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“A beleza está em toda parte, e não é uma questão de cosméticos, dinheiro, raça ou status social, mas mais sobre ser você mesmo”. (Mihaela Noroc)

Com o projeto The Atlas of Beauty, a fotógrafa Mihaela Noroc captura a beleza natural feminina ao redor do mundo mostrando a diversidade do nosso planeta a partir de retratos de mulheres, e o seu último destino foi bem especial: a Coreia do Norte.

“Tentei explorar ambientes diferentes, como fábricas, universidades, grandes avenidas, parques ou estações de metrô para mostrar que a beleza está, na verdade, em todos os lugares”, diz Mihaela. E aqui estão alguns retratos:

Uma garçonete em Pyongyang.
Uma garçonete em Pyongyang*.
Portas do Museu Koryo, em Gaesong.
Portas do Museu Koryo, em Gaesong*.
Em Sinuiju.
Em Sinuiju*.
Estudante em Pyongyang.
Estudante em Pyongyang*.
Fábrica têxtil em Pyongyang.
Fábrica têxtil em Pyongyang*.
Ela estava trabalhando em um trem.
Ela estava trabalhando em um trem*.
As bicicletas são o veículo mais popular.
As bicicletas são o veículo mais popular*.
Uma das largas avenidas de Pyongyang.
Uma das largas avenidas de Pyongyang*.
Uniformes são muito comuns na Coreia do Norte.
Uniformes são muito comuns na Coreia do Norte*.
Em Pyongyang.
Em Pyongyang*.
Em uma biblioteca, em Pyongyang.
Em uma biblioteca, em Pyongyang*.

À medida que marcamos o Dia Internacional da Mulher, precisamos refletir também sobre um grupo esquecido: mulheres e meninas norte-coreanas. Com a pouca informação e a falta de contato direto e fiável dos visitantes com a população, compreender a realidade norte-coreana é montar um quebra-cabeça a cada contato, cada visita, cada pesquisa e relato daqueles que viveram sob o manto de um regime praticamente intocado.

A Coreia do Norte não é – e nem poderia ser – resumida à sua capital Pyongyang e/ou aos pontos de zonas econômicas especiais. O que mais ouvimos é: “Eu estive na Coreia do Norte e vi a verdadeira realidade do país”, quando, na verdade, está se referindo à uma viagem guiada a pontos escolhidos num curto período de dias, na tentativa de valer-se do argumento de autoridade.

Com a libertação em 1945, a “nova mulher” norte-coreana deveria ser revolucionária sem perder a sua feminilidade. Como se diz: “as norte-coreanas conservaram seu charme feminino, mais que as chinesas ou as soviéticas”. Entretanto, o que quero destacar neste post é não só a beleza física, mas principalmente a beleza da força, da garra e da bravura da mulher norte-coreana.

Para além da aparência, elas conquistaram uma nova força, promovendo mercados paralelos “tolerados” pelo regime norte-coreano surgidos das atividades de sobrevivência na década de 1990, período de intensa fome no país, e tornaram-se uma força viva da sociedade. “O novo capitalismo norte-coreano tem, sem dúvida, um rosto feminino”, como declara Lankov.

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“Os vendedores, que são predominantemente mulheres em seus 50, 60 ou 70 anos, exibem os seus produtos no chão. Há alguns vegetais, possivelmente cultivados pelos próprios fornecedores, incluindo cebolinha e pimenta. Há um mercado legal chamado Tongil Market em Pyongyang, mas o custo para alugar o espaço é muito caro. A maioria dos espaços no mercado é reservada para os ‘nationally meritorious’, e para as pessoas comuns sobram os mercados ilegais.”

Em Pyongyang.
Em Pyongyang.

Tendo sido as grandes vítimas da miséria na década de 1990, as mulheres norte-coreanas conquistaram mais importância na sociedade e se encontram em todos os níveis dessa economia paralela. Enquanto os homens pensavam que a escassez de alimentos seria temporária, foram elas que tomaram a iniciativa de pequenos comércios de rua, começando pela venda ou troca de objetos de casa por comida, tornando-se chefes de família para garantir a sobrevivência da família.

Aludindo Fiona Bruce, membro do parlamento britânico, “notória por sua beligerância diplomática, seu desprezo pelo direito internacional e seu programa nuclear, a RPDC (ou a Coreia do Norte) tem escondido com sucesso as suas generalizadas violações de direitos humanos do mundo durante décadas. Uma era de silêncio terminou em 2014, quando uma Comissão de Inquérito da ONU relatou: ‘A gravidade, escala e natureza das violações de direitos humanos da Coreia do Norte revelam um Estado que não tem qualquer paralelo no mundo contemporâneo’”.

Ainda que a constituição norte-coreana preveja uma série de proteções e direitos, na prática o governo figura entre os maiores repressores de direitos civis e políticos no mundo e as mulheres norte-coreanas continuam a sofrer violência sexual, estupro e assédio nas esferas públicas e privadas da vida. Elas são vítimas de tráfico humano, abortos forçados, escravidão, exploração sexual, violência psicológica, discriminação religiosa e de gênero. Muitas, em seus deslocamentos, se expõem a policiais e militares que exigem favores sexuais para liberá-las de pequenas infrações.

“So-Young, uma menina de 19 anos de idade, foi enganada por uma promessa de emprego de alta remuneração na China e acabou sendo vendida para um homem chinês de 40 anos de idade. Ela escapou do chamado “casamento”, mas foi presa e deportada de volta à Coreia do Norte. Lá, foi presa e conseguiu escapar para a China novamente, mas acabou sendo sequestrada por traficantes que repetidamente estupraram-na antes de vendê-la a outro “marido” (Relatório de Tráfico de Pessoas, Departamento de Estado dos EUA, 2008).

As provações enfrentadas por mulheres norte-coreanas sublinham o fracasso de seu próprio governo em assegurar o bem-estar e a segurança de todas, especialmente às que não residem no entorno da capital. Para piorar, ainda há o igual e conivente fracasso do governo chinês em garantir a sua proteção básica. Já mencionei em artigo anterior, mas reforço aqui para termos plena ciência do que está acontecendo: “a China não reconhece o desertor norte-coreano como refugiado, e o repatria. Repatriar um norte-coreano é não só devolvê-lo à Coreia do Norte, mas ao seu pior pesadelo: um campo de prisioneiros políticos já que ele será tido como traidor da pátria e sua família também poderá ser punida.” Agora, a Rússia também se juntou à coalizão de repatriamento forçado, como costumo dizer.

Cerca de 70% dos desertores/refugiados norte-coreanos são mulheres. Como a deserção pela DMZ é praticamente impossível, o caminho para escapar do regime norte-coreano é através da fronteira com a China pela travessia do rio Yalu (Amnok para a Coreia do Norte). Acontece que quando o desertor chega no outro lado do rio enfrenta a vigilância chinesa e traficantes que ficam à espera, principalmente, das mulheres para forçá-las à prostituição, trabalho escravo e casamentos arranjados devido à demanda de noivas norte-coreanas entre homens chineses e a indústria do sexo na China, reforçada pela falta de mulheres em idade de casamento nas zonas rurais do nordeste chinês e pela migração de jovens chinesas para as cidades. Conseguindo escapar também da China, os desertores/refugiados destinam-se a um terceiro país para então pedirem asilo na Coreia do Sul ou em outro Estado.

Na Coreia do Sul há uma nova abordagem e inserção social de norte-coreanos. Anteriormente vistos apenas em documentários e notícias sobre a Coreia do Norte, os norte-coreanos vêm ganhando espaço na mídia sul-coreana por outras formas de comunicação, na tentativa de combater o preconceito que sofrem no país e expor o público sul-coreano às novas histórias e aos relatos do cotidiano de seu vizinho. Todavia, a crítica que se faz é em relação à apresentação de jovens mulheres norte-coreanas e a ênfase na sua inocência, “submissas dentro do patriarcado”.

Os desafios da adaptação social enfrentados se concentram basicamente na falta de formação e habilidades necessárias para a vida numa sociedade de livre mercado e acabam sendo alvo de estereótipos. “As escolhas, o consumismo foi esmagador. Mesmo fazer um pedido no Starbucks foi difícil. Eu nunca tive café na minha vida e não entendia os nomes das bebidas”, disse Kim Eun-seo, desertora/refugiada norte-coreana.

Há algumas medidas de auxílio na assimilação da nova sociedade, como os programas governamentais de trabalho e de estudo voltados para os norte-coreanos, as igrejas que fornecem informações práticas e treinamento para lidar com o choque cultural, os grupos cívicos que buscam aumentar a consciência da luta pelos direitos dos desertores/refugiados. Em todas essas situações, as mulheres norte-coreanas passam por enormes desafios e a sua beleza vai além da estética, está exatamente nessa vontade de mudança e nesse espírito de resiliência. Elas podem parecer frágeis e inocentes, mas é só a aparência. A verdade é que as mulheres norte-coreanas são indubitavelmente corajosas e guerreiras.

* Fotos e legendas: Mihaela Noroc. The Atlas of Beauty – North Korea. [ https://maptia.com/mihaelanoroc/stories/the-atlas-of-beauty-north-korea ].


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




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