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Formar uma equipe feminina conjunta com a Coreia do Norte nas Olimpíadas de Inverno que começam esta semana apresentará uma série de desafios para a Coreia do Sul, em vários níveis, apesar da promessa do governo de minimizar qualquer impacto negativo.

O vice-ministro dos Esportes, Roh Tae-kang, disse à Yonhap News Agency que a Coreia do Sul sugeriu montar uma equipe coreana unificada de hóquei feminino nos Jogos de Inverno de PyeongChang, durante a reunião inter-coreana. Roh estava na delegação sul-coreana das negociações.

A proposta não foi imediatamente divulgada pois a Coreia do Norte, que ofereceu enviar uma delegação atlética para PyeongChang para a competição de 9 a 25 de fevereiro, também não respondeu à ideia.

Roh disse que a Coreia do Sul está tomando medidas para garantir que a equipe conjunta não jogue à custa das jogadoras sul-coreanas e que pediu ao Comitê Olímpico Internacional (IOC) e à Federação Internacional de Hóquei no gelo (IIHF) que expandisse a lista olímpica de 23 para 35.

Time conjunto das seleções femininas de hóquei no gelo da Coreia do Sul e Coreia do Norte. Foto: InsideTheGames
Time conjunto das seleções femininas de hóquei no gelo da Coreia do Sul e Coreia do Norte. Foto: InsideTheGames

Um oficial da Associação Coreana de Hóquei no gelo (KIHA), falando sob anonimato, respondeu com ceticismo, dizendo que a ideia não é viável com as Olimpíadas prestes a acontecer.

O torneio feminino abre em 10 de fevereiro, um dia após a cerimônia de abertura, e a Coreia do Sul ganhou um lugar como país anfitrião.

“Nós teríamos entendido se a ideia tivesse surgido um ano ou dois antes das Olimpíadas”, disse o oficial. “Mas pedir uma equipe conjunta, perto das Olimpíadas, é desconsiderar completamente a natureza desse esporte em equipe”.

O ministro dos esportes da Coreia do Sul, Do Jong-hwan, abordou a ideia de uma equipe conjunta de hóquei feminino, pela primeira vez, em junho do ano passado, mas recebeu críticas semelhantes às expressas pelo oficial da KIHA na sexta-feira.

A Coreia do Sul tem se esforçado bastante para a participação da Coreia do Norte nas Olimpíadas, na crença de que a presença do Norte nas primeiras Olimpíadas de Inverno a serem hospedadas pelo Sul aliviará as tensões persistentes na península dividida. Promover a paz através das Olimpíadas tem sido um dos principais objetivos para os organizadores de PyeongChang, e uma equipe conjunta coreana, em qualquer esporte, certamente despertará interesse em PyeongChang 2018, que teve problemas com especulações sobre o assunto.

O time feminino sul-coreano, treinado pela ex-estrela canadense Sarah Murray, foi retratado como um adorável underdog (aquele que não tem muitas chances) no início de PyeongChang, já que as dificuldades e adversidades abruptas das jogadoras de uma nação que nunca se destacou no hóquei se tornaram mais publicitárias. Em vigésimo segundo no ranking mundial, e em ascensão, a Coreia do Sul também fez progressos impressionantes no gelo e ganhou o torneio do Grupo A, Divisão II, do Campeonato Mundial Feminino do IIHF, com um recorde perfeito de 5 a 0, podendo avançar para o Grupo B da Divisão I pela primeira vez.

Seleção feminina sul-coreana de hóquei no gelo. Foto: The Hankyoreh
Seleção feminina sul-coreana de hóquei no gelo. Foto: The Hankyoreh

A corrida para o título IIHF também incluiu uma vitória por 3 a 0 sobre a Coreia do Norte, time que é o número 25 do mundo e que está em rebaixamento desde a década passada. A Coreia do Norte não concorreu no torneio de qualificação olímpica.

Uma tentativa de adicionar norte-coreanas, agora, ao time sul-coreano que está em ascensão, sugere oportunismo político, disse o funcionário da KIHA.

“A química da equipe e a coesão são absolutamente chaves no hóquei, e não importa quantas jogadoras norte-coreanas sejam adicionadas à lista, isso afetará o trabalho em equipe”, acrescentou o funcionário. “E o governo está praticamente pedindo para que as jogadoras ignorem isso, em favor da política.”

E, embora Roh tenha dito que tentará não causar qualquer impacto negativo para as jogadoras sul-coreanas, ter jogadoras extras ainda apresentará problemas.

Um jogo de hóquei tem 60 minutos de duração, com 12 atacantes jogando em quatro linhas e seis defensoras em três pares jogando, em turnos, na frente de uma goleira. A menos que Murray decida jogar com 30 atletas, algumas jogadoras sul-coreanas terão que ficar no banco de reserva.

Foto: Daily Mail
Foto: Daily Mail

Esta é uma questão sensível, porque provavelmente será a primeira e última das Olimpíadas de Inverno para as jogadoras sul-coreanas. O país está jogando em PyeongChang como anfitrião, mas apesar do seu recente progresso, ainda não é bom o suficiente para se qualificar para as futuras Olimpíadas. As atletas da Coreia do Sul não acharão justo se forem levadas a abandonar seus sonhos olímpicos e abrir espaço para algumas norte-coreanas que nem sequer se propuseram a se qualificar para PyeongChang.

A diferença de habilidade entre as duas Coreias ficou aparente no torneio IIHF ocorrido no mês de abril anterior, e trazer jogadoras norte-coreanas não irá necessariamente melhorar a atual equipe sul-coreana.

Murray vem treinando a Coreia do Sul desde 2014 e tentar trazer novas jogadores da Coreia do Norte para a estrutura atual do time pode causar problemas. Será que Murray poderá tomar, sozinha, suas próprias decisões sobre a equipe como todos os técnicos deveriam fazer? Ou ela estará sob pressão, implícita ou não, para incluir jogadoras norte-coreanas?

Há ainda um problema mais prático: os bancos do Centro de Hóquei de Kwandong em Gangneung, o anfitrião olímpico de todos os eventos de gelo durante as Olimpíadas, foram construídos para 22 jogadores se sentarem, enquanto os vestiários foram equipados para 23 jogadores cada. Aumentar o número de pessoas no time significará uma dor de cabeça extra para os organizadores dos Jogos.

Conseguir que outras nações participantes concordem com uma lista coreana expandida também pode ser um desafio, a menos que todas as outras nações possam adicionar mais pessoas na equipe também.

A Coreia do Sul enfrentará o número 5 do ranking mundial, Suécia, o número 6, Suíça e o Japão, número 9 na fase de grupos. Não é difícil imaginar esses três oponentes se recusando a deixar a Coreia do Sul com alguns jogadores a mais quando eles têm de ficar com 23 jogadores cada.

A proposta da equipe conjunta deverá ser discutida mais uma vez, quando as Coreias se encontrarem novamente devido às negociações políticas nesta semana. O IOC, entretanto, agendou uma reunião no dia 20 de janeiro, a ser feita por seu presidente, Thomas Bach, com representantes do comitê organizador olímpico de PyeongChang e os dois corpos olímpicos nacionais das duas Coreias. Se as Coreias concordarem em princípio com a equipe de hóquei em conjunta, a questão provavelmente dominará a agenda na reunião do IOC.

Quando a ideia da equipe conjunta surgiu no último mês de junho, a capitã do time sul-coreano, Park Jong-ah, disse que achou toda a proposta “difícil de aceitar estando tão próximo do início das Olimpíadas”, e acrescentou: “Espero que os funcionários do governo enxerguem pela perspectiva das atletas”.

Um mês depois, durante uma coletiva de imprensa para as equipes nacionais masculinas e femininas, Murray também deu sua opinião.

Sarah Murray, técnica da seleção feminina sul-coreana de hóquei no gelo, com jogadoras reservas. Foto: The Ice Garden
Sarah Murray, técnica da seleção feminina sul-coreana de hóquei no gelo, com jogadoras reservas. Foto: The Ice Garden

“Eu entendo a preocupação das jogadoras, porque elas estão nesse time há muito tempo. Ter alguém entrando e talvez ocupando seu lugar não parece muito justo”, disse ela. “Mas estamos tentando nos concentrar no que podemos controlar. Lidaremos com isso quando acontecer. Temos certeza de que podemos proteger nossas atletas”.

Agora chegou a hora deste time mostrar a que veio, de qualquer maneira pois elas estreiam ainda na primeira semana das Olimpíadas!


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




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