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Quem me acompanha aqui no Koreapost já deve ter me visto falando do meu avô. Infelizmente ele faleceu na semana passada, aos 96 anos e nos braços do seu filho mais velho, que no caso é o meu pai. Não sofreu, apesar de ter tido problemas nos últimos tempos por não conseguir mais comer direito, pudera, já tinha praticamente um século de idade. Este post não é para lamentar a sua morte, mas sim para celebrar a sua vida fazendo-lhe uma pequena homenagem e para fazer um gancho das memórias de conversas que tivemos no passado.

Esta era uma foto que a gente sempre tirava: meu avô, meu filho, meu pai e eu. Todos nós os filhos mais velhos de cada geração.
Esta era uma foto que a gente sempre tirava todo ano: meu avô, meu filho, meu pai e eu. Todos nós os filhos mais velhos de cada geração. Esta foi a última que tiramos, em 2015.

Ele nasceu em Pyongyang, antes da divisão da Coreia, quando a península estava sob domínio japonês. Assim, dominava a língua japonesa a ponto de acharem que ele era um nativo de lá. Era o filho mais velho de cinco irmãos e quando a Guerra da Coreia começou, fugiu para o sul levando a sua família e dois dos seus irmãos. E é aí que tem início um dos assuntos que ele mais gostava de falar para mim: a saudade que ele sentia dos seus pais e dos dois irmãos que ficaram na Coreia do Norte. De um lado, a esperança de que eles ainda estivessem vivos e do outro, a resignação de que nunca mais iria vê-los novamente ainda mais pelo fato de agora encontrar-se praticamente do outro lado do mundo, aonde chegou em 1976 e foi muito bem recebido.

Por coincidência, ontem houve um evento da Divisão Brasil do Conselho Nacional de Unificação, órgão oficial de assessoria da Presidência da República da Coreia nos assuntos relacionados à unificação da Coreia do Sul e da Coreia do Norte e fui convidado para assistir uma palestra do Vice-Presidente Executivo da entidade, Dr. Ho Yeol Yoo (PhD em ciências políticas pela Ohio State University e professor da Korea University especializado em relações diplomáticas da península coreana). Durante uma hora e meia, ele falou de diversos assuntos, como a atual situação de tensão com os recentes lançamentos de mísseis norte-coreanos e o plano de instalação do sistema de defesa THAAD em Seongju.

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Da esquerda para a direita: Sr Nam Gun Park (Presidente da Divisão Brasil do Conselho Nacional de Unificação, Dr Ho Yeol Yoo (Vice-Presidente Executivo do Conselho Nacional de Unificação), Sr Young Jong Hong (Consul Geral da Republica da Coreia no Brasil) e ex-presidente da Divisão Brasil.
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Quem me achar no meio desse povo todo ganhará um prêmio!

No Koreapost temos a nossa própria especialista em geopolítica coreana (a pesquisadora Marcelle Torres), que é provavelmente uma das maiores conhecedoras do assunto no Brasil e que sempre traz textos interessantíssimos sobre o assunto aqui no nosso site. Infelizmente, ela não pôde estar presente no evento e temos certeza de que ela teria feito uma cobertura muito melhor, com maior propriedade. Mas quem não tem cão caça com gato e lá fui eu, onde várias vezes me vi perdido pensando no meu avô durante a palestra. Como em certo momento, quando o Dr. Yoo indagou os participantes sobre a importância da unificação e eu comecei a pensar que lá na Coreia do Norte, em algum lugar, há uma grande probabilidade de que vivam pessoas com o mesmo sangue que o meu…

Sei que toda esta questão da separação e do desejo de unificação envolve questões políticas de alta complexidade. São diversos interesses dentro e fora da Coreia, que englobam desde o poder local de uma pequena cidade até influências econômicas em escala mundial. Mas no meu caso, eu, um insignificante coreano que imigrou para o Brasil e o adotou como lugar do coração, a única razão que me faz acreditar que devemos unificar as Coreias, é saber que no fim das contas lá no norte existe gente que tem o mesmo sangue da minha família, que fala a mesma língua, que provavelmente deve ter as mesmas comidas favoritas que as minhas. E que por uma grande fatalidade, acabaram sendo retirados da minha vida de uma maneira injusta e triste.

Monte Baekdusan, na Coreia do Norte. Se um dia conseguir visitá-lo, levarei um punhado das cinzas do meu avô para jogar por lá...
Monte Baekdusan, na Coreia do Norte. Se um dia conseguir visitá-lo, levarei um punhado das cinzas do meu avô para jogar por lá…

Várias vezes, vi o meu avô se lamentar do fato e falar sobre o lugar onde nasceu e cresceu. Infelizmente, ele nunca poderá reencontrar os seus parentes que porventura estejam vivos ou mesmo os seus descendentes. Mas posso ser o seu porta-voz para dizer que esta guerra parece ser irracional demais e que numa guerra não existem bons e maus mas somente perdedores, pessoas como o meu avô.

E aos brasileiros que amam a cultura coreana e que desejam contribuir de alguma maneira, além do pensamento positivo, vocês podem aprender mais sobre o assunto e ao mesmo tempo influenciar pessoas próximas e ajudando o Brasil a quem sabe um dia se tornar um relevante ator no teatro da diplomacia coreana!


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




2 Comentários

  1. Iniciei meus estudos em Ciências Politicas esse ano, e desde muito nova tenho interesse na cultura asiática, em especial, a coreana. Só queria agradecer e dizer que suas matérias e todo o site em si, me ajudam muito a entender conflitos assim, gosto muito do seu trabalho e de todos aqui no KOREAPOST. Muito obrigada mesmo, por dividir os sentimentos do seu querido avô para nós leitores, por divulgar e ajudar a compreender a cultura coreana!!! Abraço!

    • Prezada Natalia, obrigada pelo seu comentário! Já que você estuda ciências políticas, acompanhe também a nossa coluna GEOPOLÍTICA COREANA, escrita pela pesquisadora MARCELLE TORRES. É muitíssimo interessante e tudo à ver com sua área!! Um Abraço!

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