A Coreia do Sul como conhecemos hoje através de vídeos, notícias, cinema, TV, ou até mesmo pessoalmente, quase chega em um nível utópico. A economia do país costuma estar sempre entre as 15 maiores do mundo, com uma alta taxa de IDH, PIB e com uma taxa de desemprego baixa: 3,6%.

Com investimentos maciços em educação, quase metade da população sul-coreana tem Ensino Superior.

FOTO: jllapsites

Além disso, é um sinônimo de inovação tecnológica, com grandes empresas como LG, SamsungPantech Curitel, dentre outras.

Apesar de ser um país rico, existe uma taxa um tanto alta de desigualdade social, principalmente entre pessoas idosas.

A Guerra da Coreia, ocorrida entre 1950 e 1953, deixou a península coreana dividida e profundamente empobrecida. O Sul tinha um PIB per capita bem baixo.
A Coreia do Sul foi um dos países mais atingidos pela crise financeira asiática que eclodiu em 1997. No ano seguinte, seu PIB registrou uma queda de mais de 5%, segundo dados do Banco Mundial.

FOTO: economia ig

Quem vê a Coreia pelos números e “bons resultados”, não deve nem imaginar esses fatos, ou que existem favelas, onde milhares vivem amontoados, em situações precárias e de risco.

Imaginar isso nos trás quase um cenário de distopia à mente.

Esse é exatamente o cenário no filme Time to Hunt, ou Tempo de Caça, que foi lançado a pouco tempo no serviço de streaming, ~ disponível na Netflix ~. Um cenário distópico, uma Coreia devastada após uma crise econômica, alta taxa de criminalidade, todos tem armas, drogas, existe muita poluição, diversos protestos e a única moeda aceita é o dólar.

Após a vitória de Parasita em diversas premiações, incluindo o Oscar, a Coreia do Sul está sob os holofotes, todos querem saber o que virá depois. Por isso, Time to Hunt estava sendo muito esperado, e foi concorrido para ser visto no Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Após diversas polêmicas, adiamentos devido à pandemia e suspensão por problemas com liminares, finalmente, a produção do filme decidiu não estreá-lo nos cinemas, mas sim manda-lo direto para o streaming. Foi fechado um acordo com a Netflix para a distribuição do filme em mais de 100 países.

FOTO: koreatimes

Muito tem sido dito sobre o filme e as comparações com Parasita foram inevitáveis, pois assim como o filme de Bong Joon Ho, Time to Hunt fala sobre desigualdade social, mas o diretor, Yoon Sung-hyun, tem uma explicação para a comparação.

“A geração mais jovem usa correntemente uma expressão: ‘Hell Joseon‘ (significando uma sociedade infernal e sem esperança para o futuro, com desigualdade, desemprego entre jovens, horas excessivas de trabalho, impossibilidade de ascender social e economicamente)”, disse o cineasta ao Estadão“Isso mostra como a sociedade coreana está desesperada e num clima pesado, mesmo que na superfície não pareça – tudo está limpo, as pessoas são legais, as ruas estão em boas condições.”

Como já foi dito, os números podem ser bons, porém há problemas com raízes profundas, escondidos na sombra das coisas boas.

O diretor achou melhor falar sobre esse assunto usando o cenário distópico. Grande parte da inspiração veio de filmes como Mad Max, Blade Runner, e principalmente, Exterminador do Futuro.

Sinopse: Após um deles sair da prisão, 4 amigos planejam um assalto a um cassino clandestino, na esperança de sair de seu atual cenário distópico e ir em rumo a uma vida melhor. Mas o que parecia ser o plano perfeito, se torna um pesadelo.

FOTO: cinema10

De início temos Jun-seok saindo da prisão e reencontrando seu amigos, após receber 3 anos de sentença, por um roubo mal calculado, que ainda por cima não trouxe grandes lucros.

Após saber sobre a situação atual do país, com poluição, armas em todos os lugares e oportunidades escassas, Jun-seok conta a seus amigos seu sonho fantasioso de ir para algum lugar com praia e uma bela vista para o oceano, “onde a cor da água deve ser diferente“.

Após uma noite em um cassino clandestino, Jun-seok tem a ideia de rouba-lo e logo ele convence seus amigos, Jang-ho, Ki-hoon (interpretado por Choi Woo-sik de Parasita), e Sang-soo que trabalha dentro do cassino, e o plano inicia.

FOTO: imdb

Em seu tempo na prisão Jun-seok faz algumas conexões, alguém que possa levá-lo para uma praia em Taiwan e um traficante de armas, que o ajuda com equipamentos e munição para o assalto.

Tudo é bem planejado, como entrar e sair, quantos segurança tem no local, quais são os pontos com CCTV (Câmeras de Segurança) e como remover o hd das mesmas, tempo e rotas de fuga.

Na hora da execução, o cheiro de amadorismo e nervosismo se misturam no ar, levando o espectador a duvidar do grupo e do plano, mas no fim tudo parece dar certo. Porém no hd havia dados de transações, clientes VIP e lavagem de dinheiro. E então surge Han, um assassino que é contratado por gangsteres para recuperar o hd.

FOTO: cinema10

Han mata o traficante de armas, para tentar descobrir para quem ele vendeu equipamentos. Logo, vem o tempo de caça. Ele começa a perseguir o garotos, e se torna então, o “Bicho Papão.”

O filme quase parece ser dividido em 2 partes, temos a 1ª parte onde conhecemos os personagens, seu atual cenário, o planejamento do roubo e o ápice é a execução do roubo. O início é lento, até o roubo acontecer. Já a 2ª parte já é mais frenética, com Han perseguindo os garotos como um “Exterminador“, com diversas cenas de ação e tiroteios como em filmes de velho oeste.

FOTO: imdb

O diretor nos faz torcer pelo grupo, mesmo sendo ladrões, apontando que estão apenas querendo uma vida melhor, além de nos sensibilizar mais, ao contar que quase todos não possuem família, apenas um aos outros.

O caçador, Han, fica longe da simpatia do público, talvez por parecer sempre inatingível e inderrotável, além de que ele é apenas um assassino desconhecido que coleciona a orelha de suas vítimas, e não ser contido nem pela polícia e nem por gangsteres. Ele está sempre à frente dos protagonistas, além ficar brincando com os mesmos.

A fotografia e o cenário complementam o filme e seu tom, com lugares, paisagens, cidades abandonadas e/ou destruídas com muita fuligem e neblina. Vemos uma ênfase em cores como vermelho, laranja e azul.

FOTO: movieeden

Durante todo o filme o espectador sente o medo que os personagens exalam e quase todas as cenas possuem momentos de tensão. E ao simpatizar com o grupo, o espectador se torna uma presa, assim como os mesmos. Han parece conseguir sentir o medo deles, como um verdadeiro predador, sempre chegando sem ser percebido e abordando sua presa, porém diferente de predadores reais, ele não se cansa nem desiste.

O diretor desconstrói a visão  de muitos, sobre o país, ilustrando uma sociedade desigual, com ascensão impossível, que hoje na Coreia do Sul, a paisagem disfarça. Mas no fundo, o país é mal visto pela nova geração, que parece se esforçar muito, assim com os personagens, para ter uma vida melhor e ascender na sociedade.

O final pode ter algumas interpretações, porém é claro que ainda teremos mais tempo de caça. Além disso, temos uma possibilidade de continuação, existem apenas especulações sobre a uma possível franquia, que pode ser ou não necessária.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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