilhão de dólares.

Votação no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Votação no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Dentre outras medidas, a resolução também solicita a retomada da Six Party Talks – fórum de negociações entre EUA, China, Japão, Rússia, Coreia do Sul e Coreia do Norte – acerca de uma desnuclearização verificável e pacífica da Península Coreana. China e Rússia ressaltam a solução conjunta através de duas ações paralelas: a desnuclearização e o estabelecimento de um mecanismo de paz. Todavia, também revelam o descontentamento com o avanço nuclear de Pyongyang. Em contrapartida, na esteira do Fórum Regional da ASEAN, em Manila, Ri Yong-ho, ministro das Relações Exteriores da Coreia do Norte, reiterou que não haverá negociações sobre o programa nuclear e de mísseis, a menos que os EUA renunciem à sua política hostil em relação a Pyongyang. Ainda, Pequim realizou exercícios navais no Mar Amarelo, entre a costa de Qingdao e Lianyungang, tendo sido interpretados como demonstração de presença e força, tanto para Pyongyang como para aliança EUA – Coreia do Sul.

Embaixador da China para o CSNU.
Liu Jieyi, Embaixador da China para as Nações Unidas.

Liu Jieyi, embaixador da China junto à ONU, relembrou a afirmação dos EUA de não pressionarem pela mudança do regime na Coreia do Norte ou pela reunificação das Coreias, um alerta às intenções de Washington na busca por apoio chinês. Outro fator é o aumento, na opinião pública estadunidense, da preferência pelo envio de tropas dos EUA, caso a Coreia do Norte invada o Sul. Ainda que existam dúvidas quanto ao domínio norte-coreano da tecnologia de miniaturização de ogivas nucleares para mísseis, há o reconhecimento do avanço de seu programa nuclear.

Durante esta semana, a Coreia do Norte realizou um novo lançamento em direção ao Mar do Leste, sobrevoando o Japão até cair no Pacífico. Residentes da ilha de Hokkaido, ao norte do Japão, acordaram com sirenes e o anúncio do lançamento norte-coreano. O governo japonês classificou o ato como “a mais grave ameaça e sem precedentes” da Coreia do Norte, o que agrava o debate em relação à reinterpretação do art. 9 da Constituição japonesa referente às suas forças de defesa.

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O presidente da Rússia, Vladimir Putin, alertou ontem que as políticas de pressão contra a Coreia do Norte dos EUA e outras nações não funcionarão e que a situação atual só poderia ser resolvida através de um diálogo incondicional. A declaração de Putin vem justo no momento em que as relações entre EUA e Rússia se deterioram. Outro ponto é quanto à política de impaciência de Trump em relação à Coreia do Norte. Ao passo que há desconexão e incoerência dentro de sua própria administração, Trump precisa entender que ao se opor a Rússia e a China ele estará incitando o estreitamento de ambas, situação em que o programa nuclear e de mísseis norte-coreanos terão ainda mais valor. Além disso, o presidente Moon Jae-in, em sua política de “não haverá uma guerra na península coreana” e “os EUA nada farão sem o consentimento sul-coreano”, estará em Vladivostok na próxima semana para participar do Fórum Econômico Oriental e poderá realizar um encontro com Putin acerca da atual situação na região.

Nas relações intercoreanas, o Sul segue exortando o Norte a parar de realizar críticas e ameaças retóricas e retomar o caminho do diálogo e da cooperação, enquanto o Norte mantém a sua posição de desconfiança e descrença do pedido de conversações bilaterais e multilaterais. Enquanto isso, 18 milhões de norte-coreanos permanecem em situação de insegurança alimentar, as agências humanitárias da ONU e demais organizações não-governamentais têm o aporte financeiro aos seus programas reduzido e a população norte-coreana não residente em Pyongyang continua tentando sobreviver com 300g de alimentos por dia.

Obs.: Esta matéria foi dividida em partes devido à sua extensão. A partir de hoje, a coluna de Geopolítica Coreana trará comentários e análises semanais acerca dos atuais acontecimentos na região. Fique à vontade para sugerir nos comentários ou via e-mail temas e assuntos a serem abordados, desde que pertinentes à coluna! 🙂

 


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




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