Okja”, do diretor coreano Joon-Ho Bong, acabou obtendo grande repercussão, pelo debate que a Netflix incitou no Festival de Cannes deste ano, ao insistir que o filme tivesse sua estreia na plataforma streaming, ao invés das salas de cinema, provocando a ira dos cinéfilos e da diretoria do próprio evento. Talvez seja mais por esta razão que a produção tenha sido recebida com certa frieza no que é considerado o maior Festival de Cinema do mundo. Mas, independentemente de polêmicas e outras controvérsias alheias ao filme, vamos tentar aqui analisar “Okja” pelo seu conteúdo.

O diretor Joon-Ho Bong e o elenco do filme, no Festival de Cannes. Foto: Just Dared
O diretor Joon-Ho Bong e o elenco do filme, no Festival de Cannes. Foto: Just Dared

Na Nova York de 2007, Lucy Mirando (Tilda Swinton) é a diretora de uma poderosa empresa de alimentos que introduz ao mundo seu mais novo projeto que, segundo ela, visa revolucionar a forma de produzir carne. Assim, ela conta que uma nova espécie animal foi descoberta no Chile, uma espécie de “super porco”, que é trazida aos EUA e tratada em laboratório. Posteriormente, 26 animais são enviados para países distintos, no intuito de que possam ser criados por pequenos fazendeiros, responsáveis por adaptá-los à sua cultura local. Os animais permanecerão nos respectivos países por 10 anos e, ao término deste período, participarão de um concurso que escolherá o melhor “super porco”.

Essa mulher acredita ter uma personalidade diferente de seu pai e sua irmã, que ela considera definitivos carrascos. Ela se preocupa com o bem-estar dos animais, assim como com a qualidade do produto que quer oferecer, sendo mais eco sustentável.

Durante este tempo, na Coreia do Sul, a jovem Mija (Seo-Hyun Ahn), que vive com o avô, estabelece um laço de amizade e afeto muito forte com a porca Okja. Após perdê-la por ocasião da chegada do concurso, Mija quer recuperá-la e vai contar com a ajuda de ativistas/amantes de animais para trazê-la de volta para as montanhas.

Aos fãs da filmografia de Joon-Ho Bong, que assinou “Mother”, “Tokyo”, “Expresso do Amanhã”, “O Hospedeiro” e “Memórias de um Assassino”, esta produção da Netflix pode deixar um pouco a desejar, porque apresenta um formato de filme de “Sessão da Tarde”, feito para a família, ao mesmo tempo, que tem a intenção de ser um filme de denúncia. Como mistura estes dois extremos, o filme acaba caindo no comum, tornando-se, na realidade, mais superficial do que pretende ser. Trata-se realmente de uma mudança significativa, principalmente  para quem estava acostumado a ter reflexões sobre a condição humana e suas ações em sociedade tão complexas e profundas nos trabalhos anteriores do diretor, citados acima.

No entanto, se formos pensar no quadro geral do mercado de distribuição e exibição cinematográfica mundial, podemos notar que “Okja” tem um forte apelo, já que filmes com um formato para a família, que apresentam em si um debate em torno de discussões consideradas importantes, atingem um público mais amplo. A atuação das grandes corporações alimentícias mundiais e o debate em torno da sustentabilidade e do convívio harmônico entre homem e natureza já são características do início do século XXI e, certamente, estarão nos livros de história futuros.

Muitas questões delicadas são apresentadas: transgênicos, o poder de multinacionais, o ávido consumo de carne da população mundial, as ambições do ser humano, que muitas vezes se sobrepõe aos seus ideais, e o falso politicamente correto – este último sendo a denúncia principal que permeia toda a trama.

Atualmente, as grandes corporações buscam introduzir na sua estratégia de marketing uma visão de respeito à natureza, à sustentabilidade, buscando adequarem-se às novas exigências de seus consumidores. Estes, por conseguinte, almejam adquirir um alimento mais natural e que tenha menos impacto ambiental.

Contudo, a estrutura de mercado e o sistema econômico não condizem com este desejo, permanecendo a ideia de que o business e, acima de tudo, o lucro, são os objetivos principais, sob o ponto de vista das grandes empresas alimentícias. Já para o cidadão comum, de uma forma geral, na prática, pouco importa a proveniência do alimento.

Nesta questão, Joon-Ho Bong acerta ao deixar muito claro a culpa tanto das corporações empresariais, quanto dos consumidores, afinal, tudo não passa de um politicamente correto que não se sustenta na vida cotidiana de cada cidadão.

Isso fica particularmente claro na personagem da irmã gêmea  de Lucy, Nadia (feita pela própria Tilda Swinton) que, após retomar o poder da indústria e derrotar Lucy, afirma sem rodeios (não exatamente nestas palavras) que preços acessíveis é o que o público realmente deseja. Que comida barata e qualidade (diga-se bom sabor) é o que vende. Que sendo assim, o lucro estará garantido.

A própria jovem Mija consegue impedir que Okja seja morta ao negociá-la por um porco de ouro. Mija não é uma super-heroína, pois ela não salva o mundo. Apenas a sua Okja.

Assim, a questão é jogada ao espectador: você deve refletir sobre seus hábitos alimentares. Porém, como Mija acaba por recuperar seu animal de estimação, a força de tal denuncia pode perder-se ao final, resultando em uma simples equação fácil para quem está assistindo – existem animais com os quais temos vínculos afetivos e existem àqueles outros que são destinados ao abate, ainda que a cena de Mija e Okja deixando o matadouro, enquanto outras tantas Okjas são mortas, seja bastante forte para um filme “família” e pontue bem esta colocação do diretor.

Foto: Netflix
Foto: Netflix

Nesta matemática, temas importantes como alimentos e animais geneticamente modificados e o poder de manipulação das empresas em parceria com a grande mídia, acabam ficando em segundo plano, mesmo com a atuação sempre marcante de Jake Gyllenhaal que vive “Johnny Wilcox”, uma figura produto do marketing midiático que corrompe seus ideais em busca da fama.

Diferentemente, dos ativistas “K” (Steven Yeun) e “Jay” (Paul Dano) que, apesar de um ou outro deslize que possam vir a cometer, estão mais para figuras santas que jamais deixaram de lutar por suas causas, enquanto Wilcox sofre a punição que se espera de um vilão, promovendo a catarse necessária ao grande público, enfraquecendo o tom de denúncia.

“Okja” têm momentos interessantes e que compensam assisti-lo, mas Joon-Ho Bong já impressionou muito mais.

Foto: Netflix
Foto: Netflix

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