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Estamos há um pouco mais de 40 dias do início de 2016, ano que já está se transformando em um dos mais tensos na península coreana desde a ascensão de Kim Jong-un ao regime norte-coreano. Dentre os principais acontecimentos da Coreia do Norte que mais repercutiram na imprensa internacional, destacam-se o episódio do 4º teste nuclear da Coreia do Norte em meio à polêmica questão entre Coreia do Sul e Japão sobre as “mulheres de conforto”, vítimas de escravidão sexual militar do Japão, e o recente lançamento do satélite Kwangmyongsong-4, juntamente com mais uma invasão norte-coreana ao espaço marítimo sul-coreano na fronteira entre as Coreias no Mar Amarelo e a suspensão das atividades do Complexo Industrial de Kaesong.

Para evitar uma leitura densa da complexidade dos fatos que estão em curso na península coreana, farei uma análise da conjuntura da região a ser dividida em partes, tendo como ponto de partida a exposição do lançamento do satélite Kwangmyongsong-4.

Na manhã do dia 7 de fevereiro, a Coreia do Norte anunciou o lançamento com sucesso de um satélite do Centro Espacial de Sohae, em Cholsan County, na província de Pyongan Norte.

kcna satelite

Denunciado como um teste de tecnologia de mísseis e desafiando as resoluções do Conselho de Segurança da ONU, o lançamento não foi uma surpresa. Além do Japão e dos EUA já estarem desconfiando da movimentação nas instalações, no dia 3 de fevereiro, o norte-coreano Jon Ki Chol, diretor-geral da Administração Marítima da Coreia do Norte, notificou o sul-coreano Lim Ki-tack, secretário-geral da IMO (Organização Marítima Internacional) que o país pretendia lançar seu “satélite de observação da Terra” entre 8 e 25 de fevereiro. Todavia, no dia 06 de fevereiro, a Coreia do Norte modificou a data de lançamento para o período de 07 a 14 de fevereiro, aparentemente para aproveitar o bom tempo, mas muito mais propício para incomodar a comemoração do Ano Novo chinês, o que nos remete ao fato do 4º teste nuclear norte-coreano também ter acontecimento na manhã do dia 06 de janeiro, minutos antes à celebração do 24º aniversário dos protestos contra a escravidão sexual militar do Japão em frente à embaixada japonesa em Seul, data em que os holofotes da mídia internacional estavam apontados para a região em virtude dos desdobramentos do acordo entre Coreia do Sul e Japão sobre a questão das “mulheres de conforto”.

A Coreia do Norte insiste que seu programa espacial é de natureza puramente científica, mas principalmente os EUA, a Coreia do Sul, o Japão e até a China afirmam que os seus lançamentos de foguetes visam desenvolver a tecnologia de lançamento do país e capacitar os mísseis balísticos intercontinentais. Então, segue a pergunta: o lançamento visa ou não visa desenvolver a tecnologia de mísseis da Coreia do Norte?

Sobretudo com relação ao regime norte-coreano, é preciso ter cuidado com as notícias que buscam espalhar informações que, muitas vezes, sequer foram verificadas, mas que já circulam nas principais mídias internacionais,o que acaba dificultando o trabalho de pesquisadores e especialistas, como o surto de pseudo engenheiros nucleares e físicos que atestavam com tenacidade o uso de bomba de hidrogênio no último teste nuclear norte-coreano. Vale lembrar que o regime da Coreia do Norte é dependente da glorificação de seus feitos, sendo eles um sucesso ou um completo fracasso. Ainda, para termos uma noção da dimensão do jogo político e de estratégias adotadas nos bastidores da península coreana, o 4º teste nuclear da Coreia do Norte também não foi uma surpresa e, se considerarmos o aviso de Kim Jong-un na esteira do exercício anual conjunto Ulchi Freedom Guardian entre Coreia do Sul e EUA, o teste nuclear norte-coreano aconteceu com atraso. Também, diante da falta de “sanções com dentes” à Coreia do Norte, é possível esperar o seu 5º teste nuclear.

De acordo com a análise de agências independentes, o lançamento de veículo espacial é sim considerado uma tecnologia de dupla utilização, com ambas as aplicações civis e militares. Referindo-se ao último lançamento da Coreia do Norte, John Schilling, engenheiro aeroespacial da Aerospace Corporation, afirma que “o foguete é certamente capaz de lançar satélites, porque ele fez isso, mas também é capaz de lançar uma ogiva, se é isso que eles [a Coreia do Norte] estão interessados. Ainda que a capacidade técnica do país não pareça ser um grande avanço no que demonstraram em 2012, parece que estão melhorando o seu desenvolvimento”.

A Coreia do Norte persiste no apelo de reconhecimento como Estado nuclear. Lembro-me de uma palestra que apresentei sobre o programa nuclear da Coreia do Norte e a célebre e provocativa reivindicação da mídia estatal norte-coreana: “A Coreia do Norte é um Estado nuclear e exige ser reconhecida como tal pela comunidade internacional”. Pyongyang entende que as armas nucleares são o meio de garantir a sua soberania e defender a nação, já que afirma que o problema nuclear da península coreana é fruto da política anti-Pyongyang dos EUA.

Em 2013, a Coreia do Norte adotou a linha política Byungjin, de desenvolvimento paralelo: capacidade econômica e nuclear, designando as diretrizes da política externa norte-coreana, e se engana quem pensa que a Coreia do Norte está disposta a negociar o fim do seu programa de desenvolvimento nuclear. Afinal, décadas de investimentos, busca pela consolidação e mudança constitucional não seriam simplesmente rasgadas no momento presente. A todo tempo, o slogan coreano é de reunificação pacífica, mas a Coreia do Norte não está disposta à uma reconciliação intercoreana no estilo DMZ Peace Park. Além disso, mantendo a Coreia do Norte as suas armas nucleares e programas de mísseis, as negociações perdem o sentido de existência e impulsionam o desejo nos sul-coreanos de seu próprio armamento nuclear.

De forma trilateral, EUA, Coreia do Sul e Japão persistem na busca por sanções adicionais “fortes e eficazes” independentes das já impostas e em pauta pela ONU. Aqui, também é possível evidenciar que enquanto os principais atores envolvidos na “busca pela paz e segurança intercoreana” instam Pyongyang a retomar às negociações de desnuclearização na suspensa e quase falida Six Party Talks – a qual, mediante desejo indeferido da presidente sul-coreana Park Geun-hye, foi estimulada a retornar como “Six-Minus-One”, excluindo-se a parte norte-coreana, pedido que obviamente foi rejeitado pela China e pela Rússia  – e  tentam elaborar propostas de sanções que não sejam rejeitadas pela China no Conselho de Segurança da ONU, os EUA fazem girar a sua economia de guerra e continuam exportando seus ativos militares à península. Já a Coreia do Sul persiste no dilema de implementação do THAAD, além de já arcar com metade dos custos da aliança militar Coreia do Sul-EUA na península.

Infelizmente, a verdade é que as respostas internacionais aos feitos da Coreia do Norte já estão consagradas numa espécie de ritual: Teste. Ultraje. Condenação. Novo teste. Escalada. Constante mudança. Nova normalização. Diante da atual tensão no leste asiático, a política de paciência estratégica está perdendo espaço para o declínio da tolerância e novas respostas, até então engavetadas ou propositalmente esquecidas, vêm à tona na figura de próximo passo, como a implementação em solo sul-coreano do sistema de defesa antimísseis THAAD.

Apesar de toda a movimentação no âmbito internacional sobre os últimos feitos da Coreia do Norte, é a compreensão de tais acontecimentos no âmbito doméstico da Coreia do Norte o ponto chave de toda a questão. Trata-se da busca pela exibição de progresso em meio às graves violações de direitos humanos; pela fulcral continuidade da fidelização ao regime; e pela coesão nacional em meio à série de expurgos de funcionários do regime, ao demasiado uso da palavra povo durante o discurso nacional e à necessidade de se fazer um acordo, agora com a Rússia, para a repatriação de norte-coreanos que buscam refúgio em território russo. Aqui, aproveitando a observação, o anúncio do novo acordo russo-norte-coreano foi feito dias após o serviço de migração federal da Rússia ter negado asilo temporário a um cidadão norte-coreano que suplicava por asilo e afirmava que a deportação para a Coreia do Norte significaria a sua morte nos campos de prisioneiros do país, como anunciado pelo próprio jornal The Moscow Times.

É evidente o grande alcance internacional dos últimos lançamentos da Coreia do Norte, mas a forma com que tais feitos são traduzidos e passados à população interna é muito mais importante para entendermos o que está acontecendo na península coreana e quais as suas perspectivas e cenários futuros. Normalmente, o regime norte-coreano alega sucesso em qualquer lançamento ou medida adotada, inclusive nos que terminam em fracasso. O programa nuclear e de mísseis da Coreia do Norte sempre serviu como moeda de troca e, ainda que novas sanções sejam impostas ao país, o regime não irá frear o seu desenvolvimento nuclear só porque a vida da população norte-coreana pode se tornar mais difícil diante de futuras novas sanções. Sobre essas sanções trataremos no próximo post. Acompanhem!


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




2 Comentários

  1. Bruno, ótima pergunta e muito pertinente! É difícil responder categoricamente devido ao caráter duvidoso das informações veiculadas pela KCNA e também por algumas agências sul-coreanas, pois ainda que a Coreia do Sul duvide que o teste foi com bomba H, enfatizar que a Coreia do Norte alega ter usado bomba H é pressionar ainda mais a comunidade internacional e, principalmente, a ONU por sanções e embargos mais eficazes. O analista de defesa Bruce Bennett é um dos que duvidam sobre o teste de Pyongyang: “A explosão deveria ter sido dez vezes maior do que a que eles disseram ter ocorrido. Kim Jong-un mente ao dizer que a Coreia do Norte testou uma bomba de hidrogênio, quando o que eles fizeram foi usar uma bomba de fissão mais eficiente”. Também, a Organização do Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBTO) alega que o teste foi realizado com uma bomba atômica, e não uma bomba H. Então, a maioria dos especialistas e agências de monitoramento são céticos quanto à capacidade tecnológica e de recursos financeiros da Coreia do Norte em obter bombas de hidrogênio, mas uma coisa é certa: o país está desenvolvendo a sua capacidade nuclear cada vez mais. Com uma “mão”, o regime norte-coreano tenta desenhar o investimento estrangeiro e diversificar a sua base de investidores para incluir outros países que não a China; com a outra, trabalha ativamente pelo progresso de testes e armas nucleares, o que é caracterizado pela sua política Byungjin: desenvolvimento econômico e nuclear – ainda que a maior parte do desenvolvimento econômico seja constituído por palavras. Triste.

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