Foto: Netflix

A mente humana é um local bastante misterioso e desconhecido, ainda que a ciência tenha evoluído tanto nos últimos séculos. Se já há dificuldade em saber o que passa na mente das pessoas em geral, o que dizer sobre àqueles que possuem alguma deficiência mental, diria o senso comum… Certamente, qualquer doença deste tipo é um desafio enorme para qualquer família, mas o autismo, transtorno que aparece nos primeiros anos de vida de uma pessoa e compromete as habilidades de comunicação e interação social, faz com que se tenha ainda mais dificuldade de compreender o ser humano portador desta condição, excluindo-o às vezes por inteiro do convívio com as pessoas.

Contudo, existem particularidades que podem transformar a vida de um autista. “Maratona” (2005), dirigido por Jeong Yoon-cheol, disponível no Netflix, é um retrato das dificuldades que as famílias de um doente mental enfrenta, e também da forma de viver e pensar destes indivíduos peculiares. Da narrativa sutilmente elaborada e das interpretações, em especial do protagonista Cho-won vivido por Cho Seung-woo, um dos atores mais importantes e talentosos de sua jovem geração, percebe-se que há muito mais em uma pessoa com tais limitações, do que apenas a sua doença.

Cho Seung-woo vive o autista Cho-won em uma interpretação que consagrou a sua carreira. Foto: My Feeling Heart
Cho Seung-woo vive o autista Cho-won em uma interpretação que consagrou a sua carreira. Foto: My Feeling Heart

Atenta-se para a forma especial com que pode estruturar a sua própria mente para viver e conectar-se com o mundo ao redor. No entanto, ao ter de estabelecer convivência com os não doentes pode acabar, infelizmente, também encontrando mais barreiras, em grande parte pela falta de tolerância e compreensão alheia, fazendo com que o quadro da doença até, em diversos casos, agrave. Contudo, se a paciência e empatia imperarem as transformações podem ser bastante positivas não apenas para o deficiente em si, mas para todos que interagem com ele.

Foto: Amazon.com
Foto: Amazon.com

Esta é uma possível reflexão que esta obra, baseada na vida real de Bae Hyeong-jin, um autista que completou uma corrida de maratona dentro de três horas e se tornou o mais jovem coreano a terminar um triatlo, busca impulsionar em seu público. A vida real deste jovem é uma lição em si. Bae encontrou em vários momentos de sua vida barreiras impostas pelo preconceito, desde o pagamento de baixo salário em razão de sua doença aos interesses das empresas de usá-lo graças a fama que o filme lhe proporcionou (algo que, ao menos para ele, teve consequências bastante doloridas como o stress causado pelo excesso de entrevistas e outros compromissos que passou a ter de cumprir). Contudo, com a ajuda da mãe Park Mi-gyeong, o jovem acabou por encontrar saídas para as mais diversas dificuldades e hoje, inclusive, auxilia outros autistas a buscarem uma vida mais plena.

A vida do jovem esportista Bae Hyeong-jin serviu de inspiração para o filme e é uma lição de resiliência e esperança. Foto: The Chosun Ilbo
A vida do jovem esportista Bae Hyeong-jin serviu de inspiração para o filme e é uma lição de resiliência e esperança. Foto: The Chosun Ilbo

Kim Mi-sook interpreta a mãe dedicada de Cho-won, Kyeong-sook. A relação mãe e filho é bem explorada pelo diretor, trazendo as complexidades de uma jovem que tem de superar a frustração de ter um filho autista – inclusive à vontade de abandoná-lo por acreditar não estar apta a lidar com a situação. O desejo materno para que o filho torne-se um indivíduo independente e resoluto mistura-se muitas vezes com o sentimento de receio e constante limitações com que Kyeong precisa lidar. Entre elas estão o anular a si mesma e suas vontades particulares para dedicar-se quase que totalmente a Cho-won; acabar por dar menos atenção ao filho mais jovem e não deficiente Yun Jung-won (Baek Sung-hyun), que em diversos momentos ressente-se com a mãe e até o próprio irmão; além de ver o seu casamento com o pai dos meninos, vivido pela ator Ahn Nae-sang, aos poucos se deteriorar e acabar.

Kim Mi-sook interpreta a mãe dedicada Kyeong-sook. Foto: The Julie/Julia/Gisela Project
Kim Mi-sook interpreta a mãe dedicada Kyeong-sook. Foto: The Julie/Julia/Gisela Project
Baek Sung-hyun interpreta o papel do irmão mais novo de Cho-woo que precisa lidar com a falta de atenção da mãe e os cuidados redobrados que deve ter com o irmão. Foto: AsianWiki.
Baek Sung-hyun interpreta o papel do irmão mais novo de Cho-won que precisa lidar com a falta de atenção da mãe e os cuidados redobrados que deve ter com o irmão. Foto: AsianWiki.

Porém, uma coisa é certa: não há nada que uma mãe determinada e atenciosa não consiga. Ainda que Cho-won regularmente tivesse colapsos, morde a si mesmo e encontra muitas dificuldades para se comunicar com os outros, a mãe observadora acaba por perceber que o filho desenvolve ao longo dos anos um interesse especial por correr. Desta forma, ela contrata Jung-wook (Lee Ki-young), um maratonista que está servindo horas de serviço comunitário como professor de educação física por dirigir embriagado.

Lee Ki-young (E) vive o treinador Jung-wook que encontra no convívio com o autista e maratonista Cho-woo um novo propósito de vida. Foto: HanCinema.
Lee Ki-young (E) vive o treinador Jung-wook que encontra no convívio com o autista e maratonista Cho-won um novo propósito de vida. Foto: HanCinema.

Após várias recusas, ele aceita de má vontade a oferta de treinar Cho-won na maratona, mas vai demorar para compreender que a interação com o jovem autista pode proporcionar-lhe a chance de ter novos propósitos na vida. Como mencionado anteriormente trata-se de uma oportunidade não apenas para Chon-won que vai descobrindo e abrindo-se mais para o mundo, como também para os demais que interagem com ele reformularem suas vidas.

Ainda que alguns personagens como o próprio pai e o irmão pudessem ter uma presença mais efetiva, não permanecendo tão alheios e distantes do núcleo que se estabelece entre mãe, filho e treinador, suas curtas participações acabam promovendo um entendimento maior do contexto complicado desta família. Mas é a interação bastante íntima e intensa do trio de atores Cho Seung-woo, Kim Mi-sook e Lee Ki-young que carrega a dramaticidade, sem exageros, de todo o filme. Ela proporciona a sensação à plateia de estar em uma situação bastante real, ou melhor cotidiana, incitando uma intensa empatia por aqueles personagens.

A interação entre os atores Cho Seung-woo, Kim Mi-sook e Lee Ki-young promove ao filme a intensa carga dramática que necessita, mas sem exageros. Foto: AsianWiki.
A interação entre os atores Cho Seung-woo, Kim Mi-sook e
Lee Ki-young promove ao filme a intensa carga dramática que necessita, mas sem exageros. Foto: AsianWiki.

No entanto, o destaque maior vai para Cho Seung-woo que teve oportunidade de formular uma de suas melhores atuações, sendo muito premiado e consagrando a sua carreira, ao dar naturalidade à personalidade do jovem e carinhoso Chon-won. Em torno de 5 milhões de sul-coreanos prestigiaram “Maratona”, o quarto filme coreano mais assistido em 2005. Tal sucesso pode ser talvez explicado pelo sentimento de esperança e resiliência que esta obra é capaz de incutir no espectador, ao mostrar a capacidade que o ser humano tem para encontrar as mais diversas saídas aos piores obstáculos que a vida impõe.

Assista ao trailer do filme.


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