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Outubro de 2015. Sonhei que estava em frente a um fogão na cozinha de uma fazenda. Em cima do fogão havia uma panela com uma espécie de doce quase pronto. Mas, eu decidi começar a fazer um novo doce, então peguei uma nova panela e alguns ingredientes. Enquanto eu mexia a panela e olhava o novo doce, pensava: “Não tem problema em começar do zero”, e não me arrependi de ter iniciado um novo projeto e não ter dado continuidade ao que já estava quase pronto. Ao final, coloquei as panelas uma ao lado da outra e comecei a reparar nos detalhes dos doces, pensando: “Sim, é verdade que tudo é sobremesa, mas são doces diferentes e estou feliz por isso”.

Para mim, todos os sonhos são a representação de uma mensagem que está sendo transmitida, e com este não poderia ter sido diferente. Quando acordei tive a interpretação de que eu deveria iniciar um novo projeto em relação à Coreia do Norte, ainda que os meus anteriores já estivessem com “meio caminho andando”. Por estar em uma fazenda, por ver da janela da cozinha tantos campos verdes, entendi que eu deveria buscar um projeto na área de agricultura. Agricultura? Mas Marcelle, você nem vai à feira no domingo, certa vez pediu ajuda à uma senhorinha no mercado para saber o que era coentro e o que era salsa, como pode isso? Não sei, só sei que preciso desenvolver um projeto de agricultura e é isso que vou fazer.

Então vamos lá. Vocês querem um projeto de agricultura? Vamos ter um projeto de agricultura! Foi daí que iniciei novas pesquisas. É claro que não poderia ser qualquer tipo de projeto haja vista as características culturais e os grandes desafios da agricultura norte-coreana, como a falta de acesso à água para a irrigação da plantação, a dependência de fertilizantes – já que somente 16% da terra é considerado boa para a plantação – os problemas com energia elétrica e a falta de maquinário.

Conversando com um grande amigo sobre este sonho e o desejo de encontrar um projeto brasileiro de agricultura para a Coreia do Norte, ele me falou sobre o projeto PAIS (Produção Agroecológica Integrada e Sustentável) e que já havia sido implementado em diversos pontos do nordeste brasileiro. Era o projeto ideal. No mês seguinte viajei à Coreia do Sul para aprofundar algumas pesquisas sobre outros assuntos pertinentes à península coreana, e o desejo do projeto de agricultura estava ali sempre comigo.

No dia que visitei a House of Sharing em Gwangju e percorri aquelas ruas e pontos de produção agrícola em que os responsáveis por todo o processo de plantio e colheita são idosos em sua maioria, percebi que o projeto de agricultura serviria não só para a Coreia do Norte, mas também para a Coreia do Sul e poderia ser um elo de integração e cooperação intercoreana. Pensar em tudo isso e no bem e melhoria de vida que este projeto proporcionaria às nossas Coreias me emocionou enquanto eu caminhava por aqueles campos agradecendo a Deus pela oportunidade de estar ali.

Gwangju, Coreia do Sul.
Gwangju, Coreia do Sul.
Jeju, Coreia do Sul.
Jeju, Coreia do Sul.
Jeju, Coreia do Sul.
Jeju, Coreia do Sul.

Em dezembro, no meu regresso ao Brasil, dei sequência às pesquisas sobre a agricultura norte-coreana e na pós-graduação em Negócios Internacionais iniciei o trabalho de conclusão de curso em que deveríamos tratar sobre o plano de internacionalização de uma empresa ou uma política para estimular a internacionalização de uma empresa. Eu sei que, tendo acabado de voltar da Coreia do Sul, eu poderia ter fechado uma parceria com uma grande empresa sul-coreana e ter abordado sobre a sua internacionalização e atuação no Brasil, o que poderia ser a oportunidade de ingressar profissionalmente na empresa, mas não era esse o meu sonho e nem por praticidade ou oportunidade profissional eu trocaria o meu objetivo humanitário.

Foi então que em janeiro deste ano tive a imensa honra de conhecer o engenheiro agrônomo Aly Ndiaye, idealizador da Tecnologia Social PAIS (Produção Agroecológica Integrada e Sustentável), um sistema que busca segurança alimentar e nutricional com alimentação de qualidade. A PAIS além de estar sendo aplicada em diversos pontos do nosso Brasil, já funciona em países como o Senegal, onde há grande dificuldade de acesso à água potável e energia elétrica.

Com o engenheiro agrônomo Aly Ndiaye, idealizador da Tecnologia Social PAIS. Teresópolis, Rio de Janeiro,
Com o engenheiro agrônomo Aly Ndiaye, idealizador da Tecnologia Social PAIS. Teresópolis, Rio de Janeiro.

 

As ações da PAIS visam aproveitar melhor a terra da família agricultora, tirar dela o seu sustento, proporcionar alimentação diversificada e saudável, reduzir custos e produzir excedente para a venda e aproveitar os recursos locais para a construção da unidade PAIS. O seu sistema produtivo é constituído por um galinheiro no centro, canteiros circulares, passarela das galinhas, piquetes, viveiro de mudas, quintal agroecológico e sistema de irrigação, respeitando-se as possibilidades e necessidades culturais alimentares da região a ser implementado.

PAIS-MDS-PE-72

É claro que eu não poderia simplesmente bater à porta da República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte) e dizer: “Oi, temos um projeto para a agricultura de vocês!” Precisávamos de informações sobre a agricultura local, se o projeto seria mais que uma teoria. Assim, entrei em contato com a ONG American Friends Service Committee (AFSC), a qual trabalha com cooperativas agrícolas, a Academia de Ciências Agrárias e a Kye Ungsang Escola Superior de Agricultura da Universidade de Kim Il Sung, objetivando aumentar a produtividade e implementar práticas agrícolas sustentáveis que podem ser testadas em campos de fazendas operatórias. A AFSC tinha tudo para ser uma parceira do projeto PAIS, e fiquei muito feliz ao receber a seguinte resposta:

“Querida Marcelle Torres, estou muito feliz por ter recebido a sua carta e obrigada pelo seu vídeo. O seu projeto de agricultura é realmente bom. Alguns dos nossos trabalhos na Coreia do Norte (DPRK) estão buscando apoiar uma agricultura sustentável. Os agricultores na Coreia do Norte (DPRK) podem ter um rendimento mais elevado e, ao mesmo tempo, com pouco, ou nenhum, uso de fertilizantes e produtos químicos (…)”.

2016-03-31 12.27.31 (1)

Com informações acerca da agricultura norte-coreana, as regiões mais assoladas pela seca e desastres naturais, pesquisas nos relatórios de prioridades humanitárias da ONU para a Coreia do Norte, contato com acadêmicos e ativistas na área etc, nasceu não só um trabalho de conclusão de curso, mas um sonho que pode ser concretizado, e você também pode fazer dele.

PAIS - IBMEC

 

Um dos momentos mais impactantes foi o fato de nesta segunda-feira (28 de março) quando, ao estar finalizando alguns detalhes no projeto, li a notícia de que:”A Coreia do Norte pode viver uma segunda marcha árdua“, referindo-se ao período de fome que atingiu o país na década de 1990 e culminou na morte por inanição de cerca de 3 milhões de norte-coreanos. Não. Coincidências não existem. O que existe é a nossa vontade de mudança, e tenho certeza que a trajetória deste projeto que se iniciou com um sonho não foi à toa.

É claro que há diversos pormenores para a consecução deste projeto e precisamos tê-los muito bem claros, os quais estão elencados na matriz SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunities e Threats) – ou seja, pontos fortes e fracos, oportunidades e ameaças – seguindo-se o modelo comportamental da Escola de Uppsala, ambos localizados na parte 2 do trabalho: Estratégia de Internacionalização do PAIS, e que pretendo discutir em uma reunião nos próximos dias. Devemos prestar assistência, mas também devemos estar de olhos abertos em relação aos termos desse engajamento e procurarmos fornecer a ajuda de maneira consistente com os nossos valores e as nossas obrigações de direito internacional, insistir na melhoria do monitoramento, avaliação e acompanhamento das atividades como pré-requisito.

Seguindo. De acordo com Ghulam Isaczai, Coordenador Residente da ONU para a Coreia do Norte (DPRK), “separar as necessidades humanitárias de questões políticas é um pré-requisito para uma melhoria sustentável na condição das pessoas. Sem apoio humanitário contínuo, os ganhos obtidos nos últimos 10 anos na melhoria da segurança alimentar e da saúde em geral e nutrição dos mais vulneráveis ​​- mães, crianças, mulheres grávidas e idosos – pode ser rapidamente revertido”. Segundo Masood Hyder, alto funcionário da ONU na Coreia do Norte, as famílias vulneráveis ​gastam até 80% de sua renda em alimentos.

De acordo com o atual diretor-geral da FAO, o brasileiro José Graziano da Silva, “do mesmo modo que o Fome Zero e o Bolsa Família beberam na fonte de experiências do passado, outros países podem se inspirar nos programas brasileiros, mas não simplesmente copiá-los. Diversas políticas do Brasil e de outras nações em desenvolvimento já estão sendo adaptadas para terceiros países, inclusive com o apoio da FAO”.

Para Graziano da Silva, o Brasil pode contribuir de forma relevante à produção agrícola e à segurança alimentar no mundo. E é esse o objetivo deste projeto: levar a Tecnologia Social PAIS à Coreia do Norte.

Então, se você conhece uma empresa ou entidade que esteja interessada em saber mais deste projeto e que possa financiá-lo para ajudar os quase 18 milhões de norte-coreanos (cerca de 70% da população) que sofrem com insegurança alimentar e falta de diversidade nutricional, por favor entre em contato. Faça parte deste projeto humanitário.

Muito obrigada.

One dream. One people. One Korea.

 


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




4 Comentários

  1. Projeto maravilhoso!!!
    Que Jeová continue te dando forças e capacitando para que você consiga criar, desenvolver e colocar em prática essas belas ideais! Que Deus abençoe e faça prosperar o seu projeto!

  2. Querida Marcelle, o Mundo inda vai lhe agradecer… por essa iniciativa pessoal muito virtuosa.
    Me permite deixar ‘registrado’ aqui (pra Você e pra Nóis todos) as palavras ‘proféticas’ de JFK+JKG (JKG revisava os discursos do candidato JFK, e JFK presidente dos EUA o nomeou Embaixador-dos-EUA na Índia… para onde JKG levou a primeira escola de informática da IBM ainda sem os micros PC, e, hoje a Índia é um ‘celeiro’ de ótimos programadores, pro Mundo).

    “A energia, a fé, a devoção que trouxermos para esta empreitada vão iluminar o nosso país e a todos os que a ele servem – e o brilho desse fogo pode de fato iluminar o mundo.

    Cidadão do mundo, exijam de nós os mesmos padrões elevados de vigor e sacrifício que de vocês exigimos. Com uma consciência tranquila como única recompensa e a história como juiz final de nossos atos, marchemos avante para conduzir a terra que amamos, implorando a bênção e a ajuda de Deus, sabendo porém que aqui na Terra a Sua Obra deve ser, na verdade, tarefa nossa.” (por/com revisão+adendo? de JKG)

    Há 55 anos…
    Discurso de posse do Presidente John Fitzgerald Kennedy
    Capitólio dos Estados Unidos da América
    Washington, D.C. , 20 de janeiro de 1961

  3. Neste mês comemorativo à Mulher, vamos revisar o para: “the woman in the right place”! Foi-se a professora e chegou a ativista humanitária.
    Reunindo juventude e determinação, sonho e praticidade, inteligência e sensibilidade, esta mulher está proporcionando enorme contribuição a justiça social. Parabéns a todos os envolvidos e uma especial mentalização positiva para a Marcele. Haroldo Zager

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