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[ Continuação da parte 1: http://www.koreapost.com.br/featured/a-escalada-de-guerra-na-peninsula-coreana-parte-1/ ]

Na esteira da condenação ao lançamento do satélite norte-coreano Kwangmyongsong-4, Seul e Washington o veem como um disfarce para testar a tecnologia de mísseis balísticos, a qual é proibida pelas resoluções da ONU. A China, embora desaprove o programa de armas nucleares norte-coreano e tenha expressado o seu “pesar”, instou as partes a agirem com cautela e não tomarem medidas que possam aumentar ainda mais a tensão na península coreana. As exigências de suspensão das atividades do programa nuclear norte-coreano não influenciam a Coreia do Norte, mas pressionam a China e questionam a sua tolerância frente às transgressões de Pyongyang.

Sob o regime de Kim Jong-un, a relação da China com a Coreia do Norte vem sendo menos cordial do que foi a relação com seu pai Kim Jong-il. Em contraste às visitas regulares de Kim Jong-il, Kim Jong-un ainda não foi à Pequim e até mesmo recusou o convite para a celebração do 70º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial, na China.

Pressionada a “entregar” a Coreia do Norte, a China vem tentando transferir a responsabilidade dos últimos feitos de Pyongyang para os EUA alegando que é a postura norte-americana a causadora de tal postura norte-coreana. Ainda que Xi Jinping esteja descontente, desestabilizar o regime de Kim Jong-un poderia provocar um afluxo de refugiados ao território chinês e enfrentar forças militares norte-americanas à direita na sua fronteira com uma Coreia recém unificada. Mesmo que a sua prioridade seja manter a península estável e dividida, cabe à Xi Jinping ponderar se a recusa em lidar com Kim Jong-un valerá o risco futuro de uma Coreia do Norte cada vez mais nuclearmente capacitada.

A China mudaria a sua abordagem em relação à Coreia do Norte? Isso depende de como Pequim percebe seus interesses estratégicos em meio ao aumento de tensão na região, o que certamente nos leva ao impasse do THAAD na Coreia do Sul. “Nenhum país deve prejudicar os interesses de segurança de outros países enquanto prossegue com a sua própria defesa. Avançar com a implantação de sistemas antimísseis na região irá aumentar ainda mais as tensões na península coreana”, declarou Ministério das Relações Exteriores da China na alegação de que o THAAD tem um raio de longo alcance e poderia espionar as suas atividades militares.

Na busca em conter o avanço do programa nuclear da Coreia do Norte, o senado norte-americano aprovou o projeto de lei de sanções contra Pyongyang para tentar semear o descontentamento do povo norte-coreano com o regime. Dentre as medidas, a lei autoriza os EUA a financiar a expansão de meios de disseminação de informações à população norte-coreana e mais organizações humanitárias.

Se o Japão ainda quiser continuar tentando negociar o regresso dos japoneses sequestrados em viagens à Pyongyang, é melhor ser cauteloso nas suas sanções adicionais contra a Coreia do Norte. Lembremos que o mandato de Darusman, relator especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos na Coreia do Norte, está quase no fim, o que, se não resolvido dentro de poucos meses, acarretará a postergação das negociações – se antes a Coreia do Norte não suspender as investigações – e a extensão do sofrimento das famílias das vítimas japonesas.

Dentre as medidas de retaliação propostas, podemos mencionar a proibição de entrada no território japonês de cidadãos e funcionários norte-coreanos, residentes estrangeiros ligados à tecnologia nuclear ou engenharia de mísseis que tenham visitado a Coreia do Norte e a entrada de membros da tripulação de navios norte-coreanos em portos do Japão. Ou seja, uma espécie de “sanções sem dentes” e, ainda que as remessas à Coreia do Norte sejam estimadas apenas para fins humanitários, não afetariam duramente o regime de Kim Jong-un.

Dificilmente a Rússia acordaria em reforçar as sanções, exercer pressão e isolar a Coreia do Norte em relação aos últimos testes, mas, também sendo claramente contrário ao escudo antimísseis THAAD, o seu Ministério das Relações Exteriores declarou que “um escudo de defesa na Coreia do Sul poderia desencadear uma corrida armamentista no nordeste asiático”. Quem não pode mais adiar sua decisão é a Coreia do Sul, há tempos Seul tem sido morna no concerne à insistência norte-americana da necessidade de implementação do escudo antimísseis. O êxito do lançamento do foguete norte-coreano impulsionou a Coreia do Sul a retomar a pauta de discussão de defesa. Em resposta à ameaça nuclear da Coreia do Norte, EUA e Coreia do Sul iniciaram consultas formais para melhorar a postura de aliança conjunta de defesa.

Em retaliação ao lançamento do foguete e ao 4º teste nuclear norte-coreano, a Coreia do Sul suspendeu as operações no Complexo Industrial de Kaesong (KIC), situado em território norte-coreano a poucos quilômetros da fronteira. Em 2013, as atividades do complexo também haviam sido interrompidas em meio a outro surto de tensão na península na esteira do 3º teste nuclear da Coreia do Norte. Símbolo dos esforços de reconciliação intercoreana, do progresso compartilhado e da política de Sunshine Policy, o Complexo contava com a atuação de 124 pequenas e médias empresas sul-coreanas e já havia proporcionado cerca de 500 milhões de dólares aos cofres norte-coreanos, desde a sua inauguração em 2004.

As empresas sul-coreanas exigem de Seul compensação aos danos causados ​​por sua decisão anterior de suspender indefinidamente as operações do parque industrial. “Vamos pedir ao governo para fazer compensações e adotar medidas de acompanhamento sobre essa decisão irresponsável. Estamos profundamente ressentidos com a decisão abrupta do governo”, declarou a Associação Empresarial de Complexo Industrial de Kaesong. São novos desafios para a administração da presidente Park Geun-hye: pressão dos empresários de Kaesong, críticas ao encerramento do principal símbolo de cooperação intercoreana (passível de profunda discussão) e base diária regular de contato, declaração norte-coreana do KIC como área militar e desligamento de comunicações militares intercoreanas.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




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