Klaus, Sid e Sérgio, os protagonistas de Seoul Searching

Histórias de imigrantes que deixam seus países para depois retornarem existem em várias cinematografias nacionais. Normalmente elas abordam uma questão de cunho psicológico e filosófico que gira em torno da pergunta que nos acompanha por toda vida: afinal, quem sou somos? Quando se deixa a pátria e se escolhe outra para viver, dificilmente, é possível continuar a ser o mesmo que se era antes. Seoul Searching (2015), uma produção original da Netflix, dirigida por Beanson Lee, nascido em Los Angeles, EUA, segue esta linha, mas nos leva a um contexto diferente. Ele retrata o conflito interno e externo das gerações de coreanos nascidas no exterior, ou levadas para viver em outros países ainda pequenas.

Baseado em fatos reais, o filme nos apresenta aos eventos que ocorreram em um acampamento de verão, em 1986, na cidade de Seul, com um grupo de alunos adolescentes, todos descendentes diretos de coreanos, provenientes de diferentes países, que retornam à terra de seus pais, no objetivo de entrar em contato com suas raízes. O resultado final é o retrato de uma Coreia tentando reconciliar-se consigo mesma, em uma espécie de redenção dos erros cometidos no passado, que deixaram traumas e marcas que perduraram e foram transmitidas de uma geração a outra.

SEUL SEARCHING 3A medida que as histórias e dramas dos personagens nos vão sendo revelados, percebemos o quão ainda é difícil para esta sociedade, tão à frente em termos tecnológicos, conseguir avançar em assuntos humanos, permanecendo fechada em si mesma, com medo, ou desconfiança do estrangeiro, mesmo que este carregue seu DNA. Contudo, há um esforço que tenta promover mudanças de forma bastante paulatina, mas que se encontra ainda longe do ideal.

 

O formato do filme parece seguir um pouco a linhas das produções americanas destinadas ao público adolescente, mas não tem um teor necessariamente leve, ou uma veia totalmente cômica, tratando-se, antes de tudo, de um real drama que expõe mais uma vez os problemas sociais da Coreia. Com momentos de descontração, as atuações de jovens coreanos nascidos no exterior, que oscilam de satisfatórias a muito boas em diferentes momentos da trama; uma fotografia que investe na claridade natural dos ambientes em pontos positivos, e ambientes escuros em períodos de tensão; um cenário de uma escola que parece mais uma prisão; e um figurino baseado nas vertentes musicais ocidentais da época como punk, rap e etc, é possível construir um quadro de adolescentes que trazem novidades a uma Coreia que parece viver em um mundo aparte. Da mesma forma, as ações e comportamentos irreverentes, muitas vezes até agressivos dos personagens decorrem em razão também de um passado com pais alcoólatras e violentos.

Somado a isso, há outros elementos de conflito secundários, característicos desta fase da vida: primeiro amor, primeira relação sexual, busca de afirmação, bullying e etc. No entanto, a questão principal está no passado dos personagens que revelam indiretamente as consequências dos imigrantes que saíram de uma Coreia ainda empobrecida e com imensas dificuldades econômicas e políticas, para enfrentar diversos desafios em terras completamente alheias a eles. Para as novas gerações, que nasceram em terra estrangeira, restou o empecilho de serem criados por pais que cresceram em uma sociedade muito rígida, marcada pela guerra e por inúmeros governos ditadores que, por muito tempo, pouco contribuíram para o desenvolvimento do país. A rigidez e a pressão social impostas pelos coreanos sobre eles mesmos resultam em dificuldades de expressão de sentimentos e uma espécie de escravidão indireta das famílias que devem sacrificar tudo para provar serem bem-sucedidas, mostrando serem capazes de tornaram-se modelos nacionais exemplares.

Aos adolescentes, já acostumados com outras realidades, tal estrutura social não se demonstra nada interessante e acaba por impulsionar um conflito geracional sobre o que é ser coreano. Pois, diferentemente, do que os pais pareciam seguir, estes coreanos estrangeiros parecem não acreditar nos mesmo valores de auto sacrifício pela pátria. Sem falar que suas nacionalidades: mexicano, norte-americanos, inglês, japonês e alemão parecem trazer uma nova visão, questionando a forma de promover relações sociais da Coreia de seus pais. Apesar de possuir problemas interessantes para narrativas mais complexas, fazendo até acreditar que esta sociedade extremamente fechada em si, possa aos poucos estar abrindo-se para o mundo, Seoul Searching não dá a esperança de que os coreanos estejam ainda totalmente prontos para incluir o estrangeiro à sua sociedade. Há um caminho longo a ser percorrido.

O elenco de Seoul Searching
O elenco de Seoul Searching

Para nós, nascidos no continente americano, onde não há uma nacionalidade essencialmente vinculada a questão de raça, já que todos, de Norte a Sul, somos descendentes de imigrantes provenientes de diversas partes do mundo, é difícil de compreender a forma de pensar de uma população em que “nacionalismo racial, ou étnico” é forte e preponderante. Lembremos uma questão jurídica bastante básica, para nações como o Brasil, Argentina e EUA, a nacionalidade é transmitida ao nascer no território do determinado país em questão, e não pelo sangue como ocorre na Ásia e Europa.

Em diversos momentos do filme, de forma sutil nos é apresentada esta estranheza coreana com relação aos estrangeiros. A exemplo, estão os personagens que trazem uma visão completamente caricata e clichê das nações onde foram gerados e criados. Fica a dúvida se poderia ter sido uma crítica do próprio diretor à forma superficial com que os coreanos veem os outros países, ou se realmente seria esta também a percepção dele sobre latinos, alemães e etc… Tudo parece indicar que a primeira constatação é a mais acertada. Em uma cena, um dos professores do campo, Mr. Kim (In-Pyo Cha) contesta outros colegas seus que tem uma visão um tanto preconceituosa dos alunos estrangeiros. Afinal, como poderiam eles criar rótulos de pessoas, ou nacionalidades que tem quase nenhum conhecimento sobre o assunto, tendo eles também nunca saído da Coreia?

Mr. Kim, em si, é um cidadão solitário, que no passado foi uma poderosa autoridade da educação sul-coreana e cujo filho suicidou-se por não aguentar a pressão transmitida pelo pai para que ele fosse o melhor aluno do país. Contudo, após este terrível evento, ele se torna um sujeito mais aberto, que tenta entender estes adolescentes e ajuda-los em suas dificuldades.

Em outro momento, ao fazerem um passeio pela zona desmilitarizada, os adolescentes encontram-se com um grupo de estudantes japoneses. Um dos integrantes é um coreano-americano, que foi educado em instituições vinculadas ao exército dos EUA, obtendo aquele típica mentalidade que visa sempre incitar uma briga com antigos inimigos. Logo, confusão e pancadaria tomam conta do ambiente, em uma demonstração de como o passado ainda influência fortemente a visão dos coreanos com um de seus principais vizinhos. Uma relação em que o ódio ainda tem espaço para comandar as situações, impossibilitando um acordo de paz entre as duas nações.

Isso comprova-se na hora que os ânimos acalmam-se e o professor Kim, visando que os alunos façam as pazes, revela que todos ali, na realidade, são coreanos. Ou seja, os japoneses não eram japoneses, e sim coreanos, filhos de imigrantes nascidos no Japão. Logo, um questionamento vem à mente: poderia um dia vermos uma cena em que japoneses e coreanos consigam estar presentes, sem que o passado doloroso retorne?

Por fim, o alemão Klaus Kim (Teo Yoo) revela no início da história que tem uma namorada branca em Hamburgo. No entanto, ele acaba se apaixonando por uma coreana adotada por um casal americano, ao ajudá-la a encontrar a mãe biológica. Mais uma vez, há a situação de um homem coreano que, apesar de ter uma vida construída com uma estrangeira, facilmente após conhecer uma coreana, esquece da sua vida passada… O mesmo vale para as mulheres. Em diversos filmes e seriados da Coreia é possível observar esta questão que implicitamente nos revela que coreano devem sempre permanecer junto aos coreanos. Sempre que isso ocorre eu lembro de amigos jovens da Coreia que estão morando atualmente no Brasil, Europa e Rússia e que mantem relações amorosas e de amizade com pessoas de outras etnias, raças, cultura, religiões e nacionalidades.

O interessante e triste é que praticamente todos expressam frustrações com a falta de compreensão das pessoas em seu país de origem em aceitarem seus relacionamentos com não-coreanos, mostrando ser algo bastante significativo para eles e que, de seus pontos de vista, urge ser abordado e confrontado na Coreia.

Seoul Searching, apesar de querer impulsionar um enredo com uma reflexão que salienta ser imperativo o entendimento entre as gerações, perde a oportunidade de ser mais audaz ao não promover, por exemplo, a integração entre os jovens coreanos estrangeiros e os jovens coreanos nativos. Acaba que todos os acontecimentos ficam restritos ao universo dos coreanos estrangeiros, não possibilitando aos protagonistas terem a chance de realmente saírem desta redoma que lhes é imposta.

Provavelmente a escolha do cineasta tenha uma linha mais crítica, que optou em permanecer fiel à história real, em que os alunos são enviados de volta a seus países, pois os professores acabaram por não saber como controla-los. Ainda que não revolucione, Seoul Searching é provocante suficiente para incitar discussões importantes com momentos de descontração e de emoção que merecem nossa atenção.


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