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234 a favor e 56 contra. Esse foi o resultado da votação na Assembleia Nacional que aprovou a moção de impeachment e suspendeu os poderes da presidente Park Geun-hye como chefe de Estado devido ao escândalo de corrupção envolvendo a administração presidencial da República da Coreia por tráfico de influência, extorsão, suborno, abuso de poder, vazamento de documentos oficiais, violação da Constituição, entre outros. E, quem assume como presidente interino é o primeiro-ministro Hwang Kyo-ahn.

A jovem democracia sul-coreana, que ao longo de toda a sua história bravamente lutou por independência, autonomia e voz ativa do seu povo e enfrentou/ainda enfrenta ceticismo em seu desenvolvimento democrático, nos ensina que é preciso cobrar do nosso representante aquilo que esperamos dele no seu papel à frente de uma nação.

De certo, o escândalo da presidente Park será para sempre lembrado, mas o que não se pode é invalidar as virtudes e feitos ao longo de toda a sua administração presidencial, resumindo o caso à superficialidade do “ela nem deveria ter sido candidata em 2013”. A corrupção no sistema político da República da Coreia não é fato atual, outros presidentes sul-coreanos também se envolveram em escândalos políticos, o que obviamente não prova razoabilidade na conduta da presidente, mas busca mostrar/relembrar que a questão não foi resolvida/finalizada em si. Testemunhar a retirada de um líder do poder trouxe/vem trazendo alívio e sensação de dever cumprido para muitos coreanos, mas é preciso ter em mente que a corrupção não chegou ao fim e não se resume à centralização em “um único culpado”.

O ano de 2016 foi intenso, tenso, dramático e repleto de oportunidades nesse xadrez geopolítico. O mundo testemunhou dois testes nucleares da Coreia do Norte, diversos lançamentos de mísseis norte-coreanos no Mar Amarelo e no Mar do Leste, tendo um deles atingido as águas territoriais do Japão e alertado Tóquio quanto ao avanço da capacidade de lançamento de Pyongyang e a discussão sobre uma possível futura aquisição de um sistema de defesa antimísseis THAAD para o Japão. Também, o GSOMIA, acordo de compartilhamento de inteligência militar entre Coreia do Sul e Japão foi assinado no mês passado, representando  o estreitamento dos laços Seul-Tóquio sem o intermédio de Washington, este último sendo questão-chave e desafio para 2017 devido à falta de clareza da política estratégica de Trump para a Ásia, etc.

No tocante às relações intercoreanas, a Coreia do Norte pode explorar os últimos acontecimentos políticos na esfera doméstica da Coreia do Sul a seu favor. Inclusive, o primeiro-ministro Hwang Kyo-ahn já instruiu aos militares a intensificar a vigilância contra ameaças ou qualquer tentativa de instigar a divisão nacional por Pyongyang.

Com relação à economia nacional, a população já vinha sofrendo com as altas taxas de desemprego, aumento de suas dívidas e as tentativas do governo de reestruturação do setor, o que pode afetar a taxa de crescimento econômico do país em 2017, havendo a necessidade de acompanhar de perto a discussão orçamentária para o próximo ano. A tentativa de reestruturação e os ainda fracos resultados nos setores de construção naval, indústrias químicas também vêm desagradando. Agora, o foco é minimizar as consequências econômicas do impeachment, monitorar de perto a evolução dos mercados financeiros no âmbito doméstico e internacional e acompanhar a discussão orçamentária para o ano de 2017.

Em termos de segurança e defesa nacional e política, a República da Coreia enfrentou grandes e importantes desafios ao longo do mandato da presidente Park. O país representa a sexta maior força militar mundial e a sua indústria de defesa tem crescido mais rápido do que a média regional nos últimos anos, com o objetivo de conter as ameaças militares norte-coreanas. De acordo com o plano de 2016-2020, o Ministério da Defesa sul-coreano se concentra em melhorar as condições gerais das forças militares do país; priorizar o poder militar, focando no Kill Chain e no Korea Air Missile Defense (KAMD); otimizar a estrutura das tropas; e aumentar as iniciativas de P&D em defesa. Para 2016, foi anunciado cerca de 35.272 bilhões de dólares para o orçamento de defesa do país, cerca de 2,41% do seu PIB e 14,5% do orçamento nacional total.

Na busca por acalmar a comunidade diplomática e tranquilizar seus países de acolhimento, o chanceler Yun Byung-se declarou às missões diplomáticas da Coreia do Sul em todo o mundo que a política externa não vai mudar. Todavia, o ritmo dos acontecimentos pode vir a alterar o atual cenário. Enquanto isso, o presidente interino Hwang Kyo-ahn precisa manter uma liderança clara em Seul e transmitir e exercer pleno controle da situação. Agora, a moção de impeachment foi enviada ao Tribunal Constitucional e que versará sobre a validade da votação do impeachment no prazo de 180 dias para julgar se a presidente Park será destituída ou não da presidência. Em 2004, o Tribunal Constitucional rejeitou a moção de impeachment contra o ex-presidente Roh, mas o caso da Park é mais grave e a sua impopularidade atualmente é quase que universal, aumentando a perspectiva de eleições antecipadas na Coreia do Sul – 11ª economia mundial e 4ª maior da Ásia. O “castelo de cartas” coreano está apenas começando.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




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