Compartilhe

Como de costume, a rua ao lado da Estação de Gangnam é repleta de pessoas correndo no dia-a-dia. Mas há pouco mais de um ano, uma jovem sofreu um fim trágico nas mãos de um desconhecido portando uma faca – um homem que desprezava as mulheres.

Na quarta-feira (17/05), o primeiro aniversário da morte da jovem, centenas de pessoas, em sua maioria mulheres entre 20 e 30 anos, marcharam silenciosamente por Gangnam em tributo a vítima de 23 anos que foi esfaqueada até a morte por um homem em um banheiro público unissex.

Foto: The Korea Herald
Foto: The Korea Herald

“O assassinato mudou minha vida por completo. Foi uma chance para eu acordar e entender o quão séria é a misoginia e discriminação na sociedade coreana,” disse Suh Jung-hyun, uma universitária de 19 anos.

“Antes do assassinato, eu não ficava feliz por ter que ser cuidadosa durante a noite somente por ser mulher, mas eu acreditava que não poderia fazer nada à respeito” ela disse enquanto marchava ao lado de uma amiga. “Agora eu criei coragem para lutar pela injustiça em solidariedade às demais“.

O assassino, um homem de 43 anos, de sobrenome Kim esperou por cerca de 50 minutos no banheiro, enquanto seis homens entraram e saíram, antes de matar a primeira mulher que adentrou o banheiro, de acordo com as gravações das câmeras de segurança.

Kim disse que cometeu o crime porque ele havia sido ignorado e diminuído por mulheres diversas vezes no passado.  Após a tragédia, a saída 10 da Estação de Gangnam se tornou um memorial, onde as pessoas deixam flores e cartas escritas em luto pela morte da jovem e expressam sua raiva quanto a violência contra mulheres.

Um ano depois do acontecimento, a justiça foi feita. O assassino está na prisão, onde será obrigado a ficar por 30 anos. Ainda assim, muitos que se reuniram ali acreditam que a luta contra a misoginia e crimes de ódio ainda está longe de acabar.

“Eu ainda temo pela violência contra mulheres. Isso não vai mudar tão cedo,” disse Bae Um, uma jovem de 28 anos. “Segurança não será obtida com regulamentação. A segurança das mulheres apenas poderá ser alcançada através da percepção social de que homens e mulheres são iguais”.

Muitos homens participantes também se solidarizaram com as jovens. “Eu nunca entendi muito bem como era viver com medo de ser morto só por causa do meu gênero. Por isso faço questão de agora me esforçar mais,” disse Kim Jae-ho, estudante de 23 anos. “Isso não é um problema só das mulheres. Se trata de criar uma sociedade onde os direitos humanos sejam respeitados.”

Os participantes, vestidos de preto, seguravam flores e mensagens em notas, as quais depois foram deixadas ao lado da Saída 10 da Estação de Gangnam. Após a marcha, as pessoas compartilharam suas histórias de estupro, violência e discriminação.

Foto: The Korea Herald
Foto: The Korea Herald

Um pouco mais cedo naquele dia, ativistas dos direitos das mulheres fizeram uma conferência em Gwanghwamun, centro de Seul, e, como parte da performance, seguraram em silêncio pôsteres com os dizeres: “Desde aquele dia, estamos mudando” e “Pelas Mulheres, todo lugar é a Estação de Gangnam“.

As mulheres mudaram. Como percebemos a sociedade de dominação masculina e a resistência contra a discriminação mudaram”, compartilhou a ativista dos direitos das mulheres, Kim Hui-yeong. “É a chance das mulheres se levantarem e lutarem por mais segurança e igualdade”.

Muitos grupos pró-mulheres foram criados baseados em mídias sociais por mulheres que se identificam como feministas. Estas estavam no front para pressionar o governo contra planos pesados contra o aborto e outras ações.

“Mas a sociedade mudou muito pouco,” disse Kim, criticando as escassas tentativas do governo de prevenir crimes de ódio contra mulheres. Desde o assassinato, distritos reuniram esforços para instalar câmeras de segurança e alarmes, além de estabelecer banheiro de gêneros separados para evitar a recorrência de tais crimes.

O ponto não é esse. Estamos sofrendo de ódio, discriminação e violência no nosso dia-a-dia em casa, na escola e no trabalho“,  ela disse. “Câmeras de segurança não podem prevenir crimes de misoginia. A chave é aumentar a consciência, em especial entre os políticos. Deveria haver uma consciência de que as mulheres são iguais aos homens e de que não precisam estar sujeitas à proteção especial”.

Uma pessoa que passava no local, que deixou um mensagem em apoio e respeito à vítima, pediu pela melhora entre no conflito de gêneros.

“Nesse último ano, o ódio e os conflitos entre homens e mulheres se intensificou. É verdade que ainda me preocupo com minha namorada saindo de noite e ainda existe discriminação contra mulheres, como em processos de seleção”, disse Nam Kun-hee, universitário de 21 anos.

No auge do luto e raiva, a tensão aumentou entre grupos extremistas de homens e mulheres, em particular na internet. A polícia concluiu que o crime foi aleatório e praticado por um homem com problemas mentais, não um crime de ódio. Houveram críticas pesadas contra as tentativas da polícia em esconder a misoginia presente na sociedade.

Alguns homens radicais atiraram de volta, acusando mulheres de trata-los como criminosos em potencial. “Eu espero que tanto homens quanto mulheres possam coexistir em harmonia sem serem discriminados na sociedade coreana,” disse Nam.

Veja o vídeo dos eventos, produzido pelo jornal The Korea Herald:


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.




DEIXE UM COMENTÁRIO