Compartilhe

Na capital da Coreia do Sul, Seul, o espaço é limitado e a habitação é cara. A Sharehouse Woozoo encontrou uma maneira de fornecer aos jovens uma habitação acessível – e um senso de comunidade.

Sexta-feira à noite em um apartamento no bairro de Seul, Yeouido, cinco jovens cuidam cada uma de seus afazeres – Abe Haruka, uma cidadã japonesa, está se preparando para encontrar seu namorado. As outras preparam o jantar enquanto esperam que Park Jin-seon, uma secretária, volte para casa.

Choi Su-gyeong, 23 anos, é uma estudante universitária que mudou-se para o apartamento compartilhado em fevereiro de 2016. Até então, ela morava em um dormitório da universidade. “Eu tinha um monte de comida pré pronta de lojas de conveniência quando eu morava no dormitório. Mas agora eu vou às compras de supermercado com as onni-deul e jantamos juntas quase todos os dias“. Ela chama suas companheiras de apartamento de “onni-deul“, irmãs mais velhas em coreano, em um sinal do estreito vínculo entre as moradoras.

Sapatos dos residentes da Sharehouse 22, na entrada do apartamento. Foto: Korea Exposé.
Sapatos das residentes da Sharehouse 22, na entrada do apartamento. Foto: Korea Exposé.

O fato de compartilharem um apartamento espaçoso entre seis mulheres é tão afortunado quanto incomum. Muitos jovens sul-coreanos gastam seus vinte e trinta anos movendo-se entre os apartamentos de porão com pouca luz natural, ou cubículos isolados ou muitas vezes construídos ilegalmente no último piso, que são alugados como salas privadas em edifícios comerciais. Estes apartamentos são tão pequenos que podem medir 13 metros quadrados. Não é romântico, mesmo quando justificado pela juventude. Por essas e outras razões, alguns jovens apelidaram a Coreia do Sul de “inferno Joseon“, um termo satírico que lembra o último reino coreano.

Cozinha da Sharehouse 22. Foto: Korea Exposé.
Cozinha da Sharehouse 22. Foto: Korea Exposé.

Graças a uma jovem empresa social, chamada Sharehouse Woozoo, as seis mulheres encontraram uma casa confortável em uma região da capital onde o espaço e a habitação são excelentes. Estima-se que 25 milhões de pessoas vivam em Seul e seus arredores, ou seja, metade da população da Coreia do Sul. Seul é a 15ª cidade mais cara do mundo para se morar, de acordo com a Business Insider.

Lee Da-heyon cozinhando bata doce para dividir com as outras residentes do apartamento. Foto: Korea Exposé.
Lee Da-heyon cozinhando bata doce para dividir com as outras residentes do apartamento. Foto: Korea Exposé.

É ainda mais intrigante que a empresa, para resolver os custos extremos de moradia em Seul, decidiu colocar seus escritórios na localização privilegiada de Yeouido. A área sofreu desenvolvimento planejado na década de 1960 e hospeda a Assembleia Nacional da Coreia, empresas de radiodifusão, empresas financeiras e o Centro Comercial IFC. Talvez os fundadores da Sharehouse Woozoo estejam tentando solucionar o epicentro da crise de habitação em Seul.

A empresa social existe há quatro anos e o modelo de negócios é simples: alugue casas grandes ou apartamentos, e depois os reformule antes de subarrendar a inquilinos dispostos a viver juntos em uma única unidade de moradia. Sharehouse Woozoo agora opera 38 habitações chamadas de ‘Sharehouses‘ em torno de Seul.

Uma delas, a Sharehouse Woozoo 22, tornou-se um lar para Choi Su-gyeong e suas “irmãs”. Ela está localizada no Yeouido Model Apartment, um dos primeiros complexos de apartamentos a ser construído em Seul. A estrutura é de 40 anos atrás. Árvores antigas e carros bem estacionados sugerem tanto a passagem do tempo, quanto a natureza apertada da comunidade.

Jeon Hye-ji à esquerda, fazendo brownies, enquanto suas companheiras de apartamento, Lee Da-hyun e Lee Su-keyong brincam. Foto: Korea Exposé.
Jeon Hye-ji à esquerda, faz brownies, enquanto suas companheiras de apartamento, Lee Da-hyun e Lee Su-keyong brincam. Foto: Korea Exposé.

Su-gyeong diz que viver na casa de aluguel fez a sua saúde e qualidade de vida melhorarem. Ela diz que vivencia uma atmosfera de solidariedade e estabilidade ao falar com suas companheiras de apartamento tarde da noite, praticamente todos os dias. As residentes vêm de origens muito diferentes – uma secretária, uma estagiária, uma estudante universitária, uma Seoulite, uma moça de fora da cidade e até mesmo uma estrangeira – mas elas são unânimes em elogiar seu estilo de vida: “É como se fosse a nossa casa, e nos sentimos como numa outra família (além da nossa)“.

Um apelo a mais é que elas começaram a compartilhar o acesso a uma cozinha grande e a uma sala de estar, mesmo que cada uma pague uma quantidade que seria suficiente para alugar um estúdio pequeno em outro lugar.

Algumas das residentes da Sharehouse 22 também dividem o quarto. Foto: Korea Exposé.
Algumas das residentes da Sharehouse 22 também dividem o quarto. Foto: Korea Exposé.

A Woozoo é tão bem sucedida devido à sua abordagem muito prática em fornecer habitação e um senso de comunidade. Para este fim, a empresa social oferece um serviço que os que procuram apartamento normalmente acham atraente.

Na Coreia do Sul os inquilinos geralmente têm que fazer um depósito pesado após a mudança. A quantidade, que varia de dezenas à milhares de won, depende do tamanho e localização do apartamento, bem como do capricho do proprietário.

É comum que o proprietário se recuse a devolver o depósito a tempo, mesmo quando o contrato de locação esteja para expirar. Em comparação, a Woozoo pede apenas dois meses de aluguel como depósito e serve como uma ligação entre o proprietário e inquilino.

Notas de boas -vindas do apartamento Sharehouse 22. Foto: Korea Exposé.
Notas de boas -vindas do apartamento Sharehouse 22, em Yeoui-do, Seul, Coreia do Sul. Foto: Korea Exposé.

A empresa poupa aos inquilinos o problema de ter que visitar corretores de imóveis e o estresse de lidar com o proprietário. O contrato é simples e não há nenhuma taxa embutida.

Os proprietários também estão felizes porque a Woozoo lida com a parte de reparos e manutenção, mantendo o valor da propriedade em alta. À medida que a percepção pública da habitação compartilhada melhora, mais e mais aposentados com imóveis para alugar estão procurando saber sobre como eles também podem participar do programa.

Em uma sexta-feira a noite, Choi Su-gyeong e Haruka Abe, colegas de apartamento, se maquiam juntas. Foto: Korea Exposé.
Em uma sexta-feira a noite, Choi Su-gyeong e Haruka Abe, colegas de apartamento, se maquiam juntas. Foto: Korea Exposé.

No mundo Woozoo, como em qualquer outro lugar, nem tudo é perfeito, é claro. Às vezes, um residente não consegue ou não quer seguir as regras e a comunidade entra em colapso. Em alguns casos extremos o residente pode ser expulso.

O modelo é ideal para aqueles que gostam de conhecer novas pessoas, não se debruçam sobre pequenas diferenças e não têm objeções a um estilo de vida social um pouco restrito. Trazer para casa um amigo do sexo oposto é proibido, por exemplo.

Houve candidatos que pensaram que poderiam fazer o que quisessem, porque interpretaram a Woozoo como uma empresa leve devido a ser um empreendimento de empreendedorismo social. Para garantir que todos se adequem a esse estilo de vida comunitária, os candidatos são selecionados através de um processo de entrevista. Na entrevista com a equipe da Woozoo, eles enfatizam o seu princípio empresarial e orgulham-se do fato de terem sido pioneiros num modelo de negócio sustentável.

A equipe da Sharehouse Woozoo. Foto: Korea Exposé.
A equipe da Sharehouse Woozoo. Foto: Korea Exposé.

Na Coreia do Sul a ideia de compartilhar seu espaço de vida com estranhos e viver em harmonia é um conceito relativamente novo. Acho que a pessoa consegue se conhecer melhor e crescer vivendo com outros. Um dia nós queremos comprar e possuir um espaço que melhor incorporará e expressará os valores que a Woozoo está buscando“, disse o vice-presidente da Woozoo, Lee Ah-yeon.

Depois de várias crises econômicas e uma recessão prolongada, as velhas ideias que a Coreia do Sul valorizou um dia – “vizinhos são primos” e “generosidade” – estão desaparecendo rapidamente. Numa altura em que os jovens necessitam de soluções práticas em vez de palavras vazias de conforto, a Sharehouse Woozoo está rapidamente se estabelecendo como uma alternativa para a escassez de habitação no “inferno Joseon”.

As residentes da Sharehouse 22, dividem um bolo e brownies depois do jantar. Foto: Korea Exposé.
As residentes da Sharehouse 22, dividem um bolo e brownies depois do jantar. Foto: Korea Exposé.

1 Comentário

DEIXE UM COMENTÁRIO