No final do mês passado (30/06), a Coreia do Norte e os Estados Unidos deram mais um passo convergente na reaproximação de suas relações bilaterais. De maneira inusitada, o Presidente norte-americano Donald Trump anunciou que estaria na DMZ (Zona Desmilitarizada) e que estaria disposto a encontrar Kim Jong-un. Por sua vez, o líder norte-coreano aceitou o convite e compareceu ao local definido, marcando assim o primeiro encontro de um presidente dos Estados Unidos na fronteira entre as Coreias e na própria Coreia do Norte – já que Trump pisou no lado nortenho – desde a Guerra das Coreias.

O Presidente norte-americano Donald Trump foi o primeiro presidente dos Estados Unidos a pisar em solo norte-coreano desde a Guerra das Coreias, interrompida em 1953 sem um acordo de paz. Foto: South China Morning Post

Apesar dos elogios endereçados de Pyongyang a Washington e à reaproximação surpresa, o posicionamento da Coreia do Sul frente aos acontecimentos foi repreendido pelos vizinhos do norte. Segundo sites norte-coreanos, o governo norte-coreano pressionou o Sul a iniciar acordos bilaterais independentemente do encontro com os norte-americanos. Entretanto, Kim Jong-un teria ficado desapontado ao ver a tentativa de Seul em resumir as conversas intercoreanas apenas por meio de possíveis negociações de desnuclearização entre EUA-RDPC.

Ademais, neste final de semana (13/07), o site norte-coreano Uriminzokkiri veio a público afirmar que a Coreia do Sul “não precisa necessariamente participar” das conversas caso Coreia do Norte e Estados Unidos retomem as negociações de desnuclearização. A proposta de retomada dos diálogos foi informada por Trump, o qual afirmou que neste mês de julho se chegariam em consenso as negociações em nível de grupos de trabalho, porém não há resposta de Pyongyang a essa proposta.

As negociações entre EUA e Coreia do Norte sobre desnuclearização continuam interrompidas desde maio/2019. Foto: Revista Exame

Outro assunto importante para as relações intercoreanas e seus vizinhos foi o anúncio feito pelo Japão de exportar materiais tidos como concorrentes aos da Samsung na área de tecnologia. Inclusive, foram reportadas denúncias contra os japoneses quanto a evidências de que haveriam ocorrido desvios de parte desses materiais exportados à própria Coreia do Norte, desrespeitando diversas sanções econômicas impostas ao país.

De acordo com autoridades japonesas, o país endureceu as suas restrições para exportações dos produtos apontados por Seul e reconheceu que a gestão do transporte e controle de produtos sensíveis a Coreia do Sul foi inadequada. Entretanto, a disputa despertou movimentos mais profundos de inimizade e ressentimento no território sul-coreano, principalmente no que tange aos assuntos inacabados concernentes às mulheres de conforto e disputas marítimas no Oceano Pacífico, como é o caso da ilha Dokdo, em coreano, ou Takeshima, em japonês.

 

O briefing em Tóquio teve um começo desconfortável quando dois burocratas sul-coreanos foram conduzidos a uma sala estreita no Ministério do Comércio japonês, onde seus colegas japoneses já estavam sentados. Foto: Pars Today

Como resultado às condenações sul-coreanas, Tóquio anunciou uma série de restrições contra a importação de produtos do vizinho coreano. A Dieta implementou uma ordem exigindo a aprovação do governo para os contratos de envio de gás, fotorresistente e polinêmidas fluorescentes à Coreia do Sul, citando restrições para os três materiais de fabricação de chips, os quais podem ser aplicados a usos militares. Isso acabou por gerar um revolta por parte dos sul-coreanos, os quais trouxeram o assunto para a agenda de debates nas sessões do conselho da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre comércio de bens.

A OMC deu sinal positivo ao governo sul-coreano em levar o assunto para ser analisado e avaliado pelo painel de especialistas da instituição. Espera-se que a representante sul-coreana para a OMC, Park Ji-ah, solicite ao governo japonês que justifiquem as restrições de exportações ou que retiram-nas completamente até a reunião do Conselho Geral da organização, que ocorrerá nos dias 23 e 24 de julho.

No jogo de xadrez internacional, duas outras peças foram acionadas na resolução da questão: as Nações Unidas e os Estados Unidos. A Ministra das Relações Exteriores da República da Coreia, Kang Kyung-wha, telefonou ao Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, e expressou sua preocupação com os controles impostos pelos japoneses, o que não afetaria apenas a Coreia do Sul, mas também as corporações americanas e a economia internacional.

A Ministra das Relações Exteriores sul-coreana, Kang Kyung-wha, e o Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, em encontro em dez/2018. (Foto: US Embassy in Korea)

Site de notícias japoneses informam que os EUA não tem intenção de mediar a disputa. David Stilwell, o Secretário de Estado Assistente para Assuntos do Leste Asiático e Pacífico informou em entrevista que Washington apenas encoraja ambos os lados a focarem seus esforços em questões chaves regionais e particularmente na Coreia do Norte.

Por outro lado, a Casa Azul propôs uma investigação no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU) na busca do cumprimento e fortalecimento das sanções contra a Coreia do Norte e aos regimes de controle de exportações internacionais de materiais sensíveis e tecnologia dual.

Ambos os episódios puseram em cheque mais uma vez as relações intercoreanas. Seja pelo não cumprimento das sanções econômicas devido a falhas de sistema de gerenciamento de materiais sensíveis, seja pelas acusações de posicionamentos equivocados frente a problemas sérios, Coreia do Sul e Coreia do Norte compreendem que o jogo de poder com seus vizinhos e aliados resultam em uma aproximação ou distanciamento de suas relações bilaterais. Contudo, vale ressaltar que a resolução para a questão nuclear norte-coreana, e tudo que envolve o tema (como é o caso econômico levantado) tem mais chances de ser alcançada quando todos esses fatores convergirem para a vertente de proximidade.


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