Foto: Han Cinema.

Por traz de um lindo rosto, às vezes, esconde-se o pior dos monstros. Não é à toa, e o leitor pode ter, infelizmente, passado por tal experiência de um dia estar perante pessoas com semblante e personalidade simpáticas, mas que posteriormente demonstram uma figura complemente contrária à primeira imagem demonstrada. São as tais máscaras sociais, que todos, por diversos motivos, acabam utilizando, em uma sociedade que exige a honestidade, mas que na realidade, não a coloca em prática. Quando se pega esta analogia e a coloca nos planos dos países e governos é possível inferir que a lógica é a mesma.

Por traz de um discurso bonito, potencialmente nacionalista, que incute elementos heróicos do tipo sacrifício pela pátria, pelo bem-comum dos compatriotas e do país em geral, escondem-se os criminosos e seus atos mais vis. A história da Coreia do Sul e de seu desenvolvimento econômico pode ter suas peculiaridades como ocorre a todos os países, mas na essência ela segue a mesma cartilha de todos: a exploração do próximo, inclusive de suas carências e desejos, visando lucro e poder. Trata-se de uma característica comum a todas as nações, em especial a grande maioria delas que se encontra submersa em um sistema político, econômico e social, cujo valor maior é a obtenção de riqueza e, consequentemente, poder.

Neste contexto, surgem os anti-heróis tão em voga atualmente nas produções cinematográficas, mas que são reais e resultado também deste próprio sistema. Uma consequência que se almeja esconder, ou até esquecer que existe. Se uma coisa é certa neste cenário, é que a estrutura de poder estabelecida atualmente em países com economia de mercado capitalista realiza uma intersecção entre o mundo legal e o ilegal. Na realidade, eles são vinculados um ao outro e praticamente dependem um do outro para que suas engrenagens mantenham-se sempre funcionando de forma a atuar favoravelmente aos que se encontram no topo da pirâmide. Em outras palavras, não há desenvolvimento nacional, sem jogo sujo.

 

Song Kang-Ho vive um dos maiores traficantes da Coreia do Sul em “The Drug King”. Foto: IMDb.

Talvez esta frase faça uma síntese de diversas questões importantes que o “Rei das Drogas”, ou em inglês “The Drug King” explora. Esta é uma produção sul-coreana original da Netflix, dirigida por Woo Min-ho e lançada no final de 2018, mas que só agora chega a “filial” brasileira da famosa empresa de streaming. Ambientada em Busan, durante a década de 1970, Lee Doo-Sam (Song Kang-ho) trabalha para um grupo que se envolve no contrabando de itens caros como ouro e relógios. Após a repressão do governo, ele acaba na prisão, sendo o bode expiatório de seu chefe e toda a quadrilha. No entanto, através de sua rede de contatos e com alguma propina e outras articulações consegue ser solto. É quando o persogem principal entra para o recente negócio de fabricação e distribuição de metanfetamina (speed como é vulgarmente tratada no filme), principalmente entre Coreia e Japão.

Em uma festa, ele se encontra com o lobista Kim Jung-A (Bae Doo-na) que tem conexões com pessoas poderosas. A parceria entre os dois leva a criação de um dos maiores carteis de drogas na Ásia, mas que se encontra ameaçado com as fragilidades psicológicas de Lee Doo-Sam, que acaba justamente viciado em metanfetamina. Enquanto isso, o promotor Kim In-goo (Cho Jung-seok) é transferido para o Gabinete dos Procuradores de Busan. Seu trabalho na organização acaba com que ele tenha o contato com um caso de drogas, levando-o diretamente a Lee Doo-Sam e aos poderosos que receberam subornos dele.

Cena do filme “The Drug King”. Foto: CompucaliTV.

Inspirado em fatos reais, o filme de Woo Min-ho tem muitas semelhanças com a produção norte-americana “O Gângster” (2007), dirigido por Ridley Scott, que fala sobre a ascensão de um negro ao topo do comando do tráfico de drogas nos Estados Unidos, um história também baseada em fatos reais. Com atuações poderosas de atores do calibre Song Kang-ho, “O Rei das Drogas” em nada deixa a desejar neste quesito. Song Kang-ho parece bastante natural na pele de um cidadão comum, parte da classe trabalhadora e explorada, que almeja sair de tal condição a qualquer custo.

Mais do que deixar de ser apenas pobre, ele almeja ter o poder e a riqueza para nunca mais ser pisoteado e controlado por ninguém. Contudo, suas fragilidades emocionais e até psicológicas, no dilema entre ser um cidadão que mata, mas depois parece ter muito remorso de seu feito, ou de um individuo que fica dividido entre o sentimento quase incontido de enriquecer de qualquer forma, à culpa de fazer com que seus compatriotas acabem consumidos pelo uso abusivo de entorpecentes, levando a longo prazo à ruína de seu país. Como ele próprio salienta em diversas passagens “o ópio destruiu a Dinastia Qing na China, o ‘speed’ iria acabar com o Japão”.

Cena do filme “The Drug King”. Foto: desencaixados.

A droga criada pelos japoneses durante a Guerra do Pacífico diminui o sono e incita coragem na pessoa que a consome. Como em todos os conflitos armados, entorpecentes como este são utilizados como ferramenta por líderes de governos, empresas e exércitos para seus subordinados atingirem o objetivo que almejam. Os soldados japoneses no front não temeriam o inimigo ao ingerir a droga, os kamikazes, por exemplo, foram os primeiros a terem acesso a elas. Nos bastidores, os trabalhadores que fabricam armas não têm sono e pdoeriam continuar o trabalho necessário sem pausa. Obviamente, em um filme como este, repleto de simbolismos, a metanfetamina é indicação de uma ferramenta utilizada pelo sistema para entorpecer os mais humildes e explorados, no intuito de espremer toda a quantidade de trabalho necessário deles para gerar lucro, ou no caso da Coreia, o seu desenvolvimento econômico, ocorrido em tão pouco tempo.

Apesar de “Rei das Drogas” obter alguns problemas, na visão desta autora, como personagens e enredos secundários que poderiam ser melhor desenvolvidos, inclusive o persongem antíse Kim In-goo, o mocinho, que parece cair de paraquedas na história, o filme ainda é importante justamente pelas questões que levanta já citadas acima e mais outras duas: a relação entre Coreia do Norte e do Sul e a delicada questão histórica entre japoneses e coreanos. Sim, estas duas temáticas encontram-se simbolicamente representadas e levantam questionamentos importantes. Ao chegar ao Japão, o chefe da Yakuza (Yoon Je-Moon), máfia lendária japonesa, com quem Lee Doo-sam estabelece parceria, é, por ironia do destino, um norte-coreano. O aspirante a narcotraficante sul-coreana, logo invoca a questão nacional, de reunificação e de que eles pertencenceriam, na realidade a mesma família, no intuito, claro, de fazer negócios. A parceria ocorre e ambos se ajudam mutuamente. Contudo, em diversos momentos, o norte-coreano expressa a falta de lealdade possível de ocorrer da parte de Lee Doo-sam, o que para mais ao final acaba acontecendo.

Cena do filme “The Drug King”. Foto: Han Cinema.

É bastante intrigante como aqui implicitamente o também roteirista Woo Min-ho acaba fazendo uma crítica a elite sul-coreana tão volúvel quanto à questão da reunificação. O que parece deixar nas entrelinhas que para esta elite, a reunificação parece mais uma oportunidade de negócio e exploração econômica do que qualquer outra coisa. A mais temos a questão coreano-japonesa. A Yakuza foi responsável pelo financiamento de várias entidades governamentais, em diversas áreas que vão da cultura ao comércio, assim como financiou o próprio governo japonês. A elite da Coreia do Sul que tanto despreza e acusa o Japão de suas atitudes imperialistas e exploradoras parece não ter tido qualquer problema em absorver este modelo e também promover atitudes semelhantes, quando assim lhe é permitido fazer.

No fim, não se trata apenas de sul-coreanos, ou japoneses, ou até norte-americanos que aparecem também simbolicamente como referencia nas músicas e na cultura do consumo de drogas tão característico da décadas de 1970. E sim de um sistema cuja base raíz é promover desenvolvimento e mobilidade social pelos meios mais duros e agressivos possíveis. Por este e outros motivos, “O Rei das Drogas” é uma recomendação fílmica a todos que almejam entreter-se e refletir ao mesmo tempo.


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