Yū Miri, nasceu em 22 de junho de 1968, em Yokohama, Japão. Ela é uma Zainichi-Kankoku-Jin, como se chamam os coreanos étnicos que têm status de residência permanente no Japão. Estes são imigrantes e seus descendentes que chegaram naquele país antes de 1945, durante a ocupação japonesa na Coreia.

Eles são um grupo distinto em comparação com os cidadãos coreanos que viajaram para o Japão após esta época, com o único propósito de emprego ou estudo. Alguns destes descendentes acabaram adquirindo a nacionalidade japonesa, mantendo, contudo, o forte vínculo com o passado familiar na península coreana.

Yū Miri tornou-se uma premiada autora, sendo dramaturga, romancista e ensaísta. Segundo relata a escritora Rebecca Rundall, que escreveu algumas palavras sobre a autora coreana, seus trabalhos são únicos e tendem a abordar relacionamentos familiares destrutivos, em que os indivíduos apresentam muitas dificuldades de comunicação e de estabelecer uma relação próxima uns com os outros.

Yu Miri
Yu Miri

O tema da família em crise certamente está relacionado ao passado conturbado do ciclo familiar de Yū Miri. Seu pai era um viciado em jogo, que abusava fisicamente de sua esposa e filhos; sua mãe trabalhava em um bar como anfitriã. Ela constantemente levava a filha Yū para festas, onde a adolescente ocasionalmente era molestada. Sendo uma Zainichi, a garota encontrou dificuldades em saber quando usar o japonês e o coreano, acabando por desenvolver uma gagueira, conforme Rundall.

Em razão de sua descendência étnica e da vida difícil que tinha de enfrentar em casa, Yū Miri foi frequentemente condenada ao ostracismo e sofreu bullying na escola. Seus pais acabaram se separando quando ela tinha 5 anos. Inúmeras vezes tentou suicídio e foi expulsa da escola, durante o ensino médio. Contudo, Rundall explica que esta terrível situação teria um final feliz, quando Yū Miri desenvolveu interesse pela atuação e a escrita.

A curta carreira de atriz foi a porta para ela encontrar-se com sua verdadeira vocação: escrever. Após deixar o colégio, ela entrou para o grupo teatral Tokyo Kid Brothers, e também trabalhou como assistente do diretor, nesta época. Em 1986, Yū Miri formou uma trupe (grupo que possui componentes de diversas vertentes artísticas), chamada Seishun Gogetsutō, em que escreveu a primeira de várias de suas peças teatrais, sendo sua obra de estreia publicada em 1991. Com o tempo, a jovem percebeu que escrever poderia ser uma forma de enfrentar a sua dor.

Em 1994, passou a desenvolver a escrita em prosa. Sua primeira novela, Ishi ni oyogu sakana (“The Fish Swimming in the Stone”), foi serializada no jornal Shinchō, uma publicação que serviu de “trampolim” para muitos jovens escritores. Como o livro pode ser considerado uma semi-autobiografia, pois uma pessoa real inspirou o modelo para um dos personagens principais da trama (a qual também é referida indiretamente pelo título da obra), a mesma objetou sua descrição na história. Assim, a publicação do romance em forma de livro foi bloqueada por ordem judicial e algumas bibliotecas restringiram o acesso à versão da revista. Após uma luta legal prolongada e um amplo debate sobre os direitos dos autores, leitores e editores em relação aos direitos individuais à privacidade, uma versão revisada foi publicada em 2002.

Sua novela Furu hausu (1996; “Full House”) ganhou um Noma, um dos maiores prêmios literários do Japão, criado por Shoichi Noma, ou em sua homenagem. Ele foi o ex-chefe da Kodansha, que é a maior editora japonesa de literatura e mangá. Yū Miri através de seu romance Kazoku shinema (1997; “Family Cinema”) ganhou grande reconhecimento público. A obra conta a história do encontro entre uma jovem mulher e parentes distantes, que se reúnem para filmar um documentário-ficção. De acordo com Rundall, o livro escrito em linguagem clara e simples, traz um enredo interessante, cujas “cenas” da vida real alternam-se rapidamente com as criadas e filmadas para o filme.

Cartaz do Filme Kazoku Shinema.
Cartaz do Filme Kazoku Shinema.

Conduzir desta forma a narrativa, foi a forma de Yū expressar a sua visão de que muitas pessoas mantêm suas famílias unidas, por meio da atuação de modelos prescritos dentro desta unidade social. Ao ter seus personagens desempenhando papéis familiares dentro do próprio filme que estão elaborando, Yū Miri consegue sublinhar habilmente a realidade e a ficção da vida familiar”.

Kazoku shinema ganhou o Akutagawa, o prêmio literário mais prestigiado do Japão, em 1997, mas também atraiu controvérsias. Rundall conta que, embora esta e outras obras da autora tenham sido escritas em japonês, Yū Miri continuou a sentir-se desconfortável enquanto uma “não japonesa” que vivia no país. Kazoku Shinema foi abraçado com entusiasmo na Coreia do Sul, depois de ser traduzido para o coreano.

Também se tornou um best-seller no Japão, mas foi veementemente atacado por membros da imprensa conservadora, que sentiram que a autora tinha retratado os japoneses como tolos. Os defensores de Yū Miri argumentaram que tais críticas, na realidade, continham um alto teor de preconceito étnico. Ela ainda publicou uma dúzia de livros de ensaios e relatos de sua vida. Seu livro Gōrudo Rasshu foi traduzido oficialmente para o inglês como Gold Rush (2002). Atualmente ela é editora e contribui para a revista literária trimestral “En Taxi”.

Cartaz do filme Inochi.
Cartaz do filme Inochi.

O seu livro de memórias mais vendido, “Inochi”, foi adaptado para o cinema com o mesmo título, em 2002, pelo diretor Tetsuo Shinohara.

Hoje Yū Miri vive em Kamakura e tem um filho.


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