Talvez uma das maiores batalhas do ser humano é conhecer a si próprio, aceitar-se como é, sem se preocupar com a opinião dos outros, sem que a sociedade vá transformando a sua essência e os seus sonhos. Paula Kim, uma cineasta brasileira, nascida em São Paulo, filha de pais coreanos, parece saber muito bem o significado destas palavras.

Aqui, neste novo formato da coluna “Coreanos pelo Mundo”, tentaremos relatar um pouco de sua trajetória. Em entrevista concedida ao Koreapost, ela narra sua vida repleta de percalços que são aos poucos superados, na persistente busca para se consolidar como diretora, produtora e roteirista de cinema em um país como o Brasil, cujo mercado é dominado por homens brancos, ricos e que a enxergam como uma eterna estrangeira.

A Trajetória Da Cineasta Que Venceu A Anorexia E Ganhou A Europa [Coreanos Pelo Mundo]
Foto: ciel foto studio

Ela conta ainda sobre as dificuldades encontradas para crescer e amadurecer dentro da comunidade coreana, enfrentando desafios de adaptação ao rígido estilo de vida, o que resultou em uma anorexia nervosa. Paula, através de sua biografia, aponta para uma problemática bastante preocupante: em 2014, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo fez um levantamento, onde constatou que 77% das jovens, apenas neste estado, tinham propensão a ter algum distúrbio alimentar como anorexia, bulimia e compulsão por comer.

Por esta razão, Paula Kim, utilizando da criatividade, inaugurou um site chamado “Sobre Nossa Visão Distorcida”, (www.sobrenossavisaodistorcida.com.br) em que garotas que sofreram, ou sofrem, e pessoas próximas, ou que conheceram, ou tiveram alguém que apresentou tal problema, relatam suas experiências. (A diretora continua a receber histórias/relatos sobre autoestima pelo email: contato@sobrenossavisaodistorcida.com. e os 30 primeiros leitores que se interessarem em enviar material ganharão um calendário em pdf do Sobre Nossa Visão Distorcida que será enviado por email).

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Imagens do sobre nossa visão distorcida / foto: sam ka pur filmes
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Imagens do sobre nossa visão distorcida / foto: sam ka pur filmes

Atualmente, ela busca abordar o tema em um novo projeto: um longa-metragem de ficção intitulado “Diário de Viagem”, que relata a história de uma menina, interpretada pela também YouTuber e ex-participante do Master Chef junior Valentina Schultz, que entra na adolescência nos anos 1990. Segundo a diretora, a personagem tem problemas para se relacionar com pessoas na escola, sentindo-se um peixe fora d’água e sofre de distúrbios alimentares em decorrência disso. “Ela não tem os mesmos gostos que as outras pessoas e acha que isso é parte de algum problema pessoal; acha que algo está errado com ela e pensa: ‘não sou uma pessoa boa, há algum problema comigo, não tenho amigos por alguma razão’. Assim, começa a se autoflagelar e começa a ter transtorno alimentar. Uso este distúrbio como uma forma de desenvolver e abordar o processo do amadurecimento feminino, que apresenta características bem diferentes do masculino”.

Abaixo, leia na íntegra, a contundente entrevista da cineasta, dada com exclusividade ao Koreapost:

O Início de Tudo

O seu filme abordará o amadurecimento feminino e as complicações decorrentes disso, qual a diferença que você vê entre homens e mulheres nesta questão?

Os mundos masculino e feminino tem abordagens diferentes em ralação ao entrar na fase adulta. O homem normalmente também se sente um peixe fora d’água. Contudo, ele logo começa a fazer amigos, namora alguém, descobre que os pais não são perfeitos e cresce. Já a menina precisa enfrentar a mudança de postura das pessoas relação a ela, quando começa a desenvolver o corpo. Ela é exigida a ser mais responsável, a ser rapidamente adulta, a cuidar dos tipos de relacionamento que vai estabelecer e etc. Existe uma cobrança para que ela seja mais adulta, dona do corpo, confiante e saiba o que ela está fazendo, mas ela não sabe. Aí, você começa a tentar corresponder às expectativas dos pais, dos amigos. Por exemplo, começa uma pressão para beijar, então você beija, mas não beijou porque tinha vontade real de beijar. Assim, os conflitos internos começam e podem levar a transtornos graves, como os distúrbios alimentares. Para desenvolver a personagem principal que sofre com estes problemas, comecei a ir atrás de meninas que tinham transtornos alimentares em SP. Achei várias pelas redes sociais e comecei a conversar com elas. Eu tive anorexia nervosa durante a adolescência, o que me ajudou a ter facilidade de falar com aquelas meninas, o que é uma tarefa extremamente difícil, mas eu conseguia porque fazia as perguntas certas.

Quais as dificuldades que se podem encontrar ao conversar com meninas que sofrem destes transtornos alimentares?

O problema é que elas mentem muito. A pessoa finge que está bem o tempo inteiro. Você pergunta qual a razão dela estar mal e ela dá qualquer outra desculpa falsa. Assim, eu perguntava da família, dos amigos, tentava um outro tipo de abordagem. Consegui que algumas falassem comigo pessoalmente, porque diversas vezes, quando estão muito doentes, elas não querem encontrar ninguém. Têm medo de serem julgadas, por estarem muito fora do padrão normal, seus corpos estão muito debilitados. Uma melhora começa após o início da terapia, mas infelizmente quem tem acesso ao tratamento caro são pessoas de classe mais alta. O Serviço Único de Saúde não consegue ainda identificar direito o transtorno alimentar.

Cremos que é preciso ir ganhando a confiança delas. O seu passado, como já você disse, contribuiu para uma melhor comunicação, o que descobriu durante a imersão neste mundo?

Ficávamos falando por muito tempo. Elas contavam tudo, inclusive coisas que jamais tinham dito aos seus terapeutas. Porém, eu nunca comentei com elas sobre o meu passado. Apenas para uma moça que estava muito mal, queria conversar, mas tinha medo. Foram muitas entrevistas que comecei a gravar e pretendo um dia fazer um documentário também a respeito. Contudo, já tinha muito material e achei que poderia fazer uso disso para alguma contribuição social. Até fazer a pesquisa não sabia da quantidade de meninas com os mais diversos problemas: depressão, mutilação, anorexia, bulimia e outros transtornos alimentares que estão associados a outras questões como bullying e pedofilia. Percebi que não se tratava apenas da história de uma personagem, mas de um problema social real. Existem grupos de competição de mutilação de meninas de 10, 11 e 12 anos, você os encontra usando as hashtags corretas. É assustador!

A internet pode apenas tornar pior a situação?

A internet acaba normalizando o comportamento. Você tem aquele problema e encontra grupos com a mesma situação que você. Estes grupos começam a se defender e a compreender aquele transtorno como um estilo de vida. Você tem casos de terapeutas que entram nestes grupos e falam que as meninas estão doentes, elas fazem bullying com a profissional e podem chegar a acabar com a carreira dela. Assim, tive a ideia que elaborei com as meninas de fazer um site. Quem quisesse mostrar o rosto mostraria, quem não quisesse não seria obrigada a se expor. Creio que seja melhor contar as histórias, pois quando as meninas ouviam os vídeos de outras garotas, elas percebiam que não estavam bem, mas quando elas falavam de si apenas, tudo parecia normal para elas. Então enviei a proposta de criação de um site para o Programa de Incentivo à Cultura (ProAC) e ganhei uma verba pequena para lançar o site. Foi mais fácil conseguir verba para o site do que para um filme. Ele não tem muito seguidores, mas tem bastante visibilidade.

Mas se trata de uma ferramenta de grande sucesso e que parece contribuir de forma real ao problema?

Atualmente, o site está começando a ser usado por profissionais da área da saúde como psiquiatras, psicólogos e psicanalistas. Fui chamada para conversar em muitas universidades e o Hospital das Clinicas de SP, no Ambulatório de transtornos alimentares, um dos maiores da América Latina, fiz uma palestra para os próprios médicos. O site não fala de comida, mas dos problemas pessoais das meninas. Ocorre que muitas meninas estão sendo levadas pelos pais aos psiquiatras, assim muitas não confiam nos profissionais, mas na internet elas falam praticamente tudo. Assim, não temos qualquer parceria oficial, mas eu acabo recebendo muito apoio de conteúdo de médicos e outros profissionais.

O que elas escondem de seus médicos e terapeutas?

Há muitas coisas que elas dizem que eles não sabem, por exemplo a questão sobre o transtorno de imagem. A meninas dizem que se acham gorda, mas não é uma verdade, elas não se acham gordas, elas sabem que estão magras, o que elas não querem é comer, pois algo está perturbando de alguma forma. Por exemplo, muitas meninas que me escreviam antes de terem transtorno alimentar já tinham tido depressão, se mutilavam, queimavam, tinham outros problemas, provavelmente a causa para o transtorno, que não foram tratados. Existem diversos tipos de traumas, uns mais graves que outros, que com o tempo levaram ao transtorno alimentar. É uma questão de causas multifatoriais. No meu caso foi em razão de ser filha de imigrantes. Comecei a trabalhar muito cedo e não tive a oportunidade de desenvolver outras coisas. Então, trata-se da incapacidade de externar estes problemas, o que leva a mente e o corpo a reagirem inconscientemente, no intuito de mostrar às pessoas que você não está bem. Por isso, falamos muito do que pode ter ocorrido antes dos transtornos. Quando estes começam é comum as pessoas ficarem meio apáticas aos problemas. Você não enfrenta nada, não sente o perigo. Este nível de depressão pode levar ao suicídio. A única coisa que não abordamos são os casos de celebridades, não falamos de histórias que não fazem parte do nosso mundo. O projeto continua, apesar da verba ter acabado. Continuo recebendo histórias.

Vocês organizam uma espécie de revista. Como se dá o processo de publicação dos relatos? Existe alguma preferência de vocês por alguma linha especial de tratamento?

A revista funciona da seguinte forma: recebemos relatos, ou textos de colaboradores. Eu envio para ilustradores e publicamos tudo junto. Não seguimos uma forma de tratamento e estamos abertos a qualquer tipo de terapeuta, porque cada profissional segue uma linha. Psicanalistas pensam que o tratamento deve ir por uma via, terapeutas por outras. Também recebemos relatos de pessoas que perderam familiares. Virou um espaço para as pessoas desabafarem. O site criou vida própria. Já o filme aborda também outros problemas que não são o transtorno alimentar, como a autoestima. Se tivermos de resumir a questão aqui, é basicamente: quando as pessoas, normalmente crianças e adolescentes, não têm estrutura emocional para lidar com determinados problemas que acontecem, isso pode resultar em um transtorno alimentar e mental futuramente.

Então o transtorno alimentar poderia ser, na realidade, uma revolta inconsciente, uma tentativa de combater aquilo que oprime a pessoa, que a quer controlar, uma forma de poder comandar a própria vida? Como uma espécie de batalha para se aceitar, sem se preocupar com a opinião dos outros, mas há também um autoflagelo que passa desapercebido?

Acho que sim. Há falta de maturidade emocional para lidar com decepções da vida, dos relacionamentos, por exemplo. É como se fosse uma revolta em relação alguma coisa que você não tem estrutura emocional para enfrentar. Desta forma, você acaba se escondendo e se protegendo neste transtorno alimentar. Pais muito rigorosos, que querem controlar os filhos, e estes não tendo maturidade emocional para enfrentar aquela forma de conduta dos pais, temendo a reação deles, acabam desenvolvendo um transtorno. É uma espécie de revolta, uma forma de extravasar e um refúgio também. O problema normalmente não está apenas nos pacientes com estes transtornos, mas na família e nas relações sociais das pessoas. Por isso, este conceito “visão distorcida” dos médicos é uma coisa que eu sempre achei engraçada, porque creio não ser bem isso, é mais um problema psicológico, proveniente de outras questões que, muitas vezes, estão além das garotas.

O seu passado influenciou muito no processo de criação do seu futuro longa “Diário de Viagem”, correto?

Verdade! Meus pais são imigrantes e há uma questão bem especifica da comunidade coreana que é a obrigação de estudar e trabalhar, pois a maioria dos coreanos que chegaram ao Brasil eram muito pobres. Algumas pessoas, por exemplo, viveram escondidas quando criança em um porão, porque o governo ia atrás dos imigrantes ilegais e os mandava de volta para a Coreia. Então, tinha muita gente nos anos 1980 que vivia escondida em sótãos, não podia sair e acabou por desenvolver problemas de pele, por falta de tomar sol. Era uma situação social muito frágil, e as pessoas tornaram-se workaholics e meio que passaram isso para toda a minha geração. Apesar da situação ter melhorado de forma geral para a comunidade, ainda há muitas pessoas que vivem no limite. A maioria da imigração coreana é conhecida por ter lojas de roupas no Bom Retiro, bairro operário de São Paulo. Seus filhos passaram a frequentar escolas privadas boas e a ir à faculdade, mas o preço disso foi muito alto. Eu e todos os meus amigos coreanos ou estávamos estudando, ou estávamos trabalhando, até nos finais de semana, não havia muito tempo para diversão.

Como era esta rotina de trabalho?

Nos meus sete, oito e nove anos, muitas vezes estávamos em casas de familiares, ou amigos fazendo botão. Normalmente estas reuniões funcionavam na casa do familiar que tinha, ou tem o imóvel maior. Todos os primos se reuniam para trabalhar o fim de semana inteiro. Quando se é pequeno, não se percebe, você está lá com seus primos, meio que num clima de trabalho e brincadeira. Nas férias também se trabalhava, às vezes 14 horas por dia. E quando nossa vida começou a melhorar, nas férias eu passei a estudar em outros lugares. Como não tinha avós, ou empregada, ou alguém para cuidar, me mandavam fazer cursos. Portanto, eu não tive muito tempo para brincar. Assim, eu sofri mais com a condição de não fazer as coisas que gostava de fazer quando pequena. Sempre gostei muito de ler, de andar de bicicleta e não comprava muito esta história de ter de ficar trabalhando o tempo todo. Já minha irmã mais velha sim. Ela ia trabalhar, ganhava o dinheiro dela, porque nos ganhávamos 100 reais pelo trabalho que fazíamos, e comprava as coisas queria. Ela ficava feliz em ir para escola com uma calça jeans nova.

Paula, Em Sua Pré-Adolescência Já Com Indícios De Anorexia. Foto: Arquivo Pessoal
Paula, em sua pré-adolescência já com indícios de anorexia. Foto: kuki jae shina

Você parece ter enfrentado, mesmo de forma inconsciente, esta situação e deve ter tido momentos de certa solidão, de não poder ser compreendida. Isso era algo comum nas famílias de imigrantes coreanos?

Lembro de me esconder na loja durante o expediente para ler gibis. Na comunidade coreana, eles acham que você ficar ouvindo música, vendo filme, andar de bicicleta é perda de tempo. Você precisa ganhar dinheiro para pagar seu estudo, você deve ajudar a pagar a sua escola. Então todo mundo cresceu deste jeito. Por isso muita gente é aculturada, não tem hobby algum. Só que eu nunca fui assim, por isso nunca me identifiquei muito com eles. Para mim, sempre foi bastante claro o meu gosto por leitura, musica, desenhar, entre outras formas de cultura. Sempre tive muita necessidade disso. Desta forma, era muito sofrido ter de trabalhar naquele loja, naquelas condições. Eu chegava sempre com o olho vermelho e quando tinha de atender o pessoal da minha escola, durante as férias, eu me escondia, dizia que minha mãe não era a minha mãe, corrigia o português dela. Não aceitava aquela situação. Para minha família, eu era uma verdadeira folgada. Eu me sentia muito como um peixe fora d’água.

Conte um pouco sobre a sua família.

Somos cinco ao todo. Eu sou a filha do meio. Meus pais vieram com meus avós para o Brasil. Meu pai hoje é naturalizado brasileiro e fala fluentemente o português. Ele chegou ainda adolescente, com 14 anos. Já minha mãe veio com vinte e poucos e ainda é cidadã coreana. Nós morávamos no bairro da Mooca, em São Paulo, mais afastados da comunidade. Porém, aos sábados e domingos encontrávamos a família inteira no Bom Retiro. Primeiro estudei em um colégio onde não tinha muito oriental, depois mudei para o Bandeirantes, onde o número de alunos desta origem era maior. Contudo, mesmo estudando em uma instituição onde havia mais coreanos, eu nunca fui muito próxima deles, porque o pessoal da comunidade era muito diferente de mim, eles não gostavam muito de literatura, cinema e outras coisas que eu sempre apreciei. Para ter uma ideia, fui uma das poucas entre os descendentes de coreanos que fez faculdade de cinema, foi nesta área que me encontrei.

Paula E Sua Irmã. Foto: Arquivo Pessoal
Paula e sua irmã. Foto: arquivo pessoal

Mas demorou para a sua família aceitar a ideia de você ser uma pessoa com inclinações artísticas? Você mencionou, antes mesmo desta entrevista, que tentou ser a filha perfeita, dos sonhos de todos os pais…

Chegou um momento que tentei me adequar e pela educação que tive, eu acho que acabei levando tudo muito a sério. Acabei matando um lado que eu deveria ter deixado extravasar. Então me tornei muito introvertida. Uma época fiquei um tempão sem falar, mas ninguém percebeu, isso antes de começar a ter transtorno alimentar. Tive hepatite uma época e não podia fazer muita coisa que criança faz como: participar da educação física. Ia para escola, ficava o tempo todo sentada, falava com algumas pessoas, mas não tive muito contato social. As pessoas não podiam tocar o que eu usava, assim como o banheiro, era tudo muito separado. Comecei a desenvolver anorexia um ano depois de ter hepatite. Eu estava entrando na adolescência em meio a este turbilhão de problemas. Lembro que na escola vomitei um dia e os pais dos meus amiguinhos passaram a dizer a eles para não chegarem perto de mim. Mudei de escola e, após o primeiro ano, mudanças de humor acentuadas, junto com o fato de começar a menstruar pioraram a situação. Depois disso, veio o impulso de querer controlar tudo, até o número de passos que eu dava. A anorexia nervosa surgiu disso, emagreci 20 quilos, mas lentamente.

E como seus pais reagiram a esta situação?

Meus pais não se deram conta do que estava acontecendo no início, e eu também fazia de tudo para ninguém perceber. Quem notou foram amigos dos meus pais. Eles achavam que eu estava muito mudada, que algo estranho estava acontecendo. Comentaram que eu era obediente demais, algo que não é normal em uma adolescente. Naquela época, meus pais estavam numa fase muito estressante, porque o colégio era muito caro. Estavam sempre muito nervosos com dinheiro, não podiam ter mais problemas. Desta forma, eu buscava não falar nada. O médico a que me levaram suspeitou que eu controlava muito a alimentação, isso foi lá pela sétima série. Eu era uma menina magra, mas não fora da curva, não aparecia de forma evidente a minha magreza doentia. Por isso, ele fez um teste para saber se eu controlava a alimentação ou não, me deu uma vitamina para tomar todo dia e pediu que voltássemos um mês depois.

E você voltou ao médico?

Por não ser tão perceptível o desenvolvimento do transtorno, meus pais não me levaram de volta ao médico e, no ano seguinte, a minha situação já estava muito ruim, parei de crescer e cheguei a pesar 34 quilos. Foi quando comecei a ser totalmente vigiada, não sei quando isso começou, mas teve um momento que percebi ter sempre alguém comigo. Quando ia ao banheiro, alguém ia ver o que eu tinha deixado lá. Ia para o meu quarto, alguém me seguia. Eu não percebi este agravamento da minha situação, mas minha família sim. Eu não sei dizer exatamente quando eles perceberam. Era tudo muito estranho, porque nesta época eu era a melhor do colégio, era a menina perfeita. Segui o padrão coreano de exigências. Ao dar por conta que estava sendo vigiada, fiquei muito brava. Achava que tudo estava sob o meu controle, então foi muito difícil aceitar a situação. Comecei a não poder ler, nem ver televisão, porque ficava procurando pessoas mais magras nestes veículos de comunicação, e tentava ser mais magras que elas. As coisas começaram a sumir de casa como revistas e televisão. Além disso, não podíamos viajar porque precisávamos estar em um ambiente, em que minha família pudesse me controlar o tempo todo, conforme orientação do médico.

Em algum momento, sua família achou que poderia perder você?

Eu comecei a ter insônia e o médico explicou que esta era uma reação do corpo, porque se eu dormisse, a temperatura baixava e eu poderia não acordar mais. Fiquei semanas sem dormir. Estava muito no limite e a minha família, obviamente, desesperada, sem saber o que fazer. Eles acharam que eu ia morrer mesmo. Aquele controle todo era insuportável e passei a gritar com as pessoas. É importante explicar que na minha cabeça eu era uma adolescente normal, meus pais é que eram controladores e não me deixavam em paz. Com as demais pessoas, chega um momento que você está tão morta por dentro que tudo irrita, alguém comenta sobre o tempo e você acha aquele comentário inútil, superficial, então você começa a criar uma certa aversão ao social. Eu tentei enganar a minha psiquiatra também, desenhei coisas horríveis e escrevi coisas bem depressivas, fiz o que achava que ela queria que eu escrevesse, o que foi bastante perceptível. Assim, todos começaram a ficar muito incomodados comigo.

Paula, Dando Os Primeiros Passos Na Carreira De Cineasta E No Início De Sua Recuperação Da Anorexia. Foto: Arquivo Pessoal
Paula, dando os primeiros passos na carreira de cineasta e no início de sua recuperação da anorexia. Foto: arquivo pessoal

E como foi o ponto de virada, de recuperação da saúde mental e física?

Meus pais começaram a me fazer enfrentar meus medos, a enfrentar a situação, porque eu tinha medo de comer. Quando as coisas não seguiam muito as minhas regras, eu ficava nervosa comigo e com eles. Eles me fizeram perceber que eu tinha medo das coisas. Assim, a ficha começou a cair, e ela cai quando todos percebem que você está a ponto de morrer e todos estão desesperados. Foi quando comecei a ficar com raiva da minha situação, porque eu sabia que estava mal, mas não sabia qual razão daquilo. Eu sabia que as pessoas eram mais felizes que eu. Eu estava sempre com dor e comecei a xingar os outros que não sentiam dor. E quando me dei conta, vi que tinha de escolher entre acabar com tudo, ou melhorar, mesmo sem saber como. Comecei a me desafiar. Tentava não contar as minhas respirações, os meus passos e as minhas piscadas. Sempre sentia muita dor e muito frio no corpo e quando não sentia, ficava desesperada. Tive vários surtos, mas eram sinais de melhora.

Você também passou a não se importar mais com o que os outros pensavam, isso fez parte da sua recuperação?

Claro, trata-se, na realidade, de um processo de aceitação de si mesmo. Eu na escola gostava de música mais antigas, não era tão “feminina”, não gostava de dançar axé, mas escondi tudo isso, para não ser excluída. Vejo esta questão também refletida na minha família. Há muitos parentes hoje frustrados, eles todos têm inclinações artísticas, mas acabaram abandonando tudo isso, por necessidade, mas por imposição social também.

Seus pais também passaram a ter uma atitude diferente com relação as suas escolhas?

Mesmo chateados comigo, como eu já tinha passado por tantos problemas, meus pais resolveram parar de me julgar e me deixar fazer o que eu queria da minha vida. Fiz um curso de desenho, fiz um desfile no colégio, e fui melhorando, recuperando peso. Depois fui fazer cinema e ninguém reclamou, passei a fazer tudo que queria. Algumas pessoas até criticavam, mas eu não ligava mais. Na doença, tinha algo na realidade de querer controlar quem eu achava que me controlava, que queria mandar na minha vida. Eu não queria sofrer as consequências de quem eu era. Por exemplo, eu sempre soube que eu queria ir para uma área que não ia agradar aos meus pais e a sociedade. Para você ter uma ideia eu era tão boa aluna, que o meu colégio me chamou uma vez para tentar mudar minha escolha de fazer cinema. Eles queriam me usar como garota propaganda da escola, eu tinha altas notas, eu recebi bolsa de várias escolas de classe média. Chegou ao absurdo de eu visitar uma instituição de ensino dessas e depois eles propagarem que eu estudava naquele local. Houve uma vez um teste que eu fiz para as olimpíadas de matemática, fiz porque meus amigos estavam participando, tirei a nota máxima, me saindo até melhor que os alunos anteriores. O professor colocou na cabeça que eu ia representar o Brasil nas olimpíadas de matemática, mas eu não queria fazer nada daquilo. Emocionalmente eu tinha medo das pessoas me criticarem, ficarem bravas comigo por eu não querer fazer as coisas que elas desejavam que eu fizesse.

Você acha que a sociedade brasileira, que muitas vezes pode ser preconceituosa e conservadora pode ter sido parte das causas de tais transtornos alimentares?

Há uma coisa interessante, eu recebo muitos relatos de meninas negras para o site. Creio que há uma relação sim. No caso dos coreanos, tem os pais que dizem que os brasileiros não vão te aceitar. Contudo, tem coisas que você faz e vê que não é bem aceito pelos brasileiros, em razão do preconceito. Mas você acaba internalizando tudo isso, sem saber, tentando se moldar a forma que as pessoas gostam, no intuito de fazer parte do grupo. Com relação aos meus projetos, sinceramente eu não sei qual é o ponto de aceitação da sociedade brasileira, não sei se o problema é pelo fato de eu ser mulher, ou oriental, ou não ser rica. O mundo do audiovisual é até mais aberto, as pessoas são mais esclarecidas e há contestação social que faz parte do meio cultural. No entanto, querendo ou não, a maior parte dos produtores de cinema no Brasil, porque se trata de algo caro, são brancos, homens e ricos. São pessoas que não tiveram vivencia com pessoas como nós. Para eles, eu sou uma gueixa (japonesa treinada desde jovem nas artes da dança, do canto e da conversação para entreter os fregueses de casas de chá, banquetes e etc) que eles viram em um filme. Mas como tenho atitudes contrarias ao que eles esperam, estes não sabem o que fazer comigo, em que grupo me colocar… Isso vale tanto para os coreanos que me conhecem como brasileira, como para os brasileiros que me conhecem como descendente de coreanos.

Paula, No Tempo Que Fazia Pós Graduação Na Coreia. Foto: Arquivo Pessoal
Paula, no tempo que fazia pós graduação na coreia. Foto: arquivo pessoal

Supostamente, existe uma certa aversão as classes que emergem da condição de pobreza. Quando os coreanos começaram a conquistar níveis sociais melhores, você pode sentir alguma reação das classes média e rica?

Existe ainda uma visão bastante estereotipada. Lembro de um trabalho que eu fiz, quando voltei da Coreia, cuja pessoa disse estar aliviada por eu não ser coreana, já que não tinha negociado meu cache com ela. Há uma ideia do coreano escravocrata, materialista. Esta visão errada dos coreanos sempre aparece em situações de conflitos, em que as pessoas colocam a razão de eu não aceitar algumas coisas por ser de origem coreana. Quando, na realidade, a causa do problema não está vinculada a minha origem. Já tive namorados que terminaram comigo e saíram mentindo que eu tinha acabado com eles porque não tinham carro. E muita gente acreditou…

Com relação a sua carreira como diretora, você teve uma boa experiência profissional como iniciante, antes de ir fazer especialização na Coreia?

Trabalhei na editora Abril, na TV cultura e em algumas produtoras. Então, senti a necessidade de aprofundar meus estudos, mas aqui não tinham especializações na área que me agradassem. Comecei a pesquisar e percebi que minha mãe ficaria receosa de eu me mudar sozinha para os países em questão. Desde 2001, o cinema coreano já estava em pleno processo de desenvolvimento e aí pensei que seria uma boa alternativa, pois ela não iria reclamar. Na Coreia, eu não tinha parentes próximos, mas acabei convivendo, de certa forma, com os irmãos do meu avô. A experiência foi ótima, porque o contato que eu tinha antes com a Coreia era muito da comunidade no Brasil, de um pessoal que não gostava das mesmas coisas que eu. Lá, além de estudar, dei aulas de inglês e participei de outras atividades, absorvi muito conhecimento e a história de um povo que apresenta referências completamente distintas das que conhecemos no Ocidente.

E como foi a experiência como estudante de pós-graduação em cinema na Coreia?

Tinham três universidades que me interessavam. Meu coreano era muito ruim, para você ter uma ideia: tive uma prova à noite e achei que era pela manhã, pois não tinha entendido a inscrição. Contudo, dei um jeito e passei nas três, escolhendo a Korea National University of Arts, que era uma instituição mais nova, voltada para as artes, em que um dos fundadores era diretor de cinema, possibilitando a eles ter melhores equipamentos e o departamento da área ser bastante forte. O pessoal que faz cinema é tudo mais ou menos igual, existem diferenças culturais, mas no fim o processo é o mesmo. Éramos dez alunos apenas de pós-graduação. Foi um a oportunidade ótima também para me libertar daquele sentimento ruim com relação ao ser de origem coreana, ao não me identificar, porque lá encontrei pessoas com interesses semelhantes. Porém, foi bem complicado também. Por exemplo, na madrugada do Natal e Réveillon, eu lembro de ficar editando material, trabalhei e estudei muito, foi bastante estressante.

Paula E Colegas Da Pós Em Um Projeto Da Universidade Na Coreia. Foto: Arquivo Pessoal
Paula e colegas da pós em um projeto da universidade na coreia. Foto: arquivo pessoal

E como foi ser uma brasileira, filha de imigrantes coreanos, na Coreia?

No início você é muito bem tratado. Creio que eles pensam ser necessário criar uma boa imagem da Coreia para você. Diferente do Japão, a diáspora coreana criou uma situação em que praticamente todos lá tem um primo que não fala coreano, que nasceu e, ou foi criado fora do país. Assim, eles auxiliam e muito quem vem de fora, coreano, ou não, a compreender as diferenças culturais. Contudo, a medida que o tempo vai passando, especialmente para os têm origem coreana, eles começam a considerar você como um deles. Passam a reclamar do país e a externar problemas. Também você se torna um adversário, já que é cultura bastante competitiva. Então alguma assistência a eventuais problemas que se tinha antes, começa a não ter mais. Na faculdade a rigidez era menor com os alunos estrangeiros e não descendentes de coreanos. Já conosco eram muito rígidos, porque eles me viam e achavam que eu já devia falar coreano. No entanto, houve um problema uma vez, o qual recebi ajuda total. Eu tinha contratado algumas pessoas para trabalhar comigo em um projeto da faculdade e que me pediram para paga-los antes. Ao receberem, simplesmente sumiram. Falei com os professores que estava preocupada e não conseguia contata-los. Descobriu-se que era um grupo que aplicava golpes nos estudantes. Eles contataram os caras e voltaram com o meu dinheiro. Fui bastante protegida em um primeiro momento, mas depois não. Algumas pessoas continuaram auxiliando por amizade mesmo, traduziram o meu roteiro. Porém, lembro de um professor falar que entre o corpo docente houve uma grande discussão para saber se me aceitavam ou não. Alguns professores coreanos que estudaram nos Estados Unidos falaram que os brasileiros têm maior facilidade de adaptação, de estabelecer relações, por isso acharam que eu não teria problemas. Pois, muitos estrangeiros encontram dificuldade de relacionamento na Coreia e entram em depressão. Ele depois me disse que tinham acertado na escolha. Da parte da Coreia, de forma geral, não senti qualquer rejeição, apenas eles acreditavam que eu era mais liberada sexualmente, o que não me ofendeu, pois já estava em uma idade mais madura para compreender estas coisas.

E as relações pessoais por lá, qual foi a sua impressão?

Com relação a isso senti apenas uma diferença pelo alto grau de introversão das pessoas. Nada é explicito como aqui. Não se trata de algo moral, ou de ser conservador, ou não. Eles fazem tudo que fazemos aqui, porém de forma bastante reservada. Eles acham filmes como “Closer – Perto Demais”, de Mike Nichols, inverossímil. A obra não tem cenas de sexo, mas os diálogos abordam questões amorosas e sexuais de forma bastante explicita. Para os coreanos ninguém fala daquele jeito, mas no Ocidente falamos sim, e eu falo deste jeito. De maneira que me sinto mais à vontade com brasileiros, eu sou brasileira, na realidade.

Você decidiu voltar ao Brasil, como foi este retorno depois de um tempo afastada do mercado audiovisual nacional?

Em 2009 eu coloquei na cabeça que queria ser diretora e roteirista, criar minhas histórias e mesmo conseguindo um trabalho em uma TV coreana, eu percebi que teria de participar de projetos alheios por lá, então decidi voltar. Antes de ir para Coreia, trabalhei como freelancer em diversos projetos, mas depois de afastada por uns anos, as coisas mudam rapidamente, assim como as pessoas mudam seus objetivos, então os contatos que eu tinha já não serviam mais, e tive de me readaptar. Recomecei trabalhando em várias produtoras conhecidas como a Mastershot, que atualmente se chama Nation filmes, e participei de uma coprodução internacional entre Brasil e Dinamarca, a produção chama-se Rosamorena. Entrei como estagiária, o que foi algo difícil, pois eu já tinha pós, já tinha certa experiência e tinha ido para vários festivais importantes. Contudo, foi também ótimo porque eu era responsável por estar em contato diretamente com o pessoal da Dinamarca. Foi quando percebi que estava com uma formação legal e que já poderia fazer meu próprio projeto.

É neste período que o filme “Diário de Viagem” começou a ganhar vida?

Em 2010 eu tinha escrito um argumento (um documento em que se registra a ideia inicial de um filme e nele se conta de forma geral sobre o que a história irá tratar, o que acontece, o porquê e quais seus personagens) do longa “Diário de Viagem”, tinha 10 páginas. Como era um assunto muito pessoal, eu não mostrei a ninguém até aquele momento, mas então resolvi testar e ver quais as possibilidades de financiamento para aquela temática.

Festival de Cannes

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Produtoras no encuentro de productores do festival de cartagena (2016). Arquivo pessoal.
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L’atelier photocall no 68o festival de cannes (2015). Imagens concedidas pelo festival.
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L’atelier photocall no 68o festival de cannes (2015). Imagens concedidas pelo festival.

Você sempre comenta que o Festival de Cannes foi essencial para o seu crescimento profissional e para este projeto em específico, conte um pouco mais da sua experiência com os franceses.

Enviei o argumento para a seleção do programa de residência do Festival de Cannes. Este é destinado a diretores que estão em início de carreira. Fui selecionada para a entrevista em Paris e Gilles Jacob, presidente do festival na época e Georges Goldenstein leram o meu projeto. Mas, não passei para a segunda fase. Normalmente, eles escolhem seis diretores de doze candidatos, provenientes de todas as partes do mundo. Fiquei muito chateada, pensei que não era boa o suficiente e que nunca mais teria chance ter um filme exibido por lá. Um chileno percebeu a minha aflição e me aconselhou a relaxar. Ele já tinha tentado em outras oportunidades e só aquela vez conseguira. Foi o que me tranquilizou e me fez perceber que estar lá, já era um grande feito. Quando nos levaram aos aposentos onde ficam os selecionados, nas portas dos quartos tem os nomes de diretores hoje muito famosos e que fizeram parte daquele programa.

Mas a participação em Cannes ainda iria ocorrer no futuro…

Em 2014, quando já tinha o roteiro pronto, uma colega diretora e produtora, mais experiente que eu, aconselhou a escrever novamente para o pessoal em Cannes. Foi o que fiz. Goldenstern lembrou da minha entrevista e me convidou para participar do Atelier em 2015, que diferentemente da residência, serve para projetos já em fase mais avançada de desenvolvimento. Ninguém do Brasil tinha, até aquele momento, participado desta inciativa. A dinâmica deles, nesta fase, é outra. Eles treinam você para aprender apresentar o seu projeto aos produtores, o que é um grande aprendizado. Falei com agentes de vendas e distribuidores, utilizando abordagens e linguagens diferentes. Isso contribuiu muito para eu poder assumir uma posição como produtora, deixando de fazer trabalhos temporários aos outros, focando e enviando o meu projeto para todos os editais abertos no Brasil. Tentei ainda me associar a algumas produtoras, mas é difícil quando já há um projeto pronto, as pessoas querem participar dele desde o começo. E é preciso encontrar uma pessoa que se identifica com o tema. Sem falar que as pessoas tendem a não querer arriscar com diretores que estão realizando seu primeiro filme, faz parte da dinâmica do mercado. Tentei vários editais, e mesmo com a ida a Cannes, demorei para conseguir apoio.

Após esta experiência em Cannes, você começou a atuar realmente de forma mais independente e resolveu apostar no “Diário de Viagem”. Quais as dificuldades que foram encontradas?

Quando voltei ao Brasil comecei a trabalhar com roteiro, participei do “Destino SP” da O2, produtora do diretor Fernando Meirelles, sendo colaboradora da parte que falava sobre os coreanos, pois era um projeto com várias histórias. No mesmo período, comecei a desenvolver o roteiro do “Diário de Viagem”. Outras dificuldades surgiram, pois é muito difícil você como diretor e autor do seu roteiro, conseguir um produtor que se interesse por ele. A maioria das produtoras já tem seus projetos e buscam os diretores que querem. Foi quando resolvi seguir o conselho de alguns chefes, como os diretores e produtores do filme “Rio, Eu te Amo”, em 2014. (o filme reúne diversos curtas de reconhecidos diretores nacionais e internacionais que relatam histórias da cidade do Rio de Janeiro. O mesmo formato foi feito em outras capitais mundiais como Paris e Nova Iorque. O diretor sul-coreano Im Sang-Soo, que competiu pela Palma de Ouro em Cannes duas vezes, assina o curta “Vidigal”, do qual Paula trabalhou como sua assistente pessoal). Lembro de uma produtora dizer que iria ser muito difícil me produzir porque era meu primeiro filme e eles eram uma empresa com conteúdo mais comercial mesmo. Então, ela aconselhou que levasse o projeto sozinha. Portanto, abri minha produtora, tendo o meu local de trabalho e as coisas começaram a acontecer meio que naturalmente.

Que tipo de apoio e parcerias conseguiu até o momento?

Mais recentemente consegui apoio para o filme através do Programa de Apoio do Fundo Setorial do Audiovisual. Anteriormente produções que abordam a autoestima feminina adolescente não eram bem compreendidas, ou interessantes para os produtores. Eles achavam que o filme não teria sucesso, não teria público, e utilizavam como justificativa o fato do tema nunca ter sido tratado em obras cinematográficas anteriores. Mas então a questão feminista entrou com mais força no Brasil, após 2014, e o assédio sexual às mulheres na indústria cinematográfica e audiovisual foram sendo denunciados na imprensa ao público em geral. Em muitos casos, adolescentes acabaram envolvidas nas denúncias, assim a recepção para o projeto passou a ser maior. Ganhamos o edital da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, mais ou menos na mesma época que participei do Atelier de Cannes. E estabelecemos uma parceria com a distribuidora Pandora filmes. Participei este ano do encontro de produtores no festival de Cartagena, na Colômbia. Ano passado também participamos no Laboratório de Desenvolvimento de Projetos no Brasil (BrLab). Planejamos começar as filmagens em dezembro.

Paula, Para A Revista Cláudia. Foto: Revista Cláudia
Paula, para a revista cláudia. Foto: revista cláudia

Viver de cinema do Brasil certamente é uma escolha que exige muita persistência e dedicação. Quais seus planos para o futuro, algum projeto cinematográfico relacionado com a Coreia?

Meu primeiro filme não tem relação com a Coreia, mas meu segundo trabalho fala de uma menina nascida no Brasil, que trabalha nas lojas dos pais e que não gosta (risos). Mostrei este roteiro para os coreanos da comunidade e eles se identificaram muito, pois é uma história muito comum. Então eu acho que terei no futuro de lidar com estas questões que permearam a segunda geração de coreanos no Brasil. Eu adoro trabalhar com coreanos. Adoraria poder fazer algo em conjunto. Contudo, minhas histórias acabam não sendo historias coreanas, mas de imigrantes coreanos. Elas, na realidade, contam uma parte da história do Brasil.


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