“The Crucible”, após seis anos de seu lançamento, consolida-se na história do cinema sul-coreano como um exemplo do poder transformador do cinema.

O fator comercial, que sempre ocupou grande espaço no mercado cinematográfico, ganha dimensões maiores atualmente com o adendo da tecnologia e o efeito de emoções que ela pode provocar. Ao primeiro olhar, a ideologia e contestação a questões sociais parecem ter perdido a batalha para o entretenimento. Contudo, em uma observação mais atenta vê-se que elas, na realidade, não desaparecem, nem parecem perder público – elas apenas são transmitidas em formas diferentes, adaptando-se aos valores das gerações de determinada época.

Por exemplo, em produções como “Invasão Zumbi”, dirigido por Yeon Sang-ho, os mortos-vivos não passam de uma fachada para uma dura crítica aos valores individualistas da sociedade do século XXI. Sociedade esta que parece ter fortes tendências com tal conduta a um auto-extermínio. Entretanto, não é necessário um filme apresentar cenas de ação, ou destruição que requerem um efeito tecnológico mais aprimorado, basta que a narrativa e a filmagem sejam elaboradas de tal forma que acabem, sem apelações, por tocar, ou impactar o público. Assim, temas delicados como a exploração sexual de crianças, quando são retratados de forma tão direta, sem eufemismos, como no filme “Crucible” (Silêncio), dirigido por Hwang Dong-Hyuk e lançado em 2011 podem causar uma reação social massiva em cadeia como assim correu naquele ano.

THE CRUCIBLE 1

Falar sobre esta produção cinematográfica especificamente, contribui para melhor analisar a influência que o cinema pode ter em reais transformações da realidade social. Ela foi estrelada por um dos atores mais conhecidos do jovem público e que aos poucos se firma como um dos grandes nomes da atuação do cinema coreano, o ator Kong Ji-cheol, ou apenas Kong Yoo. Em 2016, ele ampliou o número de adeptos a seguirem seu trabalho, protagonizando “Invasão Zumbi” – exibido em Cannes, bateu o recorde de bilheteria e conquistou a crítica de cinema na Coreia e em outros países, inclusive fora do continente asiático – além de “A Era da Escuridão” e o dorama “Goblin”, ambos trabalhos que conquistaram espectadores e a mídia especializada.

Kong Yoo. Foto: Drama Fever
Kong Yoo. Foto: Drama Fever

Durante dois anos em que cumpria o serviço militar obrigatório a todos os homens na Coreia, o ator ganhou de um superior um romance escrito por Kong Ji-Young, publicado em 2009.  A escritora coreana, conhecida por abordar temas polêmicos e por sua linha feminista, denuncia nesta obra, o abuso sexual dos diretores de uma escola para crianças com deficiência auditiva em Gwangju Inhwa. O diretor Hwang Dong-Hyuk fez a adaptação para o cinema, que modificou muito pouco a trama, deixando o filme muito próximo ao romance. Na história, Kang In-Ho (Gong Yoo), instala-se em Mujin (uma cidade fictícia), onde é aceito como professor em uma escola para deficientes auditivos. No caminho para o trabalho, ocorre um acidente que o faz levar seu carro para uma oficina de automóveis. No local, ele conhece Yoo-Jin (Jung Yu-Mi), uma funcionaria do centro de Diretos Humanos de Mujin que será sua parceira em levar a público o caso das crianças.

Já na escola, In-Ho estranha o comportamento e os machucados nos corpos de alguns alunos. Ele chega, por acidente, a testemunhar  o superintendente do dormitório batendo em um estudante, chamado Yeon-Doo. Ele também fica sabendo de casos passados, como o de um menino que é atingido e morto por um trem e de uma jovem que se mata, pulando de um penhasco. Logo fica claro que os estudantes (meninos e meninas) estão sendo abusados pelos diretores (Gwang Jang) – gêmeos idênticos, membros poderosos e altamente respeitados da comunidade – um chefe administrativo e o superintendente do dormitório.

In-Ho tenta levar o caso à polícia, mas encontra resistência por parte dos policiais corruptos, médicos e outros líderes empresariais. Com a ajuda de Yoo-jin, o caso vai a tribunal, mas os advogados de defesa tentam ainda desacreditar In-Ho, as crianças e outras testemunhas, fazendo com que seus depoimentos não sejam validados – às vezes por serem eles crianças e, por conseguinte, com tendências a fértil imaginação –  afinal quem suspeitaria de figuras tão respeitadas pela população… Por fim, a escola chega a um acordo com os pais das crianças que aceitam manter silencio em troca de dinheiro.  No final, os três acusados são condenados à liberdade condicional e retornam à escola.

Foto: Tistory
Foto: Tistory

“The Crucible” não deixa em momento algum o espectador respirar. As cenas de abusos cometidos são praticamente explícitas, desde os espancamentos às tentativas de atos sexuais, às crianças tendo seus corpos acariciados pelo superintendente. Desta forma, o diretor e todos envolvidos deixam suas intenções bem claras ao mostrar ao público exatamente o que aconteceu e o tamanho da injustiça cometida. Os atores mirins são de impressionar e o filme, apesar de contar com Kong Yoo, teve maior impacto em decorrência da atuação impecável das crianças.  Talvez seja esta a razão pela qual o filme levou a uma pressão da sociedade coreana para reabertura do caso e condenação dos envolvidos, chegando ao parlamento que fortaleceu a lei contra tais abusos praticados com menores.

Foto: Tistory
Foto: Tistory

Kong yoo está impecável como um homem desprovido de qualquer poder, fracassado na vida, humilhado pela mãe, por seu passado e agora pela população local que não credita nele. A cena em que ele assiste ao espancamento do aluno, mas não reage é especialmente perturbadora, faz com que se comece a julgá-lo também pela sua passividade e duvidar de sua conduta. O interessante é que o herói, o professor que tenta levar a público o caso, não é uma pessoa fora de qualquer suspeita. Assim se tem uma conotação mais humana do personagem, como uma pessoa real, com suas imperfeições, o que o público, em especial o ocidental, demora a digerir, já que está acostumado com a dicotomia bem contra o mal, heróis que são indivíduos bons e sem qualquer defeito, ou seja, irreais.

Filmes como este são o exemplo da capacidade transformadora que o cinema pode ter tanto há longo, quanto há curto, ou médio prazo. E não é apenas na Coreia do Sul que se observa esta tendência universal da sétima arte, sem falar que ela vem de muitos anos, desde a sua criação no final do século XIX. Para muitos especialistas em estudos do cinema e outros acadêmicos de áreas que englobam a sociologia, ciência política, filosofia, história e etc, o cinema é, de uma forma geral, considerado uma ferramenta de transformação social. Um dos mais clássicos exemplos foi Sergei Eisenstein, diretor soviético de extrema importância, que incorporou em seus filmes a luta da classe operária, arcabouço da ideologia socialista soviética.

Para ele, o cinema é um instrumento de reconstrução do modo de vida e de tomada de consciência do povo. O movimento neorrealista italiano, que ocorreu logo depois da Segunda Guerra Mundial, em uma Itália devastada pela guerra e que objetivava libertar-se inteiramente do Fascismo, buscou apresentar a realidade social, econômica e política da época, utilizando técnicas documentais na ficção que aproximariam a narrativa da realidade.

Mais tarde, alguns dos grandes autores cinematográficos inspiraram-se nesta vertente para criar um estilo único, a exemplo de Federico Fellini. Este afirmaria sempre que a vida cotidiana é a força motriz para a criatividade. Toda a produção artística existe em contraposição a realidade atual: é uma oposição à polícia, à Igreja, ao sistema moral, ao sistema político-econômico e etc.

Certamente, “The Crucible” faz uma crítica e uma denúncia mais pontuais que outros filmes, contudo está incluído em um contexto maior que nos leva a refletir sobre os constantes abusos que cometemos com aqueles mais frágeis e também o quanto a natureza humana, diferentemente do que se pensa, pode ser violenta e cruel. O silêncio dos parentes, especificamente, da avó de uma das crianças, em troca de dinheiro é o exemplo maior o quanto a estrutura social pode corromper o indivíduo comum e fazê-lo compactuar com situações terríveis, tornando-se ele o maior monstro da história.


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