O amor verdadeiro pode também ter um final trágico e triste, capaz de enclausurar para sempre. Em um dos mais bem-sucedidos filmes de bilheteria e crítica do cinema sul-coreano ‘’A Werewolf Boy”, uma mistura de melodrama e fantasia, dirigido por Jo Sung-Hee, lançado em outubro de 2012, tem a capacidade de envolver o espectador em uma linda história de amor entre um lobisomem e uma garota normal, que foge bastante a forma tradicional que a temática normalmente é utilizada em Hollywood e outros países.

A já avó Soon-Yi (Yeong-ran Lee) vive nos Estados Unidos com a família, quando recebe uma ligação que a faz retornar à Coreia, para uma casa no campo, onde ela durante a sua juventude viveu com a sua família. A trama retorna àqueles dias, em que a mãe dela (Jang Young – Nam) muda-se com os filhos, buscando um ambiente mais saudável para Soon-yi que sofre de um problema de saúde grave nos pulmões. Ela tem a ajuda de Ji-Tae (Yoo Yeon-Sook), filho do sócio de seu marido, já falecido, que auxilia a família em praticamente todos os seus assuntos. Ele é apaixonado por Soon-Yi e planeja se casar com ela, mas como típico homem conservador, que confunde amor com desejo de controle e posse, a relação dele com a heroína desta história é tensa e cheia de conflitos. Por sua vez, ela é uma garota jovem e solitária, que vive praticamente enclausurada, em razão de sua condição frágil.

Depressiva, ela extravasa seus sentimentos em uma espécie de livro-diário, onde narra de forma poética suas emoções e histórias. Um dia, à noite, ela houve um barulho estranho de um animal andando pelo lado de fora da casa, enquanto todos dormiam, vai atrás dele, mas não consegue capturá-lo. Já à luz do dia, a criatura revela-se ser apenas um menino, sujo e maltrapilho, mas que age como um animal, parecendo nunca ter tido contato maior com humanos. Em uma cena passada, que remete há um tempo em que um outro morador habitava aquela residência, temos um homem que solta o que parece ser um animal selvagem enjaulado, ao menos é o que parece, pelos rugidos que vem de trás de uma porta. Logo percebemos que aquele era Chul-Soo (Song Joon-Ki), o menino lobisomem.

 

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A mãe tenta entrega-lo às autoridades, inclusive paga propina à um dos agentes para acelerar o processo e encontrar um lugar para aquele estranho garoto. Contudo, deverá esperar pelo lento procedimento burocrático e cuidar dele, mantendo-o em sua casa. Chull-Soo não é uma ameaça, apesar dos seus maneirismos e ações animalescos, como jogar-se desesperado sobre à mesa posta e literalmente devorar os alimentos. Não há saída, a família deve buscar formas de poder conviver com ele. Porém, o fazem sem temer a vida, pois ele jamais as ameaça. A mãe dá banho nele e o veste decentemente. Com um rosto de anjo, os vizinhos e outros oficiais pensam tratar-se de mais um órfão de guerra, mas logo se vai saber que ele foi uma experiência militar malsucedida que visava criar um humano com características de lobo, no intuito de formar um super soldado, uma arma de destruição poderosa. A condição humana ainda restante, faz com que o querido lobisomem tenha atitudes que vão conquistando Soon-Yi, ao protege-la dos perigos que a cercam, em especial das investidas e assédios de Ji-Tae; e exemplo de um cão que tenta proteger o seu dono, quando pressente através de seus instintos que o seu humano está sob ameaça. Estas reações fazem com que ela queira aproximar-se dele, e assim o faz com a ajuda de um manual para treinar cães.

Primeiro, ele aprende a obedecer aos seus comandos, através da ordem que ela emite “espere”. Desta forma, ela vai educando aos poucos o seu amigo homem/animal e criando um laço forte com ele. Neste processo, Chul-Soo vai assumindo e revelando o seu lado humano, mesmo sem emitir uma palavra, ao ponto que percebamos que ele conseguiu chegar a um meio termo entre besta e pessoa. Tudo que aprende com Soon-Yi, ele repete com o objetivo de manter contato com ela. Após ter realizado alguma tarefa de forma acertada, ele recebe um carinho na cabeça, o mesmo artificio que acaba utilizando para agradecê-la posteriormente. Ela também o ensina a ler e escrever, esperando que um dia também possa vir a falar. Nestes momentos, que apesar de banais, são bastante íntimos, é possível captar os sentimentos de amor e carinho que ele vai criando por sua educadora, almejando sempre um carinho na cabeça, ou que ela cante para ele. Em seus olhos, sua reação e expressão corporal é claro que aquelas pequenas coisas são-lhe a maior fonte de prazer e alegria. Ao ouvir Soon-Yi tocar e cantar pela primeira vez, o rosto de nosso personagem principal não deixa dúvida: há amor e encanto, ele se apaixonou por sua dona.

A interpretação de Soon Jong-Ki surpreende e prova que o ator é capaz de ser muito mais que um galã, ou um “boy flower” dos K-dramas. Sem o artifício da fala, ele consegue transmitir uma gama de emoções, responsáveis em prender e comandar o espectador durante todo o enredo. Seus sentimentos são sinceros e puros, abstraídos de qualquer atitude ardilosa, típica dos humanos. E sua transformação como lobisomem só ocorre quando Soon-Yi está em perigo – outro artifício interessante utilizado pelo diretor que substituiu a lua cheia, ou outras causas que fazem o homem transformar-se em besta. Na realidade, é o amor e apreensão que sente pelo ser amado que fazem emergir o que de mais violento, primitivo e feio há nele. No entanto, mesmo nestas condições, ainda permanece nobre, diferentemente de Ji-Tae, o real monstro da história, que mata, calunia e subjuga apenas para conseguir o que quer. Deste ponto, temos uma clara analogia aos clássicos que mostram criaturas, ou humanos deformados como em “A Bela e a Fera” e “O Corcunda de Notre-Dame”, em que o mal não está naquele que tem a pior aparência, ou é considerado alguém muito estranho e diferente para o convívio em sociedade, mas sim no cidadão normal e bonito, que guarda dentro de si os piores valores e o que há de mais destrutivo no homem.

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Os planos de Ji-Tae farão com que Chul-Soo tenha de ser perseguido pelas autoridades e Soon-Yi deva escapar com ele, para depois abandoná-lo, a fim de evitar que seja capturado e morto. Em prantos, nossa heroína despede-se de sua amada criatura que, para persuadi-la a ficar, emite suas primeiras palavras: “não vá”! Ela se vai, mas deixa um bilhete em que promete voltar, fazendo-o esperar por 47 anos, na mesma casa. Já idosa, ela reencontra seu antigo amor, ele está lá esperando por ela, imutável, parado no tempo, cumprindo a ordem que foi dada, mas também extremamente feliz por reencontrá-la. Ele chegou a catar os pedaços do violão que Ji-Tae tinha destruído, almejando que ela tocasse mais uma vez para ele. Soon-Yi, comovida o liberta da sua espera, mas depois vai embora. Não vende a sua casa, principal objetivo de ter voltado à Coreia, abandonando e deixando Chul-Soo em uma eterna espera por ela.

O casal inusitado desta trama tem diversas características muito semelhantes. São solitários e vivem presos, sem poder explorar o mundo, em consequência de questões que estão fora de seus controles. Contudo, a vida forneceu mais uma chance à Soon-Yi que vive por longos anos, casa-se, tem filhos, não esquece Chul-Soo, mas também não retorna para libertá-lo de sua condição. Mesmo que a intenção dela fosse deixá-lo para não ser morto, ela o aprisionou em uma espécie de espera solitária eterna, provando a crueldade de um sentimento de culpa, por aprisionar uma criatura tão pura e inofensiva, mas que também não é nobre suficiente para libertá-lo. Em um ambiente bucólico, repleto de cores quentes do campo e planos que revelam a expressão corporal de magistrais atuações, “A Werewolf Boy”, por trás deste dito “amor”, nos revela a incapacidade do ser humano de doar-se ao outro, como um animal de estimação faria, mantendo-se preso aos caprichos de seu dono até o fim de seus dias.

Veja e trailer e se apaixone pela história!


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