Foto: Netflix.

Como já se comentou em outras oportunidades nesta coluna, a verdade é algo bastante complicado para ser “absorvida” totalmente pela sociedade. De uma forma geral, precisa-se acreditar que uma nação tem qualidades acima da média, que tem uma índole incontestável, que se diz diferente e melhor que cidadãos de outros países. Contudo, se sabe, não é bem assim que funciona. Talvez por isso, quando grandes escândalos repercutem -tanto na mídia brasileira, quanto na sul-coreana-, busca-se ignorar o assunto, ou comentá-lo a exaustão, mas sem qualquer real profundidade, para depois novamente esquecê-lo.

Uma dura questão ainda necessária a ser contemplada: o sistema político, econômico e social implementado tanto no Brasil, quanto na Coreia, dificilmente tem chances de funcionar sem os desvios ilegais, sem a corrupção cotidiana, sem o chamado submundo. Diversos filmes apresentam a dura luta contra a ilegalidade, contra a máfia e etc, mas poucos abordam a origem da corrupção, em especial, quando esta nasce de lugares menos esperados como nos anseios pessoais de um casal, classe média, que almeja acima de tudo: poder.

A vontade por pertencer a alta classe pode ser tão grande que leva a que valores éticos, sedimentados ao longo dos anos, sejam facilmente corrompidos. Situações de humilhação extrema são, sem qualquer objeção, aceitas e a crença que uma vida comandada pelo dinheiro em abundância é o caminho para a liberdade impera. É comum ver personagens ricos e pobres “perdendo a linha”, mas a classe média, a portadora do estandarte dos bons costumes e da moral, quase pouco é submetida a este teste da tentação.

 

Da mesma forma, a classe artística, ou o mercado da cultura, que em muitos casos, na vida real, apenas existe com o patrocínio de verdadeiros mecenas pertencentes ao mundo ilegal, mas que posam em outros momentos para fotos de matérias de jornal que os qualificam como grandes e bem-sucedidos empresários. Exemplos e líderes que conquistaram seus milhões, ou bilhões de forma aparentemente ética, através do trabalho árduo… Claro… O filme “Alta Sociedade” (2018), dirigido por Byeon hyeok, uma produção da Netflix, tem exatamente este contexto temático. Conta a história de um casal típico classe média.

Foto: IMDb.

Este é formado pelo professor da Universidade Nacional de Seul Jang Tae-Joon (Park Hae-il), um respeitado intelectual que acaba recebendo uma proposta para ser candidato e concorrer à Assembléia Nacional. Já sua esposa é a vice-diretora e curadora de uma grande galeria de arte Oh Soo-yeon (Soo-ae), que almeja chegar ao cargo de diretora. Para tanto, passa pelos maiores absurdos impostos por uma diretora e um presidente mais do que corruptos, verdadeiros carrascos que obtêm prazer em humilhar o próximo e submetê-lo a uma condição de escravidão não apenas financeira, mas mental. Contando com grande elenco, vê-se ao longo da história este casal perder-se entre os meandros e joguetes dos ricos e poderosos, que os observam como marionetes, uma visão comum da elite abastada com relação aos seus vassalos da classe média.

Apesar do filme apresentar um desfecho um tanto medíocre na visão desta autora, podendo com um enredo e atores de grande porte como Yoon Je-moon e Ra Mi-ran fazer desta promissora história um novo clássico da cinematografia sul-coreana, o diretor apresenta um final que pode ser útil a reflexão. É compreensível, devido à grande influência que filmes exercem no imaginário coletivo social, a crença dos diretores de mostrar, às vezes, bons exemplos, fornecendo as pessoas alguma esperança de que mudar a realidade é possível. Mas eis a questão maior: seria um final que redimiria moralmente seus personagens, algo que faria o espectador refletir, ou apenas salientaria a ilusão de que, no fim, nem todos são corruptíveis.

Park Hae-Il vive o professor Jang Tae-Joon. Foto: cinematerial.com
Soo-Ae interpreta a ambiciosa curadora Oh Soo-Yeon. Foto: cinematerial.com

Algo bastante parecido com o que faz Hollywood em seus finais que agradam mais ao público geral, em nome da pretensa moralidade e da preservação da “auto–dignidade”. Contudo, apesar do clichê, o fim cujo protagonismo dá-se através da personagem Soo-yeon, traz ainda um recado interessante sobre o papel das mulheres na sociedade. Em épocas de um feminismo pretensamente revolucionário, que exalta mulheres de classe abastada, que se alegra com a propaganda “empoderadora” de grandes empresas como a Nike, conglomerado que se utiliza de trabalho escravo da camada de mulheres que ainda permanecem economicamente menos afortunadas, “Alta Sociedade” pode servir para uma crítica construtiva neste sentido.

Desta forma, seriam as mulheres muito diferentes dos homens na busca desenfreada pelo poder? Tudo indica que não, ao menos se o caminho escolhido para o empoderamento feminino venha a seguir as mesmas regras que fez dos homens seres de alto poder social ao longo dos anos. Por fim, ainda que trate de temas tão profundos, esta produção é repleta de momentos que entretêm e chamam atenção, em especial na cena em que o artista e milionário Han Yong-Seok (Yoon Je-Moon) encontra-se em pleno processo criativo, transando com uma artista plástica japonesa.

Ra Mi-Ran incorpora Lee Hwa-Ran, a diretora e esposa do artista e milionário Han Yong-Seok. Foto: cinematerial.com
Yoon Je-Moon está perfeito na figura do pervertido artista plástico Han Yong-Seok. Foto: cinematerial.com

Trata-se de um dos melhores momentos do filme, em que uma crítica ferrenha, detentora de um sarcasmo sem igual, uni o trabalho artístico, cenográfico e da produção de objetos (departamento responsável por se preocupar com os objetos que serão mostrados em cada cena). Tal cena é um retrato bastante interessante de elite sul-coreana um tanto patética em seu estilo mais “sofisticado”, no fundo recheado de senso comum, de breguice, ignorância, superficialidade. Seus valores fazem a sociedade da Coreia do Sul acabar tendo efeitos colaterais psicológicos preocupantes, às vezes extremos, como o suicídio.

Não estão sozinhos, pois o caos social está implantado também nos países do ocidente, onde este mesmo sistema surgiu e foi exportado ao restante do mundo. O que traz a constatação que em “Alta Sociedade” parecem querer, nas entre linhas, transmitir: da mesma forma que sua classe média submete-se, esta elite sul-coreana é apenas uma cópia da forma de atuar dos endinheirados ocidentais. No fundo, ela é apenas mais uma vassala, querendo ser igual ao senhor que lhe governa.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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