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O parlamento da Coreia do Sul votou na sexta-feira pelo impeachment da presidente Park Geun-hye, uma forte conservadora que tomou uma linha de ação rígida contra a Coreia do Norte e subiu ao poder com grande apoio daqueles que reverenciavam seu pai, o ditador militar Park Chung-hee.

A votação contra a Park Geun-hye, a primeira mulher  a liderar o país, foi resultado de semanas repletas de revelações prejudiciais de um escândalo de corrupção que quase paralisou o governo e produziu os maiores protestos na história do da Coreia. Seus poderes agora seguem suspensos enquanto o Tribunal Constitucional pondera sobre sua remoção oficial do cargo.

Geun-hye sugeriu que pretendia lutar contra o impeachment, ao informar aos membros do gabinete horas após a votação que ela iria, “de forma calma”, se preparar para o julgamento do Tribunal e não ofereceu indícios de que renunciaria.

Eu, com muito pesar, aceito as vozes da população e da Assembleia Nacional, e espero sinceramente que toda essa confusão receba um final satisfatório, ” disse ela na Casa Azul, residência presidencial, em um pronunciamento transmitido em rede nacional.

Ela também se desculpou novamente – o quarto pedido público  de desculpas feito em menos de sete semanas – pela “sua falta de discrição e descuido”, mas não reconheceu nenhum crime.

Park Geun-hye foi acusada de permitir que sua amiga e confidente, filha de um líder de seita religiosa, exercesse notável influência em assuntos que variam de escolha de oficiais de alto escalão do governo ao seu guarda-roupa, e de ajudar a mesma mulher a extorquir dezenas de milhões de dólares de empresas sul coreanas.

O escândalo, que ganhou atenção nacional há menos de dois meses, colocou um enorme foco no relacionamento entre a presidência e os negócios de grande porte em uma das mais dinâmicas economias da Ásia.

Milhares de pessoas que se reuniram do lado de fora do prédio do parlamento durante o inverno rigoroso que faz no país, no momento, dançaram, aplaudiram e sopraram cornetas quando a notícia foi anunciada.

Park Geun-hye dirigisse à nação sobre o escândalo em Novembro. Ela foi acusada de permitir que sua confidente secreta, Choi Soon-sil, exercesse notável influência em assuntos incluindo a escolha de oficiais do governo, e de ajudar a Soon-sil de extorquir dezenas de milhares de dólares de companhias sul coreanas.
Park Geun-hye dirigisse à nação sobre o escândalo em Novembro. Ela foi acusada de permitir que sua confidente secreta, Choi Soon-sil, exercesse notável influência em assuntos incluindo a escolha de oficiais do governo, e de ajudar a Soon-sil de extorquir dezenas de milhares de dólares de companhias sul coreanas. Via The New York Times.

Meu coração está disparado, ” disse Han Joo-young, 47 anos,  executiva de uma organização sem fins lucrativos que veio de Paju, ao norte da capital. “Estou muito tocada pelo fato de que,  pessoas que geralmente não tem poder, puderam fazer tanto juntas.

A ação de impeachment, acusando a Park Geun-hye de “extensas e sérias violações da Constituição e da lei”, será agora levada ao Tribunal Constitucional, o qual, em até seis meses, deve decidir se as acusações são verdadeiras e o mérito de seu afastamento.

Um total de 234 deputados votaram pelo impeachment, um número muito além dos dois terços do total de 300 da Assembleia Nacional, a única casa do parlamento sul coreano. O voto foi secreto, mas os resultados indicam que quase metade dos 128 deputados do partido de Geun-hye, o Saenuri, se juntaram à oposição no movimento de impeachment.

O Primeiro-Ministro Hwang Kyo-ahn, ex-promotor e firme defensor de Geun-hye, irá atuar como presidente interino durante esse período. Se o tribunal votar pelo afastamento oficial da presidente, a Coreia do Sul terá novas eleições presidenciais em 60 dias.

A crise política conduz um período de incerteza ao mesmo tempo que a Coreia do Sul enfrenta uma economia com crescimento vagaroso, uma crescente ameaça nuclear da Coreia do Norte e uma China mais assertiva. Park Geun-hye havia adotado uma posição mais rígida em relação ao Norte, focando em sanções mais fortes, e havia concordado com a instalação de um sistema de defesa de mísseis avançado Norte Americano, o que enfureceu os Chineses.

Sua impopularidade aumenta as chances de um candidato liberal ganhar as próximas eleições, possivelmente encerrando sua abordagem sobre a Coreia do Norte e levando o país a relações mais próximas com a China.

Dentro do país, seu afastamento demonstra o mais recente exemplo de como a corrupção e o uso de influência continuam enraizados na vida dos escalões mais altos da política e das corporações na Coreia do Sul.

A conexão entre poder político e indústria alimentou a transformação da Coreia do Sul de país agrário destruído pela guerra em uma potência econômica global, e ainda assim as ligações entre governo e negócios renderam escândalos de corrupção constantes.

Líderes empresariais, incluindo Jay Y. Lee, vice-presidente da Samsung, e Chung Mong-koo, presidente da Hyundai foram questionados pelo parlamento em uma audiência na quinta-feira sobre milhões de dólares que enviaram para duas fundações controladas por Choi Soon-sil.
Líderes empresariais, incluindo Jay Y. Lee, vice-presidente da Samsung, e Chung Mong-koo, presidente da Hyundai foram questionados pelo parlamento em uma audiência na quinta-feira sobre milhões de dólares que enviaram para duas fundações controladas por Choi Soon-sil.  Via The New York Times.

Park Geun-hye, 64 anos, subiu ao poder no início de 2013, apoiada em grande parte pela parcela idosa da população que esperava que ela fosse atuar como a versão contemporânea de seu pai, frequentemente visto como o modernizador da Coreia do Sul.

No entanto, ela se tornou a líder menos popular desde que o país iniciou a se democratizar no final dos anos 1980, de acordo com pesquisas recentes. Alguns apontam seu autoritarismo e uso do poder do estado para silenciar os críticos, enquanto era protegida por um grupo de conselheiros, como seu maior defeito.

A votação do impeachment na Assembleia Nacional foi uma vitória tanto para a oposição quanto para a enorme multidão de sul coreanos que encheram o centro de Seul nas últimas seis semanas demandando que ela renunciasse imediatamente ou enfrentasse o impeachment. Pesquisas mostraram que uma grande maioria da população apoia as manifestações.

É uma vitória para a determinação da população e para democracia da Coreia, “ disse Kang Won-taek, professor de ciências políticas na Seoul National University. “É uma revolução gloriosa da Coreia, alcançada sem derramamento de sangue e sem casos de violência grave.”

A última vez que os sul coreanos tomaram as ruas para derrubar um líder impopular, em 1960, tiveram que batalhar de forma sangrenta contra policiais armados.

A revolta forçou Syungman Rhee, o fundador do país e presidente autoritário, a renunciar e fugir para o exílio no Havaí. O vice-presidente Lee Ki-poong, um confidente de Syungman que esteve no centro de um escândalo de corrupção, e sua família encurtaram suas vidas em um suicídio em grupo no momento em que manifestantes se aproximavam de sua residência em Seul.

Nas décadas seguintes, quando os sul coreanos demandavam mais democracia, seus ditadores militares, incluindo o pai de Park Geun-hye, suprimiram brutalmente as massas por meio de lei marcial, tortura e até execução de seus líderes.

Em 1987, a violência cresceu novamente quando as pessoas tomaram as ruas para exigir eleições presidenciais livres, forçando o governo militar a recuar.

Choi Soon-sil, ao centro, no escritório da promotoria em Seul em outubro. Ela foi indiciada pelas acusações de utilizar sua influência sobre a presidente para extorquir milhões de doláres de empresas.
Choi Soon-sil, ao centro, no escritório da promotoria em Seul em outubro. Ela foi indiciada pelas acusações de utilizar sua influência sobre a presidente para extorquir milhões de doláres de empresas. Via The New York Times.

Desta vez, em um sinal do amadurecimento da democracia na Coreia do Sul, as manifestações pacíficas obtiveram êxito sem nenhum caso de prisão. Um crescente número de manifestantes se reuniram na capital, incluindo 1,7 milhões de pessoas no sábado – o maior protesto na história do país.

Geun-hye se tornou a primeira presidente a perder uma votação de impeachment desde 2004, quando a Assembleia Nacional se movimentou para afastar Roh Moo-hyun por violação da lei eleitoral. Dois meses depois, o Tribunal Constitucional decidiu a favor de Moo-hyun, ao entender que as infrações não eram suficientes para justificar um impeachment e o restauram na presidência. Mas a atual presidente enfrenta acusações muito mais sérias.

Ainda assim, é difícil predizer quando e como o Tribunal Constitucional irá decidir o destino de Park Geun-hye.

A remoção da presidente requer votos de pelos menos seis dos nove juízes do Tribunal Constitucional. Entre os atuais juízes, seis foram escolhidos pela presidente ou pelo seu predecessor conservador, ou são vistos de alguma outra forma como próximos ao seu partido.

O processo, que inclui audiências, oferece tempo para que o partido de Park Geun-hye, preparado para a briga, possa se recuperar do escândalo e se organizar para a próxima eleição presidencial se o tribunal decidir pelo afastamento oficial do cargo.

Se um candidato liberal vencer a próxima eleição, o plano para a instalação do sistema de mísseis Norte Americanos pode ter problemas. Apesar de nenhum dos políticos citados como possíveis candidatos presidenciais terem especificado planos se eleitos, os liberais criticam a instalação, dizendo que a Coreia do Sul deveria procurar manter uma diplomacia balanceada entre Pequim e Washington.

Isso pode ser um desafio para futura administração de Donald J. Trump, sobre os ajustes da posição de Washington sobre o desenvolvimento do programa de mísseis nucleares da Coreia do Norte.

Pouco após o impeachment, Hwang Kyo-ahn, o primeiro-ministro, avisou sobre a possibilidade da Coreia do Norte promover provocações para “incitar a agitação interna” no Sul durante o período de transição. Han Min-koo, ministro da defesa, ordenou que os militares aumentem a vigilância contra o Norte.

Os retratos dos pais de Park Geun-hye, ex-presidente Park Chung-hee e sua esposa, Yuk Young-soo, em um templo em Seul. Geun-hye subiu ao poder com grande apoio daqueles que veneravam seu pai.
Os retratos dos pais de Park Geun-hye, ex-presidente Park Chung-hee e sua esposa, Yuk Young-soo, em um templo em Seul. Geun-hye subiu ao poder com grande apoio daqueles que veneravam seu pai. Via The New York Times.

Park Geun-hye entra para o ranking de líderes sul coreanos que foram desonrados próximo ao fim de seus mandatos, com seus parentes e assistentes envolvidos em escândalos de corrupção. Uma exceção foi o pai da presidente, que foi assassinado em 1979 no auge de seu poder ditatorial e antes que alguém se atrevesse a trazer à conhecimento geral escândalos que o envolvessem.

Ele e governos seguintes favoreceram diversos conglomerados familiares com benefícios tributários, licenças empresariais lucrativas e políticas buy-Korea e ou anti-trabalhistas. As empresas foram acusadas de retornar os favores com subornos e doações suspeitas.

Ao longo dos anos, corporações de importância foram abaladas por escândalos de corrupção recorrentes, incluindo o que envolveu Park Geun-hye e sua confidente, Choi Soon-sil.

Em 1988, gigantes do negócio foram intimados a uma audiência no parlamento para questionamentos sobre milhões de dólares enviados para uma fundação controlada pelo ditador militar Chun Doo-hwan.

A cena se repete esta semana, quando nove líderes de negócios, incluindo Jay Y. Lee, vice-presidente da Samsung, e Chung Mong-koo, presidente da Hyundai, se apresentaram para mais uma audiência parlamentar para questionamentos sobre milhões de doláres doados para duas fundações controladas por Choi Soon-sil.

Choi Soon-sil está sendo acusada de abusar de sua influência sobre a presidente para extorquir dinheiro de companhias.

Promotores também identificaram Park Geun-hye como suspeita criminal, uma primeira ocorrência para um presidente, apesar de não poder ser indiciada enquanto permanecer no cargo.


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