O conservadorismo da sociedade coreana é um prato cheio para o impulso criativo da indústria cinematográfica deste país. Talvez seja uma das razões que expliquem a existência de diversos filmes com histórias sobre amores impossíveis. “Um Homem e Uma Mulher”, de Lee Yoon-Ki (2016), é mais uma produção que trata de um tema já retratado em outras obras ao redor do mundo, mas que continua polêmico: a paixão extraconjugal, ou, para muitos, a traição.

Contudo, a forma como Lee Yoon-Ki desenvolveu o seu enredo não torna a abordagem da questão como algo clichê, do estilo “mais do mesmo”. A sensibilidade e a sutileza que percorrem toda a trama, dando um toque de cotidiano da vida real, auxiliam a conduzir o espectador ao universo de personagens tão parecidos aos indivíduos que encontramos no dia-a-dia. Todos nós podemos ter passado por uma situação semelhante, ou podemos conhecer alguém que tenha vivenciado algo parecido com o que Sang-Min (Jeon Do-yeon) e Ki-Hong (Gong Yoo) experimentaram.

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Sang-Min (Jeon Do-yeon) e Ki-Hong (Gong Yoo)

Sendo sua primeira parte filmada em locações na Finlândia, durante o inverno, o filme conta com uma fotografia encantadora em seu início, que dialoga perfeitamente com os aspectos psicológicos que o diretor deseja transmitir. Da mesma forma, a trilha sonora também é um aspecto importante, tornando-se não um elemento a mais, mas uma peça essencial para indicar a intensidade dos sentimentos do casal que em instante sai de um estágio de recém conhecidos para o sexo casual.

Todos estes itens são uma complementação para a peça chave do filme que é a interpretação introspectiva e extremamente emocional que Jeon Do-yeon e Gong Yoo disponibilizam ao público. A química entre eles é vibrante, e mesmo Gong Yoo sendo bem mais novo que Jeon Do-yeon, eles equilibram-se de tal forma que nem esta diferença pode ser percebida. Ambos são ótimos atores, muito expressivos e que normalmente conseguem dar a carga emocional adequada para seus diferentes trabalhos no cinema.

Ela, nesta história, vive Sang-Min, uma mulher casada que está na Finlândia para acompanhar o filho autista, que está matriculado em uma escola especial para alunos que apresentam tal condição. O vínculo entre mãe e filho é muito forte, ao ponto de se tornar um pouco doentio. Um exemplo desta condição ocorre quando Sang-Min permite que o filho participe de um passeio na escola, mas se preocupa se ele ficará bem. Assim, ela chega ao ponto de pedir aos coordenadores da instituição que a deixem participar da viagem. Obviamente, ela é persuadida a deixar o filho sob os cuidados da escola. Desta forma, um pouco contrariada ela se afasta, andando um pouco sem rumo, e encontra Ki-Hong, um arquiteto coreano que está na Finlândia a trabalho e cuja filha, que sofre de depressão profunda, também estuda na mesma escola.

Ela pede um cigarro a ele e que a leve até o local do acampamento. Após ver onde o filho estava, Sang-Min decide voltar, mas uma nevasca bloqueia a estrada, fazendo com que ambos tenham de passar a noite em um hotel. A sequência de acontecimentos nesta parte do filme é bastante interessante, pois é possível sentir a atração de ambos despertando aos poucos, através de fatos extremamente banais, como jantar e socializar.

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O ápice deste “encontro” ocorre quando eles, no dia seguinte, em um passeio antes de seguirem viagem, encontram uma sauna finlandesa, no meio da floresta, onde param para descansar e acabam transando. As cenas íntimas também são interessantes, pois apresentam muita sensualidade, não possuindo nudez, nem sexo gratuitos, ou que vise apenas atrair, ou chocar o espectador.

Todas as tomadas dos corpos dos atores estão em consonância com o romantismo e a delicadeza destes dois personagens que parecem poder viver uma certa liberdade, e uma certa felicidade no exterior que não é possível em seu país de origem, local onde se passa a segunda parte da história.

Após uma despedida fria de Sang-Min na Finlândia, vamos saber mais sobre ela e sua vida cotidiana na Coreia do Sul. Trata-se de uma outra pessoa. Uma profissional bem-sucedida, nada frágil, que organiza espaços para eventos e lojas de moda. Contudo, sua relação com o marido é fria, já que ele não se mostra nem um pouco carinhoso, ou atencioso com ela e o filho. Ki-Hong, por sua vez, também tem sérios problemas com sua esposa, uma pessoa emocionalmente muito instável, o que nos leva a compreender um pouco do porquê de ele visivelmente não ser uma pessoa feliz e decidir reencontrar Sang-Min. O filme percorre toda esta problemática que os personagens constantemente perguntam-se: devemos seguir em frente, ou sacrificar-se pela família?

A resposta é fornecida no desfecho do filme, de forma simples e sutil, praticamente sem diálogos e com alta carga dramática. Trata-se de uma obra cinematográfica que, na realidade, também está lidando com questões de família e como esta instituição social encontra-se em crise, ou pode constantemente desmoronar. Em outras palavras – não existem pessoas perfeitas, como amam apresentar os comerciais de margarina…

Poderiam os filhos de Sang-Min e Ki-Hong terem uma vida melhor, se ambos decidissem fica juntos? Às vezes, não é possível ter tudo nesta vida, em razão de algumas das muitas responsabilidades que nos são impostas ao longo de nossa trajetória.

A exemplo do demonstra este filme, crianças com problemas de saúde e conjugues com uma estrutura psicológica e emocional frágil acabam por fazer escolhas conservadoras, porém compreensíveis.

Boa sessão!

Trailer


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