No último mês, iniciei uma breve discussão sobre as mudanças que sofriam as culturas e tradições coreanas na era contemporânea.

Hoje vamos nos aprofundar sobre os movimentos de nacionalismo dentro do governo ditador de Park Chung Hee. Lembrando que foi este o presidente que criou  o ‘Ministério da Cultura’ a fim de proteger a cultura tradicional coreana e reerguer um sentimento de nacionalismo dentro de um regime de controle e opressão.   

A ‘Lei de Segurança Nacional’ foi aplicada em 1948 com o objetivo de proteger o Estado e garantir liberdade aos cidadãos. Essa lei deu controle ao governo sobre a mídia, a fim de evitar que qualquer informação considerada uma ameaça ao governo fosse difundida ao público em geral.

Com uma república recém criada, após anos de dominação japonesa, a Coreia criou esta lei em resposta a movimentos e conflitos entre duas ideologias que se espalharam no território.

Foi uma lei que, basicamente, punia qualquer menção à, ou indivíduo que emitisse opiniões que, pudessem ser classificadas como ‘antiestatal’ e contra as diretrizes do governo. Com o golpe militar, o governo de Park Chung Hee após 1961, invalidou  a constituição e fez uso de ameaças para legitimar seu controle, prendendo e torturando inimigos políticos, não deixando de lado a censura sobre líderes de movimentos e artistas.

Na era contemporânea, mais precisamente após a década de 1950, a mídia foi montada para ser uma condutora em massa de ideologias, sabendo que, “ideologias mobilizam sentimentos, afeições e crenças para induzir consentimentos a certos pressupostos nucleares (senso comum) dominantes acerca da vida social, mobilizados em grupos e forças que tendem mobilizar discursos de democracia, liberdade e individualismos.” (Kellner 1995).

Pois bem, com Park chung hee, músicas americanas e músicas coreanas ‘inspiradas’ em músicas estrangeiras foram banidas da Coreia do Sul. Principalmente canções que citassem sexo e drogas (n/a – o engraçado é que, mesmo com essa censura no campo musical, a produção cinematográfica de filmes pornográficos teve um boom na mesma época) tanto quanto qualquer canção que lembrasse o período da colonização japonesa no território.

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A partir de meados da década de 1960 e 1970, a televisão foi a grande protagonista na difusão da música, dando espaço para programas de música e apresentações completas. Assim, surgia um movimento musical conhecido como ‘Folk Music’ e ‘Trot’

Nos anos de 1970 e 1980 temos um nome em especial conhecido como o fundador do protótipo de criação da cultura jovem, Kim Min-gi, que trabalhou para ampliar os horizontes da cultura coreana.

Kim Min-gi estudou artes liberais na SNU (Seoul National University) e é conhecido pela emblemática música ‘“Morning Dew’ (아침이슬),  tal canção ainda que banida, foi considerada o hino do movimento antigoverno. Em uma entrevista, o músico disse que “Morning Dew foi o começo de sua vida difícil, mas no princípio ninguém tinha ideia da grande tempestade que viria depois da música. A primeira música do primeiro álbum de Kim Min-gi foi “The Flower Eye – … Eu também peguei um jardim de flores para a Rosa de Saron… Enquanto os dias passavam, algumas das crianças choravam sobre o canteiro de flores…

Kim Min-gi cantou a música em uma festa de boas-vindas para calouros na Universidade de Seoul em 1972, e teve seus registros confiscados além de ter sido levado para Dongdaemun. Ele se tornou um pensador perturbador e foi frequentemente preso, torturado e interrogado. Nesse meio tempo, a música “Orvalho da Manhã” (Morning Dew) se espalhou como um fogo silencioso. No final, a música foi banida em 1975 sem uma explicação convincente.

O governo de Park proibiu tantas “músicas impróprias” que cerca de mais de 220 músicas coreanas e 260 músicas estrangeiras foram banidas e proibidas por conterem influências negativas sobre a segurança nacional e conteúdos pessimistas. Promovendo produções de ‘músicas adequadas’ o próprio Presidente Park compôs canções de cunhos político-nacionalistas extremos, como ‘My homeland’.

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Mas toda censura contém um furo, e a população continuava a ouvir as ditas “proibidas” em clubes do exército americano (bases de exército americano são considerados território americano, logo o governo não tem controle sobre elas) e em regiões mais afastadas de cidades grandes onde era difícil realizar as investigações.

Músicas com narrativas bem estruturadas assumiram significados maiores e mais convincentes no cenário de movimentos democráticos da época.  Nos anos 70 na Coreia o regime ditatorial apertando uma barreira autoritária contra a sociedade desanimada e desolada, vê na jovem arte e criação cultural um túnel de luz àqueles anos sombrios. Os jovens universitários que movimentavam levantes democráticos adotaram ‘Morning Dew’ como uma canção alegórica apropriada  para seus ideais, chegando a ser cantada em comícios ao longo dos anos até os anos 80, principalmente o trecho ‘and the sun rises upon the grave” (e o sol nasce no túmulo) se tornando uma das mais significativas canções de protestos na história da Coreia moderna.

Abaixo, você pode conferir a canção em coreano, inglês e uma tradução em português (seguindo ambas coreana e inglês)

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Tradução da canção:

Como o orvalho da manhã depois de uma longa e cansativa noite

Enfeitando cada folha com um brilho mais fino que o da pérola

Quando as tristezas em meu coração se elevam uma por uma

Eu subo na colina da manhã para aprender um pequeno sorriso

Um sol vermelho escaldante subindo sobre um cemitério

O calor sufocante do dia é apenas minhas provações

Aqui vou eu agora, no deserto do ermo

Tudo desperdiçado

Deixando toda a tristeza para trás, aqui vou eu agora

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Foram várias as canções que esculpiram o descontentamento da geração com a falta da liberdade tão ilusória. Tal qual aconteceu no Chile, Brasil entre outros, a música, o cinema, a literatura se ergueu a um nível elevado de culturalismo e ideologia, no final, todos com fundamentalismo político. Mas não são muito lembradas até hoje. Lembro-me de, em conversa com estudantes coreanos na época em que morava em Daegu e fazia parte de um programa de “buddies coreanos”, eles saberem pouco sobre essa parte da cultura moderna coreana. 

A Coreia do Sul, fazendo uso de seu Ministério da Cultura, procura trazer à tona uma cultura de tradições antepassadas até hoje como forma de disseminar e principalmente fixar-se como referência mundial. Porém peca ao deixar de lado, obras primas como as canções que movimentaram toda uma geração em busca da liberdade.

Aprecie agora mais uma linda canção de Kim Min-ki, The Mountain Peak, com legendas em inglês.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



2 COMENTÁRIOS

  1. Incrível saber dessa parte da história coreana tão pouco lembrada. Como estudante autodidata de coreano, acho importante aprender muito além do idioma e conhecer também a história e aspectos culturas do país que vão além do kpop. É lindo ver que esse povo usou a arte para lutar e não se calar diante da censura, e que conseguiram reerguer-se apesar das barbaridades sofridas tão recentemente, porque a Coreia é um país novo. Que mais artistas historicamente importantes possam ser conhecidos e apreciados por quem gosta da cultura coreana. Eu com certeza procurarei as músicas do Kim MinGi ^.^

    • Prezada Ananda. Obrigada pelo seu comentário. O Koreapost tenta ser um veículo informativo sobre a Coreia em sua totalidade, por isso aqui você sempre encontrará artigos sobre, história, política, atualidades e entretenimento. Obrigada por ser nossa leitora!!

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