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Cho Yong-moon, de 75 anos, passa nove horas do dia, cinco dias da semana, fazendo uso de seu passe-livre do metrô de Seul para fazer entregas à lojas de roupas e joalherias.

Ele é um dos muitos idosos que, devido ao pagamento da aposentaria não ser suficiente para seu sustento, complementam a renda carregando caixas em “silver services” de entrega para empresas.

Entregador, Cho Yong-moon, 75 anos de idade, carrega uma entrega na estação de metrô em Seul, Segunda-feira. / BLOOMBERG
Entregador, Cho Yong-moon, 75 anos de idade, segura uma entrega na estação de metrô em Seul, Segunda-feira. / BLOOMBERG

Esse trabalho não é fácil, especialmente quando ando no metrô pelas escadas com pacotes pesados”, disse Cho Yong-moon, que recebe cerca de 500.000 wons (R$ 1.500) por mês – metade do que ele e a esposa precisam para sobreviver. “Os assentos para idosos são limitados nos metrôs de Seul, então, por vezes eu fico horas em pé”.

O programa de aposentadoria da Coreia do Sul foi estabelecido somente depois de 1988, e Cho Yong-moon  contribuiu apenas o suficiente para receber  600.000 wons por mês. A classificação social dele descreve os desafios demográficos de uma nação com crescimento econômico em declínio e uma sociedade cada vez mais idosa.

Também serve de exemplo para outros países, incluindo a China, cujos fundos de aposentadoria variam muito entre os tipos de trabalho e muitos fundos provinciais encontram-se em déficit.

Os desafios são ainda maiores no Norte da Ásia, devido a rapidez e escala de mudança demográfica que percorre a região”, informou Park Donghyun, economista chefe do Asia Development Bank em Manila. “O bônus demográfico que contribuiu substancialmente para o crescimento da região no passado, já se tornou um ônus”.

Para Park Donghyun o crescimento da pobreza entre idosos pode ser um dos maiores riscos socioeconômicos na região. As prioridades e salários na Coreia do Sul são baseados de modo geral na idade. Muitos trabalhadores são despedidos em meados de seus 50 anos, antes de terem acumulado o suficiente para se aposentarem. Famílias de muitas gerações, nas quais os mais velhos moravam com seus filhos e netos, também tem tornaram-se incomunds, o que deixou milhões de idosos sem a devida segurança para sua velhice.

A Coreia do Sul tem o pior índice de pobreza entre idosos entre todos os países da OCDE. A organização estima que a idade de aposentadoria de sul coreanos em 2014 foi de 73 anos para homens e 71 para mulheres.

As empresas precisam mudar sua cultura de aumentar a os salários em decorrência da idade, o que é uma das razões pelas quais as empresas não querem manter funcionários idosos”, disse Shin Kwan-ho, professor de economia na Korea University em Seul. “Além dos mais velhos estarem mais saudáveis hoje em dia, o fato de trabalharem por salários iguais pode ajudar a reparar o declínio de oportunidades aos jovens em idade de trabalho”.

Ainda assim, as opções para idosos que procuram recomeçar no mercado de trabalho são limitadas, e alguns são levados do topo da para o fundo da pirâmide salarial.

O passe-livre no metrô, um direito para pessoas acima de 65 anos, é um ponto chave para muitos no mercado de trabalho. O centro Golden Job do governo metropolitano de Seul, que auxilia idosos a melhorarem suas habilidades, foca em treinamentos para empregos como entregadores, atendentes de estacionamento, zeladores de prédios e bibliotecários.

H.M. Cho, de 63 anos de idade, que trabalhou por 25 anos em um dos maiores conglomerados sul coreanos, estava entre aqueles em treinamento no Golden Job este mês. Ele está buscando aumentar suas habilidades, no caso dele perder o emprego como estagiário em um pequeno fornecedor de máquinas. H.M. Cho disse que obteve a vaga de estagiário depois de oferecer trabalhar por 25 por cento a menos que o salário mensal de 2 milhões de wons (R$ 6.000) oferecido pela companhia.

Cerca de 44% por cento das pessoas entre 55 e 79 anos de idade são recebem aposentadoria pública ou privada, de acordo com o departamento de estatística. O pagamento mensal médio é de 510.000 wons (R$ 1.530), sendo que pessoas que contribuíram no sistema privado recebem bem mais, mas cerca de metade dos beneficiados ganham menos de 250.000 wons (R$ 750), de acordo com índices do governo.

Os “silver services” também se estenderam pelo Japão, onde um terço da população já passa dos 60 anos e o governo está gradualmente aumentando a elegibilidade para aposentadoria para 65 anos de idade. Alguns idosos no Japão também continuam trabalhando mesmo após aposentar, mas os índices de pobreza entre os mais velhos é muito menor do que na Coreia do Sul, e muitos trabalham meio-período para complementar as pensões ou para se manterem ativos.

Por volta de 19% da população da China estará acima de 60 anos em 2020, e quase 39% em 2050, de acordo com o Ministro de Recursos Humanos e Segurança Social, Yin Weimin, no ano passado. Enquanto a China ainda tem tempo para se preparar, ainda há muito há ser feito considerando o estado atual dos programas de aposentadoria e a erosão das estruturas familiares grandes devido a décadas de influência da política do filho único.

Uma pesquisa com famílias de tamanho médio na Coreia do Sul descobriu que muitos estimam que o custo de vida após a aposentadoria será mais que o dobro do que eles esperam receber do programa nacional para este fim. A pesquisa, feita pelo NH Investment & Securitires Co., que entrevistou 1.025 famílias no mês passado, expôs que 96% dos consultados pretendem continuar trabalhando após a aposentadoria oficial para complementar os planos públicos e privados.

A partir do próximo ano, a Coreia do Sul terá mais cidadãos acima de 65 anos do que crianças abaixo dos 14 anos, de acordo com projeções do governo. Isso significa um futuro com muito mais idosos percorrendo os metrôs de Seul, carregando caixas para “silver services”.

Cho Won-dae, de 84 anos, que já faz entregas há mais de uma década, aconselha os demais a esquecerem seus empregos antigos. “É melhor ganhar dinheiro, não importa o quão pouco,” disse Cho Won-dae, que ganha apenas 1 milhão de wons (R$ 3.000) por mês. “O amigo do meu filho me viu uma vez comendo um lanche no metrô, mas eu não fiquei com vergonha. Você tem que ter orgulho do que faz, não importa o que”.


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