Medalha do Prêmio Nobel, parte frontal. Foto: elEconomista.es

No Brasil existe uma grande contestação por parte dos brasileiros descendentes de asiáticos, entre eles, os de ascendência coreana, sobre a exclusão e o preconceito que sofrem, de uma sociedade brasileira que ainda não conseguiu os incluir como parte dela, como parte da família. Colocando em linhas gerais, no mundo há duas formas de adquirir nacionalidade: uma é nascendo no território daquele determinado país (jus solis), outra é a nacionalidade transmitida pelo sangue (jus sanguinis).

Países como o Brasil, ou os Estados Unidos, certamente não poderiam invocar a segunda opção, pois são nações originadas a partir da imigração de outras regiões. Contudo, apesar de clamarem que a nacionalidade é transmitida pelo sangue, poderiam os demais países como a Coreia ignorar aqueles que nasceram em seu território e que são filhos, na realidade, de estrangeiros? Esta coluna fala especificamente da diáspora coreana e de seus descendentes.

São muitos os casos de coreanos que se destacaram pelas oportunidades oferecidas em outros países, que jamais teriam na Coreia. Não seria hora, portanto, de reconhecer figuras que acabaram contribuindo e muito para o país, mas que não têm sangue coreano? Trata-se de uma reflexão importante. Aqui é trazido ao leitor um exemplo: a vida do cientista e químico Charles John Pedersen, nascido em Busan, no ano de 1904, filho de pai norueguês e de mãe japonesa.

 

Charles John Pedersen. Foto: DuPont.

Ele permaneceu na Coreia até seus 8 anos e, junto com o ex-presidente Kim Dae-jung, são os dois únicos Prêmios Nobel nascidos em território coreano. De acordo com o site oficial do Nobel, o pai de Pedersen era engenheiro naval e viveu no leste da Ásia, trabalhando no Serviço Alfandegário da Coréia, que, na época, era administrado pelos britânicos. Já sua mãe, nascida em 1874, no Japão, era parte de uma família comerciante de soja e vermes da seda.

Pedersen teve um irmão que não chegou a conhecer, tendo este falecido antes dele nascer e uma irmã mais velha Astrid. O futuro químico de carreira promissora cresceu em uma área que hoje pertence à Coréia do Norte, na época, administrada por forças norte-americanas, o que o fez falar o inglês, mesmo ainda na escola. Em 1922, vai para os Estados Unidos, no intuito de estudar engenharia química na Universidade de Dayton, em Ohio. Após completar o curso, foi para o Massachusetts Institute of Technology, onde adquiriu o título de mestre em química orgânica.

Saiba um pouco sobre a vida de Charles John Pedersen no áudio abaixo.

Em 1927, ele começou a trabalhar para a E. I. du Pont de Nemours and Company, mais conhecida como DuPont, hoje a segunda maior empresa química do mundo, em volume de capital. Trata-se de um conglomerado dos Estados Unidos, fundado em julho de 1802 em Wilmington, Delaware. A empresa iniciou suas atividades como uma fábrica de pólvora, impulsionada pelo francês-estadunidense Éleuthère Irénée du Pont. Pedersen permaneceria seus próximos 42 anos, trabalhando para esta empresa, produzindo 25 artigos e 65 patentes. Em 1967, ele publicou dois trabalhos, hoje, considerados clássicos, onde descreve métodos de sintetizar éteres-coroa (poliéteres cíclicos).

Segundo o site do Nobel, Pedersen descobriu: “éteres-coroa, uma família de moléculas em forma de anel que têm a capacidade de se ligar a certos átomos metálicos no meio do anel. Os átomos metálicos podem então ser liberados em compostos orgânicos, algo que antes era difícil. Isso abriu possibilidades para provocar reações químicas em laboratórios e criar compostos químicos”.

Pedersen com a medalha do Prêmio Nobel. Foto: GEOCITIES.ws

Em 1987, ele dividiu o prêmio de Química com Donald Cram e Jean-Marie Lehn por seu trabalho nessa área. Em 1983, Pedersen foi diagnosticado com mieloma, tumor maligno que se desenvolve nas células plasmática, além de sofrer de doença de Parkinson. Contudo, ainda que estivesse bastante frágil, viajou para Estocolmo para receber o prêmio. Posteriormente, foi laureado com uma medalha de excelência pelos Companheiros de Pesquisa da Pont. Morreu em 26 de outubro de 1989 em Salem, Nova Jersey.

Segundo as palavras do presidente da DuPont na época, Edgar S. Woolard Jr, impressas pelo The New York Times: “ele era um químico brilhante e um cavalheiro extraordinário”.  Os Estados Unidos é o país que mais ganhou prêmios Nobeis e com isso adquiriu grandes perspectivas tanto para o seu desenvolvimento econômico e social, quanto para a ampliação de seu poder tecno-científico internacional, algo que faz os países terem protagonismos em várias áreas.

Muitos cientistas e ganhadores dos prêmios não nasceram nos EUA e, muito menos, compartilhavam “sangue estadunidense”, mas o país, que infelizmente hoje parece não querer mais nem estudantes estrangeiros, por muito tempo, soube aceitar estes talentos, investir neles e ter resultados positivos com isso. Com um futuro não muito longínquo, a Coreia terá de se readaptar a uma onda de imigrantes e espera-se que possa aceitá-los e promover o melhor destes novos integrantes, que farão sim parte da sua sociedade, mesmo não possuindo sangue coreano.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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