Similar ao ocorrido na Espanha, Portugal (1974-76) e no Brasil (1978-83), desde os anos 1970, a classe trabalhadora coreana até o fim da década de 1980 superou as fundações de um exercito militar e ditadura, com as greves em massa nos anos de 1987-1990. As greves resultaram na formação breve (1990-94) de sindicatos democráticos radicais em busca de aumentos salariais em todos os setores. Mas, o sistema, como em muitos outros países, não levava em conta essas reivindicações nas ditas medidas democráticas.

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Foi em meados da década de 1980 para ser exata, de 1985 a 1996 que o governo sul coreano tomou uma série de medidas experimentais que resultaram em diversas greves e em um choque de antigas leis e a má transição das estruturas governamentais com as praticas de trabalho moderno.

Vale lembrar aqui, muito resumidamente, que a industrialização coreana foi extremamente tardia, e resumida a produzir para o império japonês. Apenas com o fim da Segunda Guerra Mundial podemos considerar que a Coreia começou a se industrializar para si mesma. Mesmo com todos os problemas trazidos com a Guerra da Coreia, nas décadas de 1950 e 1960 o esforço era para acompanhar outras nações, e produzir o suficiente para não somente reconstruir as estruturas do país, mas também se inserir no mercado internacional. Como resultado houve uma Rápida Industrialização, e como tudo que é feito muito depressa traz algumas consequências negativas, na Coreia do Sul não foi diferente. Quero dizer que adaptar uma industrialização e uma democracia a partir dos anos 1950, influenciadas por modelos externos, resultou num afastamento de padrões já conhecidos na sociedade.

A incompatibilidade  com práticas de trabalho modernas levou a Coreia do Sul a viver greves associadas às baixas taxas de juros  e valores do dólar e petróleo. Para compensar as baixas, as empresas tentaram instituir práticas de cortes de custos, demissões e dependência de trabalhadores contratados e de meio período, além de revogar aposentadorias voluntárias e a inclusão de uma politica de trabalho sem pagamento (escravismo).

Panorama Geral

Para adaptar o modelo de industrialização e benefícios políticos, o New Korea Party (NKP) e o comitê de Reforma das Relações de Trabalho e Gestão (LMRRC) foram criados em maio de 1996, apenas com trinta membros que realizavam várias audiências publicas sobre a criação de novas politicas trabalhistas, mas principalmente a nova lei trabalhista. Essa nova lei facilitaria as empresas no sentido de lhes dar poder de demissão em massa, aumentar a jornada de trabalho legal em 12 horas e permitir que as empresas modifiquem o horário de trabalho, e a inclusão de trabalho escravo durante greves legais além do não pagamento durante períodos de greve.

O cenário sociopolítico coreano causador de conflitos com extremo autoritarismo nas leis trabalhistas tornou a produção incompatível com o crescimento do liberalismo na economia global. De 1986 a 1988 a economia sul coreana  teve um repentino aumento que resultou em medidas de interesse voltado a rankings de produção, preço baixo de petróleo e uma queda no valor do dólar sobre o yen, conhecida como “Três Baixas”.

Durante este período a economia coreana poderia absorver os custos e custear as relações instáveis de trabalhadores. Mas com as “Três Baixas” a economia nacional começou a se deteriorar. O crescimento econômico mostrou duvidosos valores. No fim da década de 1980 as causas de instabilidade estavam claras: O crescimento de organizações asiáticas em bloco econômico de mercado (Hong Kong, Cingapura e Taiwan) na concorrência exportadora com produtos coreanos no mercado mundial enquanto os países industrializados avançados continuavam a alta revenda desses produtos importados com valores adicionados no mercado interno.

Nesse ambiente de economia variável, os trabalhadores coreanos se sujeitavam a muita produção a pouco custo para adequar as indústrias locais nas estruturas do mercado internacional.

Assembléia de lideres grevistas e os trabalhadores já em greve.
Assembléia de lideres grevistas e os trabalhadores já em greve.

As organizações de trabalhadores incluindo o conservador Federation of Korean Trade Unions (FKTU) e o progressista Korean Confederation of Trade Union (KCTU) insistiam que as leis promulgadas permitissem mais de um sindicato se envolvesse na representação de trabalhadores em um local de trabalho.

Por volta de 10 de novembro de 1996 foi realizado um encontro de consulta politica para decidir e estabelecer novas medidas governamentais lideradas pelo primeiro ministro sobre as reformas trabalhistas. Assim em 3 de dezembro o governo redigiu um projeto de leis trabalhistas, refletidas nos interesses dos donos de indústrias acima dos trabalhadores, com as companhias desejando o aumento de produtividade, introdução de novas tecnologias  e desativar outras corporações para aumentar a produtividade, permitindo grande número de  demissões. Também legalizou a flexibilidade de horário, permitindo que as firmas estabelecessem extensas horas de trabalho em períodos de pico reduzindo depois dos períodos normais ao invés de pagar por horas extras.

Parlamento em votação.
Parlamento em votação.

Imediatamente após a madrugada de decisões do governo sobre a legislação, grevistas e protestantes se aglomeraram através de todo o país. Anunciando na manhã de 26 de dezembro de 1996 uma greve indefinida até o ultima regra da nova lei fosse revista e melhor reformulada refletida nos direitos dos trabalhadores. Imediatamente esses atos antidemocráticos contra as relações trabalhistas levaram a uma enorme reação dos movimentos que já reivindicavam o fim das medidas impostas. Por vinte e três dias milhares de trabalhadores tomavam as ruas em greve, aumentando cada vez mais o numero de integrantes, cada  vez mais determinados  a se opor as leis e ao governo.

Com forte capacidade de organização, as ações grevistas tomaram conta do país entrando definitivamente para a história. Graças a coligação das instituições FKTU e KCTU o rumo que a greve tomaria foi definida pela união dessa coligação. A FKTU e sua capacidade de mobilizar ações coletivas, tornando-se conhecida por captar e complementar as respostas às demandas de negociações. Enquanto a KCTU, formada em 1995 era uma organização bem sucedida em formulações de objetivos e inclusive com membros inseridos no meio politico, o KCTU abraçou causas radicais de união e movimentos em apoio as politicas trabalhistas.

Apesar das relações de ganhos tanto da FKTU e KCTU, quanto a conquista de apoio e união de trabalhadores ao redor do país, incluindo a combinação de seus poderes, ainda eram insuficientes para anunciar a greve geral em janeiro de 1997. Primeiramente por que as organizações menores relutavam a acompanhar as greves além  da falta de financiamento de recursos para anunciar a greve geral  a fim de se manter bem nivelada em suas atividades  colocaram em risco as moções de trabalhadores.

Apesar da sociedade ainda conservadora, os líderes da greve levantaram ao publico a situação ao pedir apoio geral. Assim, a associação de cidadãos incluindo a National Alliance for Democracy e a National Unification, e até mesmo Korean Catholic Priests Association for Justice, e o Citizes’ Coalition for Economic Justice, entre outros estabeleceram suporte aos grevistas e circularam petições através de retratação publica. Parte de cidadãos individuais também doaram fundos para apoiar a greve a fim de torna-la legal. Arrecadados assim, mais de 100 milhões de won em vinte e três dias, de acordo com a KCTU.

Capturar

A conjuntura favorável, em ter a maior parcela de cidadãos e organizações em apoio  à greve geral, resultou na energética participação dos outros trabalhadores, ignorando assim as instituições, e desvantagens envolvidas ao aderir as reivindicações. Quase 12 milhões de trabalhadores e cidadãos comuns se juntaram a Greve Geral, como o primeiro movimento em massa de trabalhadores contra as corporações de globalização no mundo.

Muitas assembleias, barricadas, confrontos entre policiais e grevistas tomavam conta das noticias do país durante o mês de janeiro de 1997.

Confronto entre policiais e grevistas
Confronto entre policiais e grevistas

A oportunidade politica foi criada pelo modo que os governantes  ignoravam os trabalhadores e a capacidade dos líderes sindicais de mobilizar rapidamente a comandar em união disponibilizando aliados de grupos para enfrentar os desafios de confronto. Esses aliados incluíam servidores públicos e simpatia de civis, além de apoio de professores, estudantes e intelectuais, além do apoio da oposição partidária do então atual presidente Kim Young-sam reforçados pelo apoio das organizações de direitos humanos.

Policia em atividade anti protestantes.
Policia em atividade anti protestantes.

Tal união influenciou  o caminho que a Greve Geral tomaria.  A capacidade de mobilização alertou os trabalhadores em greve a combater as ações.  A repressão levou forças distintas a ações coletivas  baseadas em resoluções através de conflitos que drasticamente diminuíam as principais causas e espirito do inicio da greve. Então oportunidades de ações policiais em confronto, afetaram o escalonamento de ação coletiva dos trabalhadores.

Era preciso superar os conflitos com policiais permitindo que os trabalhadores reivindicassem ações bem mais sérias.

A administração ao persuadir objetivos incompatíveis continuava limitando o modo que as conversas entre todas as partes e retirada estratégicas eram parte do desafio.

Com a constante pressão  internacional (devido a crise do FMI) e nacional, o presidente Kim Young-sam,  percebendo que a economia começava a sofrer consequências drásticas devido a longa greve resultando em cerca de 3 bilhões perdidos em produção e exportação.

Encontro que visava acordo entre os interessados.
Encontro que visava acordo entre os interessados.

Decidido a rever a legislação, o presidente Kim e membros da NKP com os lideres grevistas passaram a fazer concessões. Os lideres da greve ofereceram-se ao dialogo  e em 17 de janeiro o presidente passou por uma serie de encontros com lideres civis e religiosos para explorar soluções para as greves.

Apesar do sucesso repentino de união entre civis e trabalhadores na greve geral, aos poucos desentendimentos internos trouxeram o enfraquecimento de apoio e trabalhadores começavam a  repensar a volta ao trabalho.

Assim, em 12 de fevereiro lideres de dois partidos de oposição ao governo concordaram em entender sessões extraordinárias a contrapropostas das leis trabalhistas trazidas pelo governo.  Em 17 de fevereiro os partidos não entraram em acordos de propostas e recomendações até que em 24 de fevereiro, debates entre oposição e governo, enfim entravam com algumas decisões.

Presidente Kim Young-sam.
Presidente Kim Young-sam.

Contudo em 10 de março de 1997, os advogados e parlamentares finalizaram as medidas e mudanças na legislação trabalhista. Não muito diferente do original, mas algumas mudanças foram feitas. O consenso geral na época era de que os sindicatos não atingiram seu objetivo original e que as mudanças eram em sua maioria insignificantes. O princípio “sem trabalho, sem pagamento” foi autorizado a continuar, os professores e os funcionários públicos ainda não recebiam benefícios integrais do sindicato e os empregadores podiam parar de pagar aos líderes sindicais. No entanto, a implementação do programa de demissões flexíveis foi adiada por dois anos. Também foi extinguindo, por exemplo, situações de trabalhos escravos,  trabalho sem o pagamento de horas extra.

trabalhadores

Caracterizado como confronto entre governo e nação por leis que privilegiavam somente uma classe no mercado, a greve geral de 1996-97 revela problemas políticos e econômicos refletidos na sociedade, acumulados em anos. Os descontentamentos de trabalhadores causaram uma larga e coletiva ação em eventos que transformaram o sentido de ações em comum pela estabilidade de organizações. A recepção dos cidadãos atribuiu extrema importância das ações legais perante as oportunidades politicas.

É uma união que cresceu em capacidade e duração comparada as pequenas greves das décadas anteriores e o apoio moral da nação geral combinaram em resultados positivos para a classe trabalhadora.

Enfim, no final daquele ano de 1997,  o governo sul-coreano foi forçado a pedir ao Fundo Monetário Internacional (FMI) emprestimo de 57 bilhões de dólares devido a uma série de crises cambiais e financeiras. Isso forçou a Coreia do Sul a adotar mais políticas trabalhistas ocidentais para se mantiver competitiva com as empresas estrangeiras e, por causa de um Fundo Monetário Internacional, liderou o plano de ajuste estrutural, invocando novos movimentos entre a sociedade e trabalhadores.

Mas isso é assunto para outro artigo.


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