Desde 2016, a Europa passa por uma crise não apenas político-econômica, mas também social e até mesmo identitária mediante o resultado do referendo realizado no Reino Unido, o qual foi favorável à sua saída da União Europeia.

O que foi tido como uma grande surpresa aos olhos dos governantes europeus e da comunidade internacional acabou por se tornar um prolongado pesadelo sem fim, uma vez que depois de dois anos da decisão de saída, o governo britânico, pela liderança da até então Primeira Ministra Thereza May, não conseguiu persuadir o lado opositor, o Partido dos Trabalhadores (Worker’s Party), a fechar um acordo consensual de saída com condições bem definidas e que suavizariam o forte impacto da saída para o próprio Reino Unido.

O prazo de apresentação de proposta à União Europeia foi repetidas vezes postergado devido à falta de coerência interna e o conflito de interesses dos partidos no Parlamento britânico. Como resultado, Thereza May apresentou sua carta de renúncia do cargo de Primeira Ministra na semana passada, deixando a situação ainda mais incerta.

Thereza May, ex-Primeira Ministra do Reino Unido e Irlanda do Norte. Foto: NCROnline

A própria União Europeia não aparenta concordar mais em manter o Reino Unido no bloco depois de tantas reviravoltas e as chances de se realizar um novo referendo para mudar a decisão britânica podem aumentar, mas talvez sem alcançar nenhum objetivo, de fato.

É neste contexto que a Coreia do Sul entra em cena e sinaliza o desejo de já estabelecer relações comerciais com o Reino Unido em um cenário pós-Brexit.

O representante do Departamento de Comércio Internacional britânico, Liam Fox, já vinha atuando conjuntamente com outros países de forma a fechar outros acordos comerciais que cobririam os 63% dos acordos assinados anteriormente com a União Europeia. Estes países incluíram Suíça e Chile, que conseguiram negociar 28% deles. Contudo, o acordo celebrado por Fox e Yoo Myung-hee, Ministra do Comércio, Indústria e Energia sul-coreana, configura o maior acordo comercial britânico na Ásia desde junho de 2016, após votação do Brexit.

O objetivo do acordo preliminar assinado é permitir o livre comércio entre Reino Unido e Coreia do Sul de forma a impulsionar uma maior interdependência entre os negócios desses países após o Brexit encontrar uma conclusão para as suas tratativas com a União Europeia, inclusive em um cenário sem chegar a qualquer acordo.

Yoo Myung-hee e Liam Fox na cerimônia de assinatura do acordo comercial. O acordo firmado abrange a exportação sul-coreana de carros, peças automotivas e barcos. Por outro lado, abrange também a exportação britânica de óleos, carros e whisky. Foto: The Irish Times

Liam Fox reiterou que o acordo firmado permitirá com que as empresas britânicas continuem a comerciar com sul-coreanos em termos preferenciais. No ano passado, 99% das exportações do Reino Unido para a Coreia do Sul foram feitas sem ser cobradas tarifas.

Segundo Fox: “O valor do comércio entre Reino Unido e Coreia do Sul mais que dobrou desde a assinatura do acordo entre União Europeia e Coreia do Sul em 2011. Possibilitar a continuidade das relações comerciais permitirá com que os negócios desenvolvidos em ambos os países continuem sem nenhuma barreira, o qual nos ajudará a aprofundar o nosso comércio conjunto futuramente“.

Por outro lado, na perspectiva sul-coreana, a própria assinatura desse acordo preliminar com o Reino Unido resulta de um intuito da Casa Azul em buscar minimizar possíveis incertezas comerciais e a manter um comércio com o país europeu com base nos moldes do acordo celebrado em 2011 com o bloco europeu, segundo a Ministra Yoo Myung-hee.

Outra preocupação de Seul é em relação à possibilidade de fechamento de firmas de advocacia britânicas na capital sul-coreana. Atualmente, cinco firmas atuam em Seul – Clifford Chance, Herbert Smith Freehills, Linklaters, Stephenson Harwood, and Allen & Overy – e operam seus escritórios de consultoria jurírica internacional sob o guarda-chuva do Acordo de Livre Comércio (FTA) entre Coreia do Sul e União Europeia.

A firma Herbert Smith Freehills foi uma das beneficiadas pelo acordo comercial preliminar assinado, podendo continuar com suas atividades em Seul. Foto: Glassdoor

Tais serviços legais/jurídicos não estavam originalmente incluídos no acordo, mas foram negociados e acordados, o que permitirá com que tais firmas continuem a desempenhar suas atividades na Coreia do Sul. A Presidente britânica da Law Society, Christina Blacklaws afirmou que: “Um novo acordo de livre comércio entre Coreia do Sul e Reino Unido, uma vez ratificados por ambas as partes, assegurará com que as firmas britânicas que atualmente operam em Seul sob o escopo do acordo existente com a União Europeia possam continuar seus trabalhos pós-Brexit“.

Por fim, visto que a adesão do Reino Unido à União Europeia se encerra em 31 de outubro deste ano, com ou sem acordo, o governo sul-coreano informou que buscará conseguir a aprovação do acordo em seu parlamento e ratificá-lo antes desta data limite.


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