Foto: JustWatch.

Como já foi tratado em outros textos desta coluna, todo indivíduo tem o potencial para ser bom e, ao mesmo tempo, perverso. Os maus também amam, uma vez alguém disse. E a realidade é que até os maiores dos criminosos têm seus códigos de honra e alguém que verdadeiramente estimam. Esta talvez é umas das diversas temáticas que o filme “Jo Pil-Ho: o despertar da ira” (2019), produzido pela Netflix e que teve a direção de Jeong Beom Lee, aborda.

Uma frase sobre a obra, presente em vários sites, destaca e sintetiza: “um policial ruim enfrenta e defende uma sociedade ainda pior”. Não é uma novidade a questão da corrupção ser aplicada no enredo de uma produção cinematográfica sul-coreana, o que faz pensar que talvez este problema seja maior do que o público pense, tornando-se uma “doença endêmica” presente também nesta sociedade, em todas as suas instâncias.

Foto: Rock and Films.

Jo Pil Ho (Lee Sun Kyun)  é um detetive de homicídios corrupto de Ansan, que decide roubar um armazém da polícia com a ajuda do parceiro Gi Chul. Contudo, ocorre uma explosão inesperada no local, cujo interior estavam os arquivos com provas de atos ilícitos do conglomerado Taesung. Jo fica inconsciente e Gi Chul morre. Posteriormente, no hospital, o detetive é abordado pelos policiais que suspeitam de seu envolvimento na situação.

Ele destrói seu chip de celular que contém um vídeo, enviado por Gi Chul, capaz de desmontar uma enorme rede de corrupção financiada pelo grupo Taesung, onde participam promotores, juízes, jornalistas, policiais, políticos e empresários. Porém, Gi Chul também envia a prova para Mi Na (Jeon So Nee), sua amiga que Jo Pil Ho, coincidentemente, conheceu através do pai da jovem Ji Won (Park So Eun), uma das vítimas no incidente da balsa Sewol. A relação de Mi Na e Jo será capaz de mudar o rumo da vida deste policial.

Foto: Korean Herald.

Pior do que um bandido é a sociedade que o cria. Mais uma vez o cinema sul-coreano, diferentemente de grande parcela da população e instituições do país, não poupa e nem esconde os meandros da perversidade de um sistema corrupto e falido. Um empresário, que tem poder econômico para fazer o que bem entender e decidir os rumos do país, não tem o menor apresso pela vida, relacionando o valor de um cidadão comum a apenas 78 centavos. Um sistema de leis que, na realidade, existe para proteger um grupo privilegiado de pessoas, mesmo em uma nação já considerada “desenvolvida” como a sul-coreana.

Porém, ser desenvolvido não é indício de ter igualdade social, nem um sistema jurídico, político, econômico e social idôneo. A inclusão no enredo do acidente da balsa Sewol, um fato ocorrido em 2014, que conta com 304 mortos e 9 desaparecidos até o momento, é um vínculo real que o diretor tenta trazer como prova de que esta sociedade problemática sul-coreana não é apenas uma invenção para entretenimento do público. Ela é real.

Com uma trama que apresenta várias reviravoltas, um protagonista que é uma espécie de anti-herói, partes de puro sarcasmo em momentos cômicos que se misturam com instantes dramáticos e de ação, o filme consegue incitar sentimentos de apreensão, empatia por vilões e indignação. Trata-se de uma obra do cinema que mais uma vez protesta e reivindica mudanças.

Foto: Yonhap News Agency.

Porém, o interessante é o tom de maior complexidade que o diretor, também roteirista, consegue dar aos seus personagens, que, felizmente, ganharam atores dignos e capazes de transmitirem a profundida de suas personalidades. Todos, sem exceção, são integrantes de mundo extremamente corrupto. Todos atuam de forma ilícita. Contudo, nem todos são realmente perversos e nem são a real causa dos problemas. Alguns são apenas sobreviventes, ou atuam para buscar justiça aos que amam e foram prejudicados por uma sociedade que parece ter perdido há tempos a civilidade e o civismo.


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