Nos últimos dois posts sobre a “História da Beleza na Coreia do Sul” nós fizemos um mergulho histórico nas tendências estéticas das dinastias Silla e Goryeo, e essa semana iremos explorar o conceito de beleza durante a Dinastia Joseon (1392 – 1897).

A ética durante a Dinastia Joseon destacou virtudes como a piedade filial*. Nesse sentido, a Dinastia Joseon marcou o epítome de tais virtudes sendo pregadas e praticadas pelas mulheres da família.

A História Da Beleza Na Coreia Do Sul - Parte 3
Imagem: eunjangdo, que significa “faca de prata”, é uma pequena faca coreana usada originalmente pelas classes mais altas, que tinham permissão para carregar artefatos de prata e ouro. Mais tarde, foi comumente aceito como uma faca feminina para uso geral e para autoproteção (oriental arms).

As virtudes foram consideradas críticas para a subsistência de senhoras, esposas e filhas Joseon – resultando em uma cascata de programas e políticas educacionais que inculcaram nas mulheres a melhor forma de proteger sua dignidade feminina e manter seu senso de moralidade. Esse entendimento comum das virtudes básicas foi consagrado na psique pública, criando uma crença comum de que as mulheres deveriam carregar eunjangdo (은장도), um canivete de prata, que simbolizava a dedicação de uma mulher para proteger seu valor moral.

Com ênfase nas virtudes, a elegância e a aparência tornaram-se elementos-chave na sensibilidade estética de Joseon. Maquiagem natural e personalidade calma tornaram-se as qualidades mais apreciadas. Os três principais critérios de beleza feminina eram sambaek (삼백; 三 白), samheuk (삼흑; 三 黑) e samhong (삼홍; 三 紅).

Sambaek, “os três brancos”, destacava a brancura da pele, dos dentes e o branco dos olhos. Samheuk, “os três pretos”, enfatizou a necessidade de pupilas, sobrancelhas e cabelos pretos como carvão. Por último, samhong, “os três vermelhos”, enfatizava a vermelhidão das bochechas e lábios, bem como as unhas cor de pêssego. Esses três elementos foram aplicados diretamente ao embelezamento das mulheres de Joseon. Elas usavam yeonji e idolatravam uma pele perfeita, assim como a sociedade coreana atual.

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Imagem: ideal de beleza durante a dinastia joseon.

Jang Ok-jeong (장옥정), também conhecida como Hui-bin Jang (장희빈), possuía uma beleza excepcional e foi a única pessoa a ter suas feições registrada nos Anais da Dinastia Joseon. Jang Ok-jeong trabalhava como empregada doméstica no palácio e o Rei Sukjong (숙종), o 19º Rei da Dinastia Joseon, notou a bela Jang por volta de 1680 quando ela começou a servir o Rei diretamente. Muitos viram o relacionamento entre o rei e Jang com apreensão, pois temiam que sua profunda afeição por Jang impactasse a família real.

A história de sua vida é um dos materiais de roteiro mais amados nos dramas históricos sul-coreanos, com várias adaptações feitas tanto em novelas quanto no cinema ao longo dos anos. É importante notar que as atrizes que desempenharam o papel de Jang Ok-jeong foram consideradas as mais belas atrizes de suas respectivas gerações.

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Imagem: hui-bin jang (장희빈) – bisent. Tistory

Além disso, a imagem da mulher ideal refletia-se bem no papel das esposas Joseon, em que a saúde reprodutiva da mulher e a origem familiar eram tidas em alta conta. Principalmente a esposa do primogênito da família que tinha que ser uma mulher bem nutrida, de rosto redondo, pele branca sem cicatrizes ou manchas e, de preferência, cabelos sedutores.

Uma pesquisa bem interessante realizada por um grupo de médicos e cirurgiões plásticos na Coreia concluiu que haviam semelhanças impressionantes entre a famosa pintura coreana, Retrato de uma Bela, e as estátuas de Buda do período Joseon. As semelhanças mais marcantes incluem: 1) proporção da testa para o rosto, 2) proporção da largura do olho para o rosto, 3) proporção da largura para a altura do olho e 4) proporção do filtro para a largura dos lábios. A partir dessa observação, temos um vislumbre de como os padrões de beleza da época se baseavam na reverência dos coreanos por Buda, entre outros fatores.

Enquanto isso, a busca da feminilidade definida pelas virtudes teve um efeito restritivo sobre a liberdade das mulheres. À medida que o neoconfucionismo se tornava um princípio organizador durante a Dinastia Joseon, havia uma ênfase cada vez maior no âmbito social, e não no pessoal.

Em geral, acredita-se que o crescimento do neoconfucionismo como uma ideologia subjacente levou a Dinastia Joseon a ser uma sociedade ainda mais paternalista, mesmo em comparação com o período anterior, de Goryeo. As convenções culturais do sexismo exacerbaram-se a tal ponto que o termo namjonyeobi (남존 여비; 男尊女卑), ou a ideia de que os homens eram inatamente mais elevados em status e, portanto, deveriam ser mais respeitados do que suas contrapartes femininas, era frequentemente usado para racionalizar suas práticas discriminatórias.

Esse pensamento foi amplamente disseminado, acreditado e praticado pelos coreanos e constituiu uma parte crucial do Zeitgeist Joseon.

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Imagem: “portrait of a beauty” e uma estátua do buda – objetos de estudos comparativos (asia society)

Olhando para trás, para as tendências de beleza da Dinastia Joseon, concluímos que as virtudes eram uma moeda do sustento diário das pessoas e um tema central na sensibilidade estética da época. A beleza era buscar o equilíbrio entre a beleza externa e a interna. A este respeito, as mulheres usavam uma maquiagem natural semelhante a seus rostos nus, devido à necessidade de proteger suas virtudes. Em outras palavras, os padrões de beleza da época não se baseavam apenas nas aparências externas. Em vez disso, havia espaço para as pessoas cultivarem os melhores ângulos de sua natureza.

A ênfase de Joseon nas virtudes é um reflexo tanto da estética quanto do seu sistema social que suprimia fortemente os direitos das mulheres. A moral da história pode ser que a beleza não está apenas nos olhos de quem vê, mas também no equilíbrio.

*Na filosofia confucionista, piedade filial (em chinês: 孝, Xiao) é uma virtude de respeito aos pais e antepassados.


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