O maior inimigo do ser humano é a sua estupidez. Esta é uma das conclusões a que se pode chegar ao assistir “Pandora” (2016), do diretor Park Jung-woo. A atual preocupação com uma possível guerra mundial nuclear é uma demonstração da incapacidade do homem de focar sua atenção para perigos reais, que ele, possivelmente, nem suspeita que podem custar-lhe a vida – como a explosão do reator de uma usina nuclear.

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Lembro de um professor de Relações Internacionais argumentando em sala de aula sobre a questão norte-coreana; ele sempre salientava: “governos não tomam medidas que podem levar a uma auto eliminação”! Realmente, por trás da criação e utilização de bombas nucleares há sempre muita inteligência e estratégia militar envolvida, já em uma usina nuclear, não!

A Coreia do Sul é um dos países que mais utiliza este tipo de energia. São 24 plantas nucleares, distribuídas em nove cidades, ao longo de 28 condados. A maioria delas localiza-se ao sul do país, região mais vulnerável a terremotos. A história é repleta de grandes catástrofes nucleares que ocorreram em diferentes países, em decorrência da incompetência governamental e empresarial. Após o último acontecimento em Fukushima no Japão, a população sul-coreana tornou-se mais sensível ao tema, pressionando suas autoridades a não expandir mais a construção de novas instalações nucleares, o que tem sido ignorado até o momento. “Pandora” é um filme de protesto e tenta em 136 minutos deixar claro ao espectador o quadro infernal de uma catástrofe, muito possível de ocorrer, pois depende apenas da negligência humana para eclodir.

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Junto ao tema central de denúncia temos outras questões vinculadas que são bem desenvolvidas durante toda a trama. Jae-Hyeok (Kim Nam-Gil) vive com sua mãe (Kim Young-Ae), sua cunhada (Moon Jeong-Hee) e o sobrinho Min-Jae (Bae Gang-Yoo) em uma pequena cidade coreana. Ele, no início, parece mais um destes rapazes preguiçosos que ainda vivem com a mãe e parece não ter rumo. Enquanto ainda pensa no que fará da vida, segue trabalhando na mesma usina que seu pai e irmão morreram em um acidente passado.

Ele namora Yeon-Joo (Kim Joo-Hyun), uma mulher forte, que o ama realmente, atua pelo bem de todos e que deseja, um dia, casar-se com ele. Contudo, Jae-Hyeok almeja trabalhar em um barco de pesca e viajar para outras partes do mundo como a América do Sul e o Alaska. Porém, seu sonho é constantemente limitado por Yeon-Joo e a mãe que não desejam vê-lo afastado da família. Afinal, em uma cultura ainda muito patriarcal como a coreana, a presença de uma figura masculina que comande e cuide de tudo e de todos ainda se faz essencial. Não há muita liberdade para o jovem, que tenta a todo custo largar o trabalho na usina nuclear.

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Ele tenta ter um negócio em outra cidade, mas acaba falindo, tendo de retornar ao perigoso trabalho para pagar suas dívidas. A mãe é uma personagem bastante autoritária e teimosa, controlando a vida de todos, inclusive da cunhada que tenta dialogar com ela e fazê-la aceitar que Jae-Hyeok vá para o exterior. Contudo, ela é repreendida automaticamente pela matriarca. A figura materna aqui, apesar de autoritária, apresenta uma fragilidade passiva em suas ações, comprometendo a vida de toda a família.

Mesmo tendo perdido o marido e o filho em um acidente nuclear passado, ela não se opõe que o filho continue trabalhando no mesmo local; ela ainda permanece residindo na mesma cidade, próxima à usina. Aqui há uma crítica muito interessante a alta hierarquização da sociedade coreana e às regras de vida em família, que limitam, e muitas vezes acabam, com sonhos e atuações da juventude, impedindo que estes possam servir positivamente ao país. Também remete a crítica do poder que grandes empresas detêm sobre a vida dos moradores de pequenas cidades, sendo elas a única fonte de trabalho e renda para a população local.

Esta mesma situação é representada pelo presidente do país (Kim Myung-Min), um homem jovem que é constantemente podado pelo primeiro-ministro, mais velho e, portanto, provavelmente, mais “experiente”. Ocorre que após o terremoto que atinge a cidade, e a crise gerada pelo vazamento do reservatório de água, que impele o superaquecimento do reator nuclear e, consequentemente, sua explosão, ninguém parece ter qualquer preparo, ou experiência para lidar com uma catástrofe dessas.

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E é exatamente isso que o filme nos mostra. As autoridades ignoraram todos os avisos dos técnicos como Pyung-Sub (Jung Jin-Young), diretor na usina e depois, chefe da equipe de resgate e ao apelo de ativistas como Nam (Kim Se-dong). Assim, vários erros são cometidos desde indicar para cargos de chefia pessoas despreparadas, sem conhecimento sobre o assunto, até a problemas existentes na estrutura da planta nuclear que possam levar a um acidente.

Não há também plano de proteção, de evacuação dos residentes. Nem tempo para avaliar melhor a condição da usina foi dado a Pyung-Sub. Até certo momento da catástrofe, empresários e autoridades ficam mais preocupados com os custos de tomar medidas necessárias, ou o que elas representariam para suas carreiras.

Após a explosão, as autoridades ainda tentam limitar o acesso à informação do problema, mas os residentes, em cooperação com a mídia, logo esclarecem os fatos à nação, criando um pânico geral. Por fim, sobrará ao técnico e aos trabalhadores como Jae-Hyeok sacrificarem as próprias vidas para evitar um desastre maior.

Diferentemente de Hollywood, Park Jung-woo não está preocupado com o conforto do espectador. Não há um momento cômico, ou de relax, durante todo o filme. São 136 minutos de total tensão, com cenas repletas de momentos dramáticos e de efeitos especiais bem construídos, que auxiliam no estado de alerta que se quer provocar na plateia. Também é uma narrativa que não contempla heróis, nela há apenas vilões e vítimas. O herói Jae-Hyeok é um típico explorado pelo sistema e pela sociedade, tendo suas oportunidades limitadas desde sempre.

Na cena final, que ele vai explodir o reservatório de água para deixar que as salas abaixo do tanque permaneçam inundadas e esfriem o reator, já que foi impossível conter o vazamento daquele, o jovem herói deixa uma mensagem de despedida aos familiares: desculpando-se por cumprir com suas promessas e que eles lembrassem: ainda que fosse um perdedor, ele não fora um covarde!

A vida pode ser realmente uma droga”, diz o jovem antes de morrer. As palavras do personagem são uma clara punição aos diversos vilões, entre eles sua mãe, e uma mensagem geral de que esta questão não era para ser tratada de forma leviana. Como uma crítica da revista Variety, Maggie Lee, escreveu: “Pandora” é um filme que nenhum dos maiores diretores japoneses ousariam fazer. Isso ocorre em decorrência do tema causar pânico a uma nação que tem em sua história um horrível ataque nuclear e centenas de acidentes sísmicos que provocaram crises, entre elas a de Fukushima.

Por fim, “Pandora” também deixa implícito aos ativistas ecológicos, que mesmo sendo o aquecimento global uma ameaça, energias limpas como a nuclear, não podem ser a resposta, ou a substituição definitiva ao petróleo, o carvão, ou o gás.

No entanto, a palavra “Pandora”, vem da mitologia grega. Era um artefato que foi dado a primeira mulher criada por Zeus, Pandora. Ela abre o jarro e deixa todos os males do mundo contidos nele saírem, com exceção da esperança. Um lição terrível foi dada à  família de Jae-Hyeok, assim como às autoridades. Nisso está a esperança que se aprenda e ensine às futuras gerações sobre os perigos da energia nuclear e os cuidados que se deve ter com ela.

Desta forma, espera-se que, no futuro, a esperança não tenha de ser depositada em um jovem trabalhador, que precisa sacrificar sua vida para solucionar um problema, criado pela da falta de humanidade e coletivismo de seus compatriotas.

Este filme encontra-se disponível no Netflix.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



5 COMENTÁRIOS

  1. Acabei de assistir e confesso que estou chocado, não por não saber que um desastre nuclear seja algo extremamente sério, mas pela forma como Pandora o retrata em detalhes que eu jamais poderia supor.

  2. Filme muito bem feito, dos atores à fotografia, comecei assistir por acaso apenas encontrei na Netflix e fiquei curioso, nem imaginava que se tratava de um filme tão emocionante, tão bom!
    Merece Oscar!!!

  3. Filme excelente. Que não é uma ficção, uma realidade fatal que já aconteceu e que possívelmente voltará a acontecer se os governos gananciosos não terem a mínima dignidade deparar de construir usinas nucleares.

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