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Há alguns anos assisti a um documentário sobre as “mulheres de conforto”, mas foi quando estive na House of Sharing e participei dos protestos semanais em frente à embaixada japonesa em Seul que percebi o quanto a questão das vítimas sobreviventes da escravidão sexual militar do Japão é sensível não só para os coreanos, representando um dos principais pontos para uma relação de confiança mútua entre Coreia do Sul e Japão e infelizmente usada como manobra política na região.

House of Sharing
Protesto em frente à embaixada japonesa em Seul

Fechamos o ano de 2015 com a promessa de solução acerca de um dos maiores impasses para a verdadeira normalização das relações entre Coreia do Sul e Japão. O acordo foi anunciado em forma de declarações paralelas emitidas pelo ministro das Relações Exteriores do Japão, Fumio Kishida, e o ministro das Relações Exteriores da Coreia do Sul, Yun Byung-se, depois de meses de consultas entre altos funcionários de ambos os lados. Nos termos, o governo japonês emitiu suas sinceras desculpas e remorso à todas as mulheres que se submeteram às experiências dolorosas e imensuráveis ​​e sofreram ferimentos físicos e psicológicos incuráveis ​​como mulheres de conforto e comprometeu-se a contribuir com uma compensação financeira de 1 bilhão de ienes (cerca de R$ 33 milhões) a partir do orçamento nacional japonês para auxiliar as vítimas, mediante uma fundação que seria estabelecida pela Coreia do Sul. Já Yun Byung-se, afirmou que a Coreia do Sul deixaria de criticar publicamente o Japão sobre a questão, negociaria junto a movimentos sociais a questão da estátua em frente à embaixada japonesa que representa as vítimas sul-coreanas e consideraria o acordo como final e irreversível. Final e irreversível?

O acordo divide a reação das sobreviventes e é questionado por não explicitar que as “mulheres de conforto” foram usadas como escravas sexuais pelo Japão. Inclusive, o Korean Council for the Women Drafted for Military Sexual Slavery in Japan, uma das principais organizações que representam as ex-mulheres de conforto na Coreia do Sul, classificou-o como “diplomaticamente humilhante”, tendo o governo sul-coreano excedido sua autoridade ao afirmar que o assunto estaria encerrado.

No âmbito doméstico, a questão ainda não está resolvida e divide a opinião pública sul-coreana. O partido governante saudou o acordo, mas a oposição criticou o Japão por não assumir a responsabilidade, alegando que o acordo é inaceitável. No dia 1 de janeiro, Ban Ki-moon elogiou o acordo dizendo que levou ao encerramento da questão “mulheres de conforto”, haja vista ser indesejável para as duas nações manterem as relações tensas. Mas, logo foi criticado por “estar fechando os olhos” para as vítimas. E ontem, a presidente Park Geun-hye reconheceu as críticas à essa negociação, e declarou:”Você não pode estar sempre 100% satisfeito nas negociações porque há várias limitações práticas”. É claro, e eu concordo. Reconheço os esforços de ambos os governos – inclusive do Japão pela compensação provir dos cofres públicos, e não de doações e fundos privados como antes – mas ainda não é suficiente para tratá-lo como final. Não é dessa forma que a relação de confiança mútua entre Coreia do Sul e Japão será concebida.

Precisamos discutir três pontos do acordo. Comecemos pelo “pagamento em troca do silêncio”. O que parece estar sendo negociado entre Coreia do Sul e Japão é um pagamento em troca do fim da menção do termo “mulheres de conforto”. Inclusive, aqui me questiono de que maneira os próximos livros de história abordarão a temática. Em troca do “final e irreversível”, o governo japonês depositaria o pagamento único acordado à uma fundação de apoio às vítimas sobreviventes, a qual seria estabelecida pelo governo sul-coreano. Segundo, a falta de consulta prévia à principal voz da questão: as vítimas sobreviventes. Considero este um “government-to-government deal” e mesmo que o acordo passe para a fase de implementação, será difícil obter a concordância das Avós. Além disso, a identidade do culpado continua obscura, pois dizer que o exército japonês teve “participação” não significa declará-lo como “culpado”. E terceiro, o destino da estátua em frente à embaixada japonesa, em Seul. É evidente que o governo sul-coreano será pressionado pelas instituições contrárias ao acordo pela não retirada, já sendo acusado de não representar plenamente os interesses das Avós, e também pressionado pelo Japão por esta incomodar a missão ali presente. E então, a estátua vai pra onde?

Estátua da menina em frente à embaixada japonesa, em Seul.

Com relação aos efeitos até agora:

  1. A administração da presidente Park enfrenta as críticas de ONGs que apoiam as vítimas sobreviventes e de outros setores que não aceitam um compromisso com o Japão em relação à essa questão. Questionam o governo sul-coreano por não ter consultado as Avós, o qual, por sua vez, alega que não era possível levá-las para a reunião e que haviam buscado a melhor maneira, dentro do possível, de resolver o impasse e dar dignidade à elas. O que percebemos é uma falsa sensação de resolução, alívio e virada de página.
  2. Shinzo Abe elogiou o acordo como o prenúncio de uma “nova era” para as relações entre ambos os Estados, mas os laços entre Tóquio e Seul ainda estão longe de uma normalização. Tal questão é sensível e divisiva também no Japão. Muitos japoneses concordam que as mulheres jovens da península coreana e de outras regiões da Ásia foram sistematica e repetidamente forçadas a terem relações sexuais com soldados japoneses durante a guerra. Todavia, japoneses da conservadora extrema direita alegam que o país não tem motivos para se desculpar, sugerindo que essas mulheres eram prostitutas e não foram coagidas. Inclusive, alguns estão chamando Shinzo Abe para “reverter este ato vergonhoso” e pedem que o primeiro-ministro cometa o seppuku, vulgarmente conhecido no ocidente como haraquiri.
  3. Desde a declaração do acordo diplomático, os Estados Unidos o aplaudiram fervorosamente frisando o “início de uma nova era” e insistindo em abafar a questão ainda mal resolvida para não atrapalhar a cooperação militar trilateral frente à uma China cada vez mais assertiva e uma Coreia do Norte com armas nucleares.
  4. China e Taiwan. A China “espera para ver” se as ações do Japão combinam com suas palavras. Além de coreanas, também há vítimas chinesas que esperam por um pedido de desculpas. Já o presidente de Taiwan, Ma Ying-jeou, pediu ao governo japonês para pedir desculpas e estender a compensação às mulheres taiwanesas vítimas de escravidão sexual militar do Japão. Todavia, ainda não sabemos se o governo japonês tratará a situação da mesma forma em outros países.

O acordo de 28 de dezembro não é satisfatório e pode culminar no aumento das tensões na relação população e governo de ambos os países. A Coreia do Sul e o Japão devem buscar uma reconciliação verdadeira para resolverem os obstáculos que impedem um maior envolvimento diplomático e cooperação entre si, tanto em questões do passado, quanto em preocupações de defesa e segurança comuns, como a ameaça nuclear da Coreia do Norte, a qual persiste em rejeitar os apelos de retomada das negociações internacionais para a desnuclearização da península. É urgente que os governos sul-coreano e japonês trabalhem juntos para iluminar ao invés de ofuscar os traumas do passado. É fundamental dignificar as vítimas para lealmente progredir no presente para o futuro. Essas mulheres não foram um conforto. Essas mulheres têm um nome e é nossa obrigação proporcioná-las ainda em vida o que tanto buscam: paz e dignidade.

[P.S. Agradeço ao Bruno Kim pela indicação do vídeo e ao Daniel Lee pela ida à House of Sharing.]


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




1 Comentário

  1. É um grande prazer poder ouvir uma especialista falando sobre este assunto tão delicado, com imparcialidade e embasamento! Como coreano vivendo no Brasil, tenho muitos amigos japoneses. Gostaria que os coreanos e japoneses de lá pudessem ser amigos também, espero que tudo isto possa ser resolvido a contento para ambas as partes.

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