Uma esposa (Jo Yoon-Hee) desconfia estar sendo traída pelo marido e acredita que a suposta amante é a nova secretária dele. Contudo, o filme “O Dia Depois”, de Hong Sang-soo, aclamado pela crítica internacional e no Festival de Cannes de 2017, que está atualmente sendo exibido em muitos cinemas do Brasil, apresenta uma questão muito atual, muito além da infidelidade conjugal: o assédio no ambiente de trabalho. Em grande parte, a maioria das mulheres, no Brasil e no mundo, sabe como este tipo de situação começa… Uma palavra um pouco, ou muito inconveniente no ambiente de trabalho, um toque em alguma parte do corpo, sem qualquer aviso prévio, ou permissão, uma curiosidade acentuada sobre suas vidas pessoais e etc. Tratam-se de situações sutis, indiretas, que ao longo do tempo podem tornarem-se mais sérias ou ficar naquela cantada mais básica.

Kim Bong-wan (Kwon Hae-hyo) e a esposa. Foto: Han Cinema
Kim Bong-wan (Kwon Hae-hyo) e a esposa. Foto: Han Cinema

Há quem vá dizer que o mundo atual está tornando as relações sociais, especialmente, entre homens e mulheres impossível, com tamanha “neura”, mas convenhamos: todo (a) cidadão (ã) que tem boas intenções com alguém, mesmo que tenha se apaixonado pela (o) colega de trabalho, algo comum de acontecer, irá agir de forma respeitosa e não predatória, não é mesmo? Não é o que ocorre entre o crítico literário e diretor de uma pequena editora de livros Kim Bong-wan (Kwon Hae-hyo) e sua nova secretária Song Ah-reum (Kim Min-hee, que também atuou no aclamado “A Criada”). Neste “par”, observamos uma típica relação de chefe e empregado, em que o primeiro parece acreditar que tem direitos maiores sob o segundo, simplesmente por este ser seu subalterno. Ele faz perguntas íntimas sobre a família dela, depois a convida para jantar, parece bem pouco interessado sobre suas as aptidões profissionais.

Certamente, alguns irão comentar que na cultura asiática a linha entre vida profissional e pessoal muitas vezes não é bem estabelecida, tendo o empregador certo direito de saber mais detalhes que vão além do ambiente de trabalho de seus empregados. Algo digamos cultural. Outros argumentarão que é difícil separar o profissional da sua vida pessoal. Contudo, o que o diretor Hong Sang-soo parece querer é justamente promover uma reflexão sobre tal condição em até quando esta atitude não é mais uma forma de exploração e assédio daquele que retém maior poder na empresa sobre os demais. Porém, o mais irônico é que o próprio diretor, que é um homem casado, teve um caso com a atriz Kim Min-hee, durante as filmagens, algo que foi considerado um escândalo pelo público coreano. Porém neste caso específico ambos declararam estar apaixonados.

 

Enfim, fica a máxima de que: as relações entre chefe e empregado ainda continuam a estabelecer uma linha bastante tênue entre relação profissional e comportamento abusivo no ambiente de trabalho, em razão de vícios éticos e morais bastante conservadores que ainda se perpetuam na geração atual. Em grande parte, está nas mãos do trabalhador a primazia (o poder) de delinear limites, mesmo que, muitas vezes, isso signifique pedir demissão.

Song Ah-reum é uma mulher bastante culta e religiosa. Este último fato, não a faz submissa de forma alguma, ela em vários momentos acaba por enfrentar o próprio chefe e sua esposa que vai até a editora e bate nela, achando que a secretaria seria a autora de um bilhete amoroso para o marido. Ela ainda confronta a verdadeira amante do chefe, Lee Chang-sook (Saebyuk Kim) e coloca ambos em situação embaraçosa, onde ele passa quase a ter de admitir, de certa forma, sua tentativa de fazê-la continuar a trabalhar para ele, mesmo sob as desconfianças da esposa. A amante, por sua vez, fora também sua secretária um dia. No entanto, após começarem um caso, ela caba abandonando o emprego, mas deseja voltar a ocupar o seu cargo para ficar próxima dele.

O chefe e a verdadeira amante
O chefe e a verdadeira amante Lee Chang-sook (Saebyuk Kim). Foto: Han Cinema

Temos o típico caso de um homem insaciável que acaba enredado na própria teia que estabelece para suas “presas”, tendo grande possibilidade de ser “devorado” por elas. Afinal, ele, no fundo, quer todas: sua conjugue, sua amante e porque não, sua mais nova secretária… Contudo, esta figura masculina é mais um perdido em sua existência medíocre, mesmo que ele pense ao contrário. Ele parece não saber para quê e para quem vive, nem a filha o chefe lhe parece realmente atribuir verdadeira importância, quem diria as mulheres com quem namora e trabalha…

A maestria desta produção cinematográfica está na forma como o diretor acabou por abordar um tema que normalmente é representado de maneira mais escrachada e caricata. Com exceção da mulher do editor, não temos mais cenas de agressão física, ou de assédio digamos explicito, mas sim a sutileza que está nas palavras e na forma de agir de ambos os personagens. A câmera é outro elemento importante, ela parece participar da conversa, como se fosse uma testemunha anônima, que, no caso, seriamos nós, espectadores que assistimos à cena, sabemos que há algo errado ocorrendo, mas nos limitamos apenas a observar.

Tal condição seria por receio de nós intrometermos e confrontarmos nossos chefes, ou seria por puro prazer mesmo de ver um (a) colega em situação tão humilhante? Estaria em silêncio esperando ver que tipo de reação a pessoa que é assediada terá? Provavelmente todas estas possibilidades poderiam ser consideradas. A questão importante é que muitas vezes assistimos tais abusos e os encaramos como se fossem parte do nosso dia-a-dia, por diversos motivos: talvez por acreditarmos sermos impotentes para fazer alguma coisa, ou por acreditarmos que se trata de algo normal, ou simplesmente por não ser nosso problema.

Kim Bong-wan (Kwon Hae-hyo) e sua nova secretária Song Ah-reum (Kim Min-hee). Foto: Han Cinema
Kim Bong-wan (Kwon Hae-hyo) e sua nova secretária Song Ah-reum (Kim Min-hee). Foto: Han Cinema

As interpretações de grandes nomes do cinema coreano trazem a sutileza e a carga emocional em momentos precisos, construindo uma atmosfera envolvente que nos convida a observar e refletir sobre os conflitos destes personagens. A música e a fotografia preto e branco, utilizadas para construir precisamente um ambiente soturno que acaba sendo a vida destes indivíduos, lembram muitos filmes clássicos da Nouvelle Vague francesa, movimento cinematográfico que visava contestar os padrões de fazer cinema impostos pela cinematografia comercial e que acreditava ser um filme mais que um produto, mas uma forma artística que deve levar o público a refletir a sociedade e seus costumes.

Neste caso Hong Sang-soo, não está necessariamente contestando a forma de fazer um filme, mas a sociedade tradicional e religiosa coreana, sempre cheia de regras e normas, mas que, por baixo dos panos, comete todos os tipos de pecados e abusos, seja de forma mais explicita, seja de forma menos perceptível. Não há dúvida que não apenas a Coreia, mas o mundo todo parece querer impor regras que não segue e está pouco inclinado a respeitar, em especial, os que obtém menos poder, a trata-los de forma digna e humana, como merecem.

Trailer:


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome.