Acredito que a esta altura do campeonato todos devem ter visto a foto do menino morto na areia… Como pai, foi uma das cenas mais tristes que já vi na minha vida, pude sentir a dor do imigrante que perdeu os seus dois filhos e a sua esposa. Uma semana antes, um refugiado sírio chamado Laith Majid conseguiu chegar na Grécia com a sua família em um pequeno barco inflável, depois de passar apuros com a embarcação que estava perdendo ar e afundando. Em ambos os casos, o que podemos ver são pessoas que fugiam em busca de uma vida melhor.

O Refugiado Sírio Laith Majid E Sua Família Chegam À Grécia.
O refugiado sírio laith majid e sua família chegam à grécia.

Mas o que é uma vida melhor? Talvez não seja fácil para entendermos o que move alguém a deixar para trás a sua identidade, o seu lugar e os seus amigos para se aventurar em lugares onde muitas vezes não é bem-vindo. Como ocorre por exemplo, com os haitianos quem vem para o Brasil fugindo da situação de penúria em que se encontra atualmente o Haiti. O nosso país foi formado por estrangeiros vindos dos mais diversos lugares do mundo e mesmo assim, existem pessoas com dificuldades em aceitar que o mundo é dinâmico e que faz parte do instinto humano perseguir seus sonhos, seja dentro ou fora do seu país de origem.

E foi justamente esse espírito que moveu os primeiros imigrantes coreanos a partir em busca de novas oportunidades, principalmente após a Guerra da Coreia. O país estava extremamente enfraquecido com a maioria da população passando fome e muitos saíram para países como China, Japão, Rússia, Estados Unidos e Inglaterra. Em um segundo momento, a América do Sul também se mostrou um destino muito procurado e dentro dele, o Brasil. E foi assim que estou aqui, escrevendo este texto para vocês de São Paulo, onde se concentrou a maioria dos imigrantes coreanos que vieram para cá.

Meu Avô: Quatro Gerações Da Minha Família.
Meu avô: quatro gerações da família no brasil.

Gosto muito de ouvir histórias do meu avô, que tem 95 anos e que também é um imigrante no Brasil. Ele nasceu em Pyongyang durante a ocupação japonesa, antes da Coreia ser dividida em dois países e foi imigrante duas vezes, a primeira para fugir de Pyongyang para Seul para fugir dos comunistas que estavam ocupando as terras ao norte e a segunda para sair de Seul após perceber que teria dificuldades em manter a sua família dentro do contexto econômico e social bastante complicado que castigava a Coreia. Juntou coragem e em 1976 deixou tudo para trás em direção ao Brasil, lugar que muitos consideravam na época o país do futuro (e eu pessoalmente ainda acredito que o é). Um dia desses eu conto algumas dessas histórias para vocês, tem muitas que são tristes mas também muitas bem engraçadas!

Para se ter uma ideia da coragem requerida para fazer algo assim, basta fazer um exercício de imaginação. Pegue tudo o que puder para encher duas malas e com apenas R$500 vá para algum país desconhecido, digamos o Cazaquistão, para se estabelecer por lá. Sim, não é fácil e provavelmente não deve ter sido fácil para não só o meu avô, mas para todos os imigrantes que aqui vieram no passado incluindo os antepassados da grande maioria dos brasileiros, especialmente os que vieram na condição de escravos.

Brasil, Um Lindo País Multicultural!
Brasil, um lindo país multicultural!

E assim, volto ao início do texto. Não posso dizer que entendo a situação pela qual passa o refugiado sírio que perdeu o filho, porque a tristeza que ele sente neste momento deve ser algo fora dos limites humanos. Mas entendo as razões que o fizeram fugir da sua terra natal, assim como entendo a motivação dos milhares de bolivianos, peruanos, haitianos e chineses que ainda vem para cá nos tempos atuais, em busca da felicidade. Como brasileiros, devemos ter empatia com eles e dentro dos nossos limites recebê-los com todo o carinho pois isso só faz aumentar a beleza do nosso Brasil, um país multicultural formado por pessoas cordiais e com o coração aberto. Exatamente o tipo de pessoa que encantou o meu avô quando aqui chegou! 🙂

 

Bruno


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

6 COMENTÁRIOS

  1. Empatia é a palavra. Eu não entendo como as pessoas podem julgar esses refugiados que assim como elas possuem medos e sonhos. Não entendo como é tão difícil tentar se colocar no lugar do outro. Eu também não sei o que é isso, deixar tudo, sua casa, sua vida, pra poder buscar uma condição melhor em um país que você não conhece e vai enfrentar outras dificuldades… Mas eu entendo perfeitamente que essas pessoas precisam ser acolhidas. A gente nunca sabe quando uma situação dessas pode acontecer com a gente. O que me entristece mais ainda no Brasil é que nós somos mais negros do que brancos e nós ainda somos racistas. Nós ainda desprezamos o haitiano pela sua cor de pele, nós ainda negamos nossa história. Ao mesmo tempo que o Brasil é um país multicultural, ainda é um país muito seletivo e racista, até mesmo com orientais. Quem nunca ouviu piada sobre japonês ou nunca viu alguém imitando um chinês? Ainda há muito que mudar na sociedade, por isso essas discussões devem sempre ser abordadas, pra que as pessoas possam despertar um pouco pra realidade e possam ter um pouco mais de empatia.

    • Bem colocado, Bianca! Faço das suas palavras as minhas. Quanto às piadas de japonês ou chinês, já ouvi um monte e em geral levo na esportiva. Mas o triste mesmo é quando alguém diz para você “volta pra tua terra!” e vejo que ele mesmo é descendente de imigrantes… 🙁

  2. Muito bem abordado, Bruno. Se a empatia fosse sentida e praticada, reduziríamos tragédias anunciadas como essa. Brasileiros que praticam o ódio ao haitiano é o mesmo que deseja um greencard no “American Dream”, como se o direito de ir e vir fosse somente dele. Óbvio que a proporção e as dificuldades de quem decide fugir de sua terra pro conta de uma guerra é imensurável, mas como bons seres humanos e, teoricamente, seres pensantes, poderíamos ao menos assumir nossa construção identitária através do outro, sem julgar ou transformar vigências/estereótipos de uma cultura pejorativamente.
    Acho que me alonguei demais hahahaha
    Mas parabéns pelo post!

  3. Fico feliz que muitos têm esperança no Brasil e buscam nele o que não se encontrou em sua terra natal. Fico profundamente triste, quando dizem palavras desanimadoras em relação aos que necessitam. O sentimento que aqueles no acolhimento deve ser bom,mas quem acolhe de coração, certamente, tem um sentimento maior de aprendizagem.Infelizmente muitos ainda dormem na ignorância do egoísmo e esquecem que aqui é um país cujo povo é miscigenado. E que sejam bem vindos os que precisam de nós, porque nós também precisamos deles, para que deixemos um pouco de ser egoístas e nos tornarmos mais fortes e caridosos.

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