As Olimpíadas de Inverno de Pyeong Chang 2018 transcorreram de forma muito bem-sucedida e a Paraolimpíada parece ter tudo para seguir o mesmo curso. Contudo, uma longa caminhada foi percorrida pela Coreia para chegar a tal resultado, com grandes frustrações ao longo da busca por este objetivo. De que forma algumas vidas foram afetadas individualmente por este processo é o que nos conta o filme “Take Off”, dirigido por Kim Yong-Hwa e lançado em 2009, há nove anos atrás.

O diretor trouxe às telas a história conturbada da primeira equipe coreana de salto de esqui. Em 1997, a cidade de Muju, na Coreia do Sul, pediu para sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2002. Os juízes do Comitê Olímpico Internacional, responsáveis pela escolha da cidade anfitriã, perguntaram-se como o país poderia tornar-se a sede dos jogos sem ter uma equipe nacional da modalidade esportiva. Devido a isso, um time é formado rapidamente, com integrantes com experiências e histórias de vida bastante interessantes.

O protagonista Heon-Tae, ou Bob, (Ha Jung-Woo) é um esquiador alpino treinado, que fez parte da equipe americana. Adotado por cidadãos daquele país, ele retorna à Coreia para procurar a mãe biológica que o abandonou. Neste meio tempo, o esportista é abordado pelo treinador Bang (Sung Dong-Il) que almeja recrutar membros para uma nova equipe nacional de salto de esqui, planejando participar das próximas Olimpíadas de Inverno de 1998. Os outros membros são Choi Hong-Cheol (Kim Dong-Wook), um ex-viciado em drogas e garçom de um clube noturno; Ma Jae-Bok (Choi Jae-Hwan), que trabalha em um restaurante, tem uma namorada chinesa e um pai rígido; e Kang Chil-Gu (Kim Ji-Suk) que mora com sua avó e irmão autista Bong-Gu (Lee Jae-Eung), vê no salto de esqui uma oportunidade para escapar da vida militar.

 

TAKE OFF 1

Sem experiência e não obtendo condições apropriadas para treino, a equipe prepara-se para a qualificação na Copa do Mundo, a partir de medidas extremamente criativas para superar a falta de neve e gelo, em lugares incomuns, como topo de carros e montanhas-russas de parque de diversões que já estão fora de funcionamento. Neste momento é possível lembrar o filme “Jamaica abaixo de zero”, de 1993, dirigido por Jon Turteltaub, sobre a história verídica da equipe jamaicana de bobsleigh, que mesmo com muitas dificuldades também consegue chegar às Olimpiadas. E, para além da falta de patrocínio, os atletas precisam superar o medo, os preconceitos e outros obstáculos, alguns que eles acabam criando para si mesmo, que vão de problemas sociais à psicológicos encontrados ao longo do caminho.

Após conseguirem milagrosamente a qualificação na Copa do Mundo para a Olimpíada de Nagano, no Japão, o grupo tem de amargar seu quase desmantelamento em razão da vitória da cidade de Salt Lake, nos Estados Unidos, sobre o condado de Muju, como sede olímpica de 2002. Mas a persistência do técnico Bang faz com o a patrocínio seja prolongado e eles consigam participar no jogos da cidade japonesa. Durante o evento esportivo do salto de esqui, uma falha técnica da equipe de organização nipônica, faz com que Chil-Gu salte em meio à névoa profunda, o que é proibido devido ao alto risco de vida para o atleta. Ele se fere e quebra a perna, tendo quase impossibilitado a Coreia de continuar seus saltos. Contudo, seu irmão autista Bong-gu decide substituí-lo, mantendo a equipe na competição.

Parcialmente baseado em uma história real, “Take Off” é uma produção que conta a história destes esportistas de uma forma extremamente humana e sensível. Ao mesmo tempo, o filme consegue ser bastante crítico, apontando preconceitos da sociedade coreana atual como o racismo, o preconceito ao casamento inter-racial e multinacional, a dificuldade em aceitar pessoas com alguma deficiência mental, psicológica, ou em reintegrar sul-coreanos que foram adotados por estrangeiros, ou imigraram; o desprezo dos mais ricos pelos mais pobres, a existência ainda de diferenças com antigos inimigos a exemplo do Japão e com parceiros/inimigos como os Estados Unidos, entre outras questões.

É interessante também notar que o diretor Kim Yong-Hwa buscou com este trabalho apresentar o esporte ao público em geral – o salto de esqui é ainda pouco conhecido entre os coreanos -, no intuito despertar um interesse maior pela modalidade e, desta forma, adquirir mais patrocínio para os atletas, que, na vida real, apenas cinco da modalidade em todo país, enfrentavam diversos obstáculos para seguirem com seu treinamento.

Talvez por este motivo, “Take Off” não tenha aquelas figuras heroicas como muitos filmes de esporte tentam retratar, objetivando promover uma espécie de nacionalismo bobo. Não, os personagens são extremamente humanos, com suas falhas, defeitos, qualidades e acertos. E a questão do orgulho nacional permanece bastante sutil, quase secundária, nos bastidores, pois o que importa, o que está em primeiro plano, é a luta pela construção de um grupo, do espírito de equipe, de uma família esportiva; assim como, o esforço de indivíduos que buscam melhorar suas vidas através do esporte, não apenas financeiramente, mas emocionalmente.

Os personagens desta trama acabam tendo de enfrentar seus próprios demônios, aceitando a si próprios como são e tentando perdoar e compreender uns aos outros e às pessoas que são queridas e próximas a eles.

Do ponto de vista técnico, trata-se de uma produção recheada de efeitos especiais e cenas de ação que trazem diversos elementos adicionais ao espectador, auxiliando-o a poder “experimentar”, de uma forma bem abstrata que seja, um pouco da adrenalina e do turbilhão de emoções que um saltador de esqui deve ter durante um salto. Algo que apenas o cinema, de todas as outras formas de arte, pode melhor ousar e incitar no público. A fotografia tem planos e ângulos que claramente foram pensados para inserir a plateia neste contexto, possibilitando, por exemplo, que possamos “acompanhar” o atleta/ator no momento do salto.

As atuações são outro quesito positivo desta produção e não apenas as dos atores vinculados aos personagens principais, mas as dos secundários e terciários também, aprimorando a carga emocional e dramática do enredo. É ainda correto afirmar que todos os indivíduos que aparecem ao longo da história têm alguma importância substancial na trama, não havendo personagens soltos, sem qualquer motivo maior para existirem no enredo, como ocorre em diversas produções cinematográficas.

Os dramas e os conflitos internos pessoais, assim como as performances esportivas estão bastante convincentes, podendo causar empatia da plateia com aquelas pessoas em diversos momentos. Com relação ao bom desempenho dos atores na prática esportiva, isso provavelmente só foi possível porque os reais atletas participaram dos ensaios e contribuíram para a preparação do elenco, durante as gravações. Por fim, ainda que tenha algumas falhas de narrativa, em que não temos os cenários que explicam melhor algumas situações, por exemplo, o porquê do técnico Bang escolher estes indivíduos, “Take Off” funciona no quadro geral.

Somado a isso, ao mesmo tempo que entretém, o filme parece trazer uma mensagem digna de ser considerada e absorvida: não é importante necessariamente estar em primeiro lugar naquilo que se escolheu fazer da vida, mas é essencial amar e aproveitar o que de melhor as experiências ao longo da trajetória podem dar, modificando positivamente você e o seu mundo individual como pessoa, como humano. Para além da competição, do perder, ou vencer, estão as lutas e transformações essenciais, muito mais significativas e valiosas, que, no caso destes saltadores de esqui, são impulsionadas pelo amor ao esporte.

Vejam o trailer (infelizmente sem legenda, mas dá para ter um gostinho…)

https://www.youtube.com/watch?v=a7n3QJ7QcQk


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