É possível que de todos os períodos da história humana, nenhum tenha sido tão cheio de paradoxos como o atual início do século XXI. À exemplo, temos diversos meios de comunicação, oportunidades infinitas de contato com o mundo, proporcionadas pela tecnologia, porém a falta de compreensão entre as pessoas chega a tantos extremos, que muitos acabam procurando o isolamento social.

O Japão atualmente tem uma população de 500 mil pessoas que vivem confinadas em suas casas, sem nunca colocar o pé para fora. São os chamados Hikikomori. A Coreia do Sul, assim como este país vizinho, também apresenta seus casos de auto confinamento domiciliar. Sem falar que como os japoneses, os sul-coreanos também estão incluídos na lista de nações com maior número de suicídios per capta.

Estamos falando de sociedades que estão na liderança da vanguarda tecnológica, que exigem nada menos que a perfeição e o máximo sucesso profissional e pessoal de seus cidadãos, sendo o fracasso uma alternativa para além de indesejável, impensável. Em outras palavras, é possível concluir que, apesar das diversas conquistas econômicas e sociais, em termos de relações humanas, eles ainda têm muito que avançar.

Castaway on the Moon”, dirigido por Lee Hae-jun, lançado em 2009, uma produção que contém múltiplos gêneros como romance, drama e comédia, apresenta uma crítica bem elaborada sobre a sociedade sul-coreana, em relação aos temas mencionados acima.

Kim (Jung Jae-young) é um cidadão que está à beira de um colapso. Desesperado e atolado em dívidas, ele decide acabar com a própria vida, saltando de uma ponte para afundar nas águas extremamente poluídas do rio Han. Contudo, a tentativa é malsucedida e ele acorda na ilhota de Bam, que intersecciona a grande capital Seul. Trata-se de um pequeno pedaço de terra, que muito provavelmente serve como reserva natural, em que ninguém vai, a não ser forçar policias e militares esporadicamente.

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Uma ilhota que está abandonada à própria sorte, com suas margens e interior contendo apenas o lixo e os dejetos da população local. Aqui temos uma perfeita descrição e analogia, realizadas apenas em imagens, sobre a forma como a sociedade enxerga pessoas como Kim. Ele e sua atual ilha têm muito em comum.

Nosso herói tenta voltar a Seul, em especial para pular de um prédio de 63 andares. Quem sabe nesta tentativa consiga ser bem-sucedido… mas ninguém vem em socorro, restando apenas a ele permanecer isolado e esperar socorro. Dia após dia, tentando sobreviver em meio ao lixo, a solidão de Kim vai promovendo nele uma verdadeira transformação interior que o leva a perceber algumas de suas qualidades e, assim o retorno do amor à vida e a vontade viver. Interessante notar que temos releituras cômicas de filmes hollywoodianos como “O Naufrago” e até “Piratas do Caribe”, no entanto todas incluídas em uma narrativa bastante contestadora, mas que também consegue entreter.

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No entanto, um fator maior contribui para as mudanças de atitude de Kim, a tentativa de uma moça, que também se chama Kim (Jung Ryeo-won) de se comunicar com ele, através de mensagens inseridas em garrafas que ela joga na ilha, visando com que ele as encontre. A garota em questão mora com os pais, não sai do seu quarto há três anos, dorme em meio ao lixo que acumula, trabalha pelo computador e cria perfis falsos de pessoas com vidas perfeitas nas redes socais.

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Mesmo que eles se encontrem em situações diferentes, a ideia de poderem contar apenas com eles próprios para vencer suas dificuldades psicológicas une este estranho casal. Contudo, há esperança e ela surgirá quando a menina se depara com este extraterrestre intrigante, como ela mesma o chama, durante as explorações que realiza a partir de sua janela, com uma câmera fotográfica. Ela observa atentamente o dia-a-dia dele. Desta situação, surge uma atração e uma admiração. O encontro improvável destes dois é a força central para satisfazer a curiosidade de ambos e a força impulsionadora para a menina “hikikomori” sair do seu quarto e finalmente buscar uma comunicação com este estranho.

Ela tem seus anseios correspondidos, quando Kim a responde escrevendo em letras enormes na areia. Por sua vez Kim, encontra nela um amigo, uma parceria, que ele pensa até ser um estrangeiro, já que estão conversando em inglês. A razão para continuar na ilha passa a ser a comunicação com este desconhecido, que mesmo ele nunca tendo visto pessoalmente, torna-se importante e querido para ele, provavelmente muito mais que qualquer outra pessoa que ele já conhecesse.

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Com o tempo a burocracia estatal descobre que Kim habita aquela ilhota e o expulsa de lá. Ele é levado por guardas civis até proximidades da capital e novamente é abandonado nas ruas. A menina que observa tudo cria coragem para ir encontra-lo, em especial em mais um dia de treinamento rotineiro para preparação em caso de um ataque do irmão do Norte.

Mais uma vez temos um paradoxo interessante, um país que é tão zeloso pela vida de seus cidadãos, querendo que todos possam estar preparados para uma possível guerra, que tenham uma chance de proteger suas vidas, ao mesmo tempo trata alguns destes “filhos” como uma embalagem de plástico que já não tem mais utilidade, abandonando-os à própria solidão e à própria sorte.

Com uma fotografia que tanto em luz, sombras e enquadramentos ajudam a descrever os sentimentos internos dos personagens, interpretações dignas de premiação e tiradas sarcásticas e cômicas, este filme é mais uma grande conquista do cinema sul-coreano e que nos proporciona risos, tristeza, sensações de desesperança e esperança. Um real paradoxo do século XXI.

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