Compartilhe

A reunificação das Coreias é uma das questões mais críticas da era Pós Guerra Fria, não somente à península coreana, mas também aos Estados com interesses político e econômico na região. A importância geoestratégica da região é marcada pela ponte entre as grandes potências China, Japão e Rússia, além de configurar parte do acesso ao oceano Pacífico.

A fim de nos engajarmos na discussão acerca da reunificação coreana e projetarmos cenários para as questões vigentes, farei aqui um recorte na historiografia para abordar de forma breve os fatos antecedentes ao projeto de reunificação, tendo como ponto de partida o início do século XX, abarcando as fases de ocupação japonesa, influências americana e soviética e Guerra da Coreia. Então, neste post falarei sobre a ocupação japonesa da Coreia.

Marcada pelas disputas de expansão de interesses na Ásia e de domínio dos territórios da Coreia e da Manchúria entre o Império do Japão e o Império da Rússia, a Guerra Russo-Japonesa consagrou a vitória japonesa e o reconhecimento do país como potência imperialista. Com o enfraquecimento do regime czarista e a diminuição da influência russa, o governo japonês buscou assegurar sua influência na península coreana e selou o Memorando Taft-Katsura com os Estados Unidos no dia 29 de julho de 1905, em Tóquio, mediante a presença do Secretário de Guerra dos Estados Unidos William Howard Taft e do Primeiro-Ministro do Japão Katsura Taroo, em que os Estados Unidos reconheceram a influência japonesa na Coreia – de forma a contribuir para a estabilidade na Ásia Oriental – e, em contrapartida, o Japão reconheceu a influência americana nas Filipinas. Assim, o Japão estaria livre e teria o aval americano e a segurança de uma eventual não interferência para a continuidade de sua estratégia política na região.

Em novembro de 1905, o Império do Japão e o Império Coreano celebraram o Tratado de Protetorado Japão-Coreia, passando as diretrizes de assuntos estrangeiros da Coreia e o comércio dos portos coreanos para a responsabilidade japonesa. Mediante tal ato, a Coreia perdia a sua soberania diplomática e tornava-se um protetorado do Japão. Aqui, muito se discutiu acerca da validade legal do tratado, visto ter sido assinado sob coação japonesa. Foi quando em 1965, mediante o Tratado de Relações Básicas entre Japão e República da Coreia, o Japão reconheceu a nulidade dos tratados e acordos firmados entre o Império do Japão e o Império da Coreia até 22 de agosto de 1910. Inclusive, a Coreia do Sul criou uma Comissão de Investigação sobre a Propriedade de Colaboradores Pró-Japão a fim de punir os culpados e retomar as propriedades dadas aos colaboradores, mas, apesar de tal reconhecimento posterior e tardio, os Tratados beneficiaram e incentivaram sim a promoção da anexação coreana ao Japão, haja vista durante o singular período não ter havido uma recessão ou impedimento internacional face aos interesses políticos japoneses.

Em 22 de agosto de 1910, com a assinatura do Tratado de Anexação Japão-Coreia, o Japão anexou a península coreana a seus domínios, tendo oficialmente todos os direitos de soberania sobre toda a Coreia, transformando tudo, inclusive os coreanos, em propriedades do Estado Japonês. O intuito do Japão era de isolar a Coreia e transformá-la em uma nação fantoche com vistas a assegurar seus interesses nacionais.

Tratado de Anexação Japão-Coreia
Tratado de Anexação Japão-Coreia

No começo, a Coreia era uma colônia rural de exploração, mas aos poucos os japoneses tomaram conta da economia, das propriedades, introduziram novas forças produtivas e os coreanos passaram a ser explorados de forma cada vez mais intensa e cruel.

Dentre os diversos monumentos, museus e outros lugares que poderíamos visualizar bem o que foi a agressão japonesa à Coreia e os seus mais de 35 anos de ocupação, eu gostaria de destacar a Prisão de Seodaemun e a experiência que vivi ao conhecê-la.

Seodaemun Prison History Hall
Seodaemun Prison History Hall

Atualmente tendo renascido como museu e nomeada Seodaemun Prison History Hall para nos lembrar da importância da liberdade e da paz, a Prisão de Seodaemun foi usada durante a ocupação japonesa da Coreia para “abrigar” ativistas anti-colonização e, em seguida, manter ativistas democráticos depois que a Coreia se tornou independente. Nela, soldados japoneses torturavam e executavam coreanos adeptos ao movimento pela independência da Coreia. Inclusive, lembro-me que ao sair do museu enviei uma foto a um amigo coreano e conversando sobre a história do lugar eu ouvi dele: “os meus parentes foram torturados e executados nessa prisão”.

De 1908 a 1987, Seodaemun foi marcada como o grande esforço coreano pela independência e democracia.

Seodaemun Prison History Hall
Seodaemun Prison History Hall

E, entre torres de observação, celas, porões e salas de tortura, somos expostos aos fatos que marcaram a vida daqueles que ali viveram e morreram durante esse capítulo da história nacional.

Seodaemun Prison History Hall
Seodaemun Prison History Hall

Em 1919, a Marcha pela Independência reuniu protestos pacíficos de coreanos contra a dominação japonesa. Influenciados pelo discurso dos 14 Pontos de Woodrow Wilson, pela Conferência de Paz em Paris – que proclamou o fim de alguns domínios coloniais – e, principalmente, pelo princípio da auto-determinação dos povos, jovens coreanos em Tóquio publicaram um manifesto pedindo o fim do colonialismo japonês. A Declaração chegou ao conhecimento do Movimento Nacional da Resistência na Coreia, o qual optou pela luta em prol da independência nacional sendo o seu estopim a notícia de falecimento do Rei Kojong (1852-1919) envenenado pelos japoneses. No dia 1º de março, inúmeras pessoas envolvidas nos protestos pelo país foram presas e torturadas em Seodaemun.

Um dos espaços mais interessantes do museu é o Hall da Resistência Nacional, que tem cerca de 5 mil cartões de ativistas da independência detidos em Seodaemun!

Seodaemun Prison History Hall
Seodaemun Prison History Hall

Kwan-sun Yoo, era estudante e uma das organizadoras do Movimento de Independência em 1º de março de 1919, em Seul, e se tornou símbolo do protesto pacífico e da resistência nacional. Kwan-sun acabou detida e torturada, falecendo aos 19 anos na prisão.

Seodaemun Prison History Hall
Seodaemun Prison History Hall

Apesar do caráter pacífico do Movimento pela Independência, as autoridades japonesas prenderam milhares de militantes e devido às torturas e péssimas condições de detenção muitos morreram, mas os líderes fugiram para a China formando, em abril de 1919, o Governo Provisório da República da Coreia, em Xangai.

O Movimento Primeiro de Março foi uma das primeiras demonstrações públicas da resistência coreana durante a ocupação japonesa da Coreia e resultou em certa mudança na política imperial para a Coreia. A partir daí, a Coreia passou pelas fases de auto-fortalecimento e movimentos de cooperação nacionais, formou governos provisórios, serviu de base de fornecimento ao Japão durante a sua invasão à China e a todo momento sofreu políticas de erradicação da sua identidade nacional.

Durante os mais de 35 anos de ocupação japonesa, a Coreia se transformou em apêndice fornecedor de matérias primas da indústria japonesa, os coreanos foram privados de liberdade e direitos políticos fundamentais, não puderam criar partidos políticos, o ensino do idioma coreano foi substituído pelo ensino do japonês, houve uma brutal repressão militar no país e cerca de 220 mil mulheres foram tidas como “comfort women”, escravas sexuais do exército imperial japonês, e as que engravidavam eram forçadas a abortarem. Para alguns historiadores, a ocupação japonesa da Coreia de 1910 a 1945 é semelhante à ocupação nazista da França, pela forma como afetou e penetrou na consciência nacional coreana.

Em 15 de agosto de 1945, a Coreia foi finalmente liberada e, ao mesmo tempo, o pulso da nação começou a bater, mais uma vez, e o poder latente da nação coreana acumulado ao longo de milhares de anos entrou em erupção. Embora as organizações que pediam a independência foram inicialmente dispersas entre as regiões e tenham surgido conflitos ideológicos entre a esquerda e direita, no final da era colonial nascia uma tendência para a formação de alianças verdadeiramente nacionais que pressagiava o estabelecimento de um estado nacional unificado após a libertação. No entanto, a situação política internacional no rescaldo da conquista da independência da Coreia fez tal sonho se tornar cada vez mais difícil de se realizar. Os EUA e a URSS, os dois poderes responsáveis pela derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial, efetivamente dividiram a Coreia em duas metades. Mas, essa fase de influências, o período da Guerra da Coreia e o início do projeto de reunificação coreana eu conto no post da próxima semana! 😀

 


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




6 Comentários

  1. Me emocionei ao ler sua matéria. Ela está simples e completa ao mesmo tempo. Sou iniciante no estudo do Hangul e espero aprender muito por aqui. Obrigada por transmitir seus conhecimentos.

DEIXE UM COMENTÁRIO