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Desde Março, a casa de Park Ye-in é um goshiwon localizado na área de Sinchon. Ela mora em um dos pequenos quartos de uma casa compartilhada, mas não costuma comentar com seus amigos sobre o lugar onde mora.

‘Meus amigos me olham demonstrando uma mistura de pena e preocupação quando eu digo que moro em um goshiwon’, disse Ye-in, que tem 22 anos.

Quarto de 3,5 metros quadrados em um goshiwon localizado em Sinchon.(Foto: Kim Da-sol/ The Korea Herald)
Quarto de 3,5 metros quadrados em um goshiwon localizado em Sinchon.(Foto: Kim Da-sol/ The Korea Herald)

Os goshiwons são uma forma de acomodação de baixo custo. Em sua maioria, são quartos grandes que são divididos ao meio por paredes finas e portas improvisadas. Os quartos são alugados mensalmente e são uma das formas mais baratas de habitação na Coreia, um país onde casas ou apartamentos de tamanho padrão quase sempre exigem depósitos muito altos.

Os quartos geralmente medem 3,5 metros quadrados, e são mobiliados com uma mesa, uma estante e uma cama. Se sobrar algum espaço, um pequeno frigobar pode ser instalado no quarto. E, nos goshiwons o banheiro pessoal chega a ser um luxo. O banheiro dessas habitações normalmente é compartilhado entre os inquilinos.

Mas, você sabe, viver em um goshiwon não deve ser algo mal visto por outros, pois pode ser a última opção feita por alguém que precisava conseguir um lugar para viver‘, diz Ye-in, que é aluna de uma universidade em Sinchon.

Ela é um dos 1,3 milhões de jovens coreanos que vivem em goshiwons, porões transformados em quartos ou em casas improvisadas instaladas nos telhados dos prédios.

Ye-in diz que há alguns pontos positivos sobre viver em um goshiwon ao invés de nos dormitórios da universidade. Ela recorreu ao goshiwon por ter perdido o prazo de cadastramento para morar nos dormitórios da faculdade no último semestre.

‘Existem alguns pontos positivos. Os quartos dos goshiwons são mais baratos e eu posso chegar a hora que quiser’, diz Park.

O aluguel de um goshiwon geralmente custa 300 mil wons por mês. Os moradores tem acesso a uma cozinha compartilhada com arroz e kimchi disponíveis, embora frequentemente a comida não tenha uma boa qualidade.

‘Eu não como o arroz. O arroz vindo da china não é gostoso nem é  de boa qualidade’, disse Ye-in, e adicionando que normalmente vai para uma loja de conveniência existente no primeiro andar para comprar algo para comer.

O quarto dela, que não tem janela, custa 200 mil wons por mês. O aluguel mensal para um quarto com banheiro privativo e uma janela pode chegar aos 500 mil wons mensais.

‘Eu queria economizar dinheiro para o próximo semestre. Não é tão ruim viver aqui, mesmo ouvindo tudo que faz o homem que vive ao lado, através da fina parede.’

Os goshiwons originalmente surgiram como opção de habitação livre de distrações para estudantes que se preparavam para os exames para o serviço público e judiciário.

Com a alta dos preços das habitações, os goshiwons se tornaram uma opção de moradia para estudantes do ensino médio, universitários e pessoas que tem orçamento apertado e que não teriam recursos para alugar uma casa que tenha um depósito muito alto.

Os dados do mercado imobiliário mostram que os preços das habitações nas principais cidades metropolitanas continuam a aumentar. Os preços das casas nos complexos de apartamentos de Seul e sua região metropolitana subiram para 5,89 milhões de wons por metro quadrado desde Junho.

Mesmo aqueles que conseguem uma habitação própria podem se ver em dificuldades. Em Seul e região metropolitana, 4 em cada 10 proprietários com menos de 35 anos são de baixa renda. De acordo com a Statistics Korea, no ano passado o custo alto das habitações deixou as pessoas sem dinheiro suficiente para suprir o custo básico de vida.

Nos últimos anos, a popularidade dos goshiwons como opção de moradia cresceu rapidamente em áreas próximas à escolas e também nas áreas onde se concentram os escritórios de Seul.

‘Não só os estudantes, mas os trabalhadores de baixa renda começaram a procurar refúgio em várias formas de goshiwons’, disse Hwang Kyu-seok, chefe da Korean Goshiwon Society.

‘Mesmo as áreas como Sillim ou Noryangjin, que são distritos onde as academias para aspirantes a servidores públicos se  localizam, estão vendo o número de inquilinos não-estudantes aumentar’, acrescentou Hwang.

De acordo com os dados do governo, existem pelo menos 12 mil goshiwons registrados em todo o país. Cerca de 7.000 deles estão localizados em Seul.

Devido aos seus preços acessíveis, os goshiwons tornaram-se um refúgio para vários grupos da sociedade, como os trabalhadores migrantes, os assalariados de baixa renda e os idosos sem familiares. Muitos destes idosos morrem em seus quartos e o fato pode passar despercebido por semanas.

Em um dos Goshiwon em Sinchon, cada quarto é separado por paredes e portas. (Imagem: The Korea Herald
Em um dos Goshiwon em Sinchon, cada quarto é separado por paredes e portas. (Imagem: The Korea Herald

Em junho, um homem de aproximadamente 50 anos foi encontrado morto em um goshiwon de Busan. Foi divulgado que que ele passava por dificuldades financeiras e que a desnutrição pode ter sido a  causa de sua morte. A polícia afirma que não haviam registros de familiares, parentes próximos ou amigos. Em 2015, uma mulher de aproximadamente 20 anos foi encontrada morta em um goshiwon quase duas semanas após sua morte.

Os dados do Ministério da Saúde e do Bem-Estar aponta que o número de mortes solitárias saltou para 1.245 em 2016, em 2011 o número era de 682 mortes. A maioria das mortes ocorreram em goshiwons, segundo a polícia.

Ativistas  exigem que o governo apresente medidas para ajudar os mais pobres.

‘Espero que a administração Moon Jae-in possa fornecer uma visão clara dos grupos de baixa renda do país, em vez de se concentrar em políticas para ajudar potenciais compradores de casas. Implementar medidas práticas para ajudá-los com a habitação irá naturalmente resolver problemas sociais como casamentos tardios e as baixas taxas de natalidade ‘, disse Lim Kyung-ji, chefe da Minsnail Union, uma cooperativa de habitação para jovens.

Kim Jin-ah, 22 anos, que viveu em um goshiwon desde que resolveu morar sozinha a três anos, disse: ‘Quando se trata de outras necessidades básicas, os alunos só conseguem lidar com a compra de alimentos e roupas, trabalhando em empregos de meio período. Mas realmente não podemos arcar com o aluguel de uma casa.’

Mas ela não acha que vida de quem mora em um goshiwon é ruim. Há aspectos positivos, diz ela, como seguir a tendência global de morar em lugares pequenos e com estilo de vida minimalista.

‘Antes, eu pensei que viver em uma casa grande era a receita para a felicidade. Mas agora eu sei que posso ser feliz, morando em um pequeno quarto’, completou Jin-ah.

Não é a primeira vez que o Koreapost aborda a realidade dos Goshiwons. Você pode ler mais sobre o tema, aqui.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




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